21 janeiro 2019

Poema de eleição - Por: Emerson Monteiro


Pois não é que, sem mais, nem menos, Janaína me perguntou, numa mensagem, qual seria o poema de que mais gosto... Isso que me colheu de repente, e fiquei meio assustado de nunca haver pensado nisto. Mas viajei na surpresa e busquei entre os cacarecos da memória pedaços de lembranças dos tantos e tantos poemas que me tocam, eu que já declamei alguns no Jogral Pasárgada, à época do Colégio Diocesano.

Poesia clássica, romântica, moderna, de vanguarda, sertaneja, traduções, o que quer que fosse, que valha a pena nesta hora. Versos, reversos; poemas livres; rimados, metrificados; conhecidos, desconhecidos; em prosa; concretos; abstratos; tristes, alegres; venturosos, místicos; tradicionais, recentes?! Andei, que andei; olhei as prateleiras do juízo, isso num ritmo breve, porquanto não aceitaria nunca não ter um poema de predileção, eu detentor do prazer das palavras, espécie de virador das folhas secas dos livros, heranças inevitáveis dos dias, assim qual cão farejador dos inspirados autores.

Até no sentido de livrar a cara de mim mesmo, numa chamada à responsabilidade pelo tempo aplicado no filão das letras, e tratei logo de achar a resposta que devesse à filha indagadora.

Andei na seara dos confidentes das horas de solidão, nas caladas dos volumes e das horas. Drummond. Vinícius de Moraes. Raul Bopp. Mário Quintana. Castro Alves (Vozes d’África). Cecília Meireles. Murilo Mendes. Ihhh, Fernando Pessoa, monstro sagrado da expressão portuguesa. Bertolt Brecht. Sonetos de Machado de Assis. Olavo Bilac, o perscrutador das estrelas. Raimundo Correia. Padre Antônio Tomás. Ferreira Gullar. Hummm, tarefa das arábias me fora trazida a queima roupa. Os amigos daqui, de valor inestimável, Patativa do Assaré, Luciano Carneiro, Edésio Batista...

Bom, ainda que cheio de empáfia de conhecer desse povo de tamanha inspiração, haveria de achar a joia rara dessa coroa dos versos no meu gosto que desafiava o senso de apreciação. Então aflorou, sim, em flagrante súbito quando firmei os pensamentos. O poema que aprecio incondicionalmente, Janaína, é de Manuel Bandeira, Profundamente: Quando ontem adormeci / Na noite de São João / Havia alegria e rumor / Vozes cantigas e risos / Ao pé das fogueiras acesas. / No meio da noite despertei / Não ouvi mais vozes / nem risos / Apenas balões / Passavam errantes / Silenciosamente / Apenas de vez em quando / O ruído de um bonde / Cortava o silêncio / Como um túnel. / Onde estavam os que há pouco / Dançavam / Cantavam / E riam /Ao pé das fogueiras acesas? // — Estavam todos dormindo / Estavam todos deitados / Dormindo / Profundamente. // Quando eu tinha seis anos / Não pude ver o fim da festa de São João / Porque adormeci. // Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo / Minha avó / Meu avô / Totônio Rodrigues / Tomásia / Rosa 
/ Onde estão todos eles? / — Estão todos dormindo / Estão todos deitados / Dormindo / Profundamente.