11 janeiro 2019

Voz da experiência - Por: Emerson Monteiro


Nem sempre fica só no dizer e no fazer, há que conhecer e dominar o conhecimento, fugir do puro instinto das determinações inconsequentes. Isso o que denominam sabedoria, de sustentar as normas pela experiência adquirida no passar inevitável dos dias e das gerações. Reunir as reações às nossas oportunidades de vida e aprender com a prática. Todos têm disso a cada época. Sem mais, nem menos, ninguém possui todos os elementos de substituir as peças de reposição dos pensamentos apenas ao sabor das crises anteriores. Antes que aconteça o tal exercício do poder pessoal difícil responder aos desafios.

Bom, quis contar da importância de toda fase de vida, as épocas dos aprendizados constantes de evoluir diante da sociedade, da ética, da moral, dos costumes. Criar um banco de dados que possa corresponder aos programas atuais e posteriores. Ninguém, portanto, amadurece fora do prazo.

Entre os dois programas que nos são oferecidos durante a existência, quais sejam: exercitar os sentidos e adotar o prazer por consequência, ou reconhecer através dos sentidos a necessidade progressiva da consciência rumo aos pendores de uma libertação. Isto noutros patamares além da matéria. Homem carnal versus homem espiritual. Iniciar a compreensão tão só aqui e aqui dar por terminada, ou aceitar o sacrifício qual motivo de revelar outra compreensão além da morte inapelável do corpo de carne.

Experimentar as forças do destino e poder dominá-las em prol de melhores dias, ao instante de existir. Nada, pois, entre essas duas correntezas, uma que desgasta as energias físicas e propende ao final melancólico do ente que morre, ou trabalhar a lição dos místicos, que tanto insistem no princípio da libertação da matéria, no sentido da abstração de quase tudo deste Chão.

No meio de ambas essas correntes persistirão nos seus valores, conquanto adquiridos pelo transcorrer das experiências, síntese dos princípios deste mundo e fator determinante de todo o Universo. 

(Ilustração: Colagem, Emerson Monteiro).

Com ida a Caracas, PT demonstra continuar refém da sua ala mais sectária

Fonte: "Folha de S.Paulo" -- por Mathias de Alencastro (*)

Talvez a maior especificidade do avanço ultraconservador no Brasil tenha sido o engessamento do principal partido da social-democracia. Se os trabalhistas britânicos lançaram as bases de uma refundação e os socialistas franceses entraram em via de extinção, o PT continua tendo a maior bancada, mas segue avesso a qualquer tipo de renovação. É o pior dos dois mundos.

O presidente Nicolas Maduro discursa durante cerimônia de posse do seu segundo mandato - ADRIANA LOUREIRO/ REUTERS

A história contará como a atual cúpula petista manipulou um drama nacional a detenção da maior liderança da era democrática e deslegitimou a campanha do seu maior agente renovador:_Fernando Haddad, para assegurar a sua sobrevivência.

Os líderes do Congresso Nacional Africano, referência mitológica dos dirigentes do PT, jamais se esconderam entre as pernas de Nelson Mandela. A identidade do partido sempre foi maior do que a do seu símbolo, tendo sido possível substituí-lo sem perder força política. Décadas se passaram desde a presidência de Madiba, e a CNA continua um viveiro de lideranças.

Para o campo progressista, a consequência mais imediata da obtusidade burocrática foi a de juntar a ofensa à derrota histórica e às angústias sobre o que vem pela frente. Especificamente, a ofensa de ver os dirigentes apresentarem, na sua primeira missiva pós-eleitoral, uma visão que glorifica o seu próprio desempenho e coopta os eleitores não petistas, essa coalizão heteróclita e improvável de psolistas a tucanos cujos apelos por uma maior abertura foram rigorosamente desdenhados durante a campanha.

Soma-se a ofensa de ver pavonear figuras ultrapassadas como José Dirceu que, em recente entrevista, ousou falar de “nós”, como se tivesse um resquício de autoridade para palpitar sobre o futuro.

A ofensa maior que representa a ida da presidente do partido à posse de Nicolás Maduro é o sinal que faltava para uma insurreição dos progressistas.

Ao aterrissar em Caracas, Gleisi Hoffmann realiza a fantasia daqueles que buscam por todas as formas etiquetar o PT como antidemocrático, agrava o distanciamento com a social-democracia europeia --unânime na condenação do regime de Maduro-- e relembra aos brasileiros que o partido continua refém da sua ala mais sectária. A ida a Caracas será lembrada como o ponto de ruptura dos atuais dirigentes com todos os princípios que nortearam a história do partido.

Numa palestra a poucas semanas da eleição, Márcio Pochmann, entre uma sonolenta digressão sobre a burguesia industrial e uma delirante interpretação da reforma da previdência, comoveu-se com o destino do Partido Socialista Francês, obrigado a vender a sua sede depois da debacle de 2017.

A sede do PT continua de pé --mas a que custo? Os atos e declarações recentes dos dirigentes são mais uma camada de cimento que fazem dessa sede um bunker em que ninguém entra --e as rachaduras, cada vez maiores, tornam o risco de desabamento iminente.

(*) MATHIAS DE ALENCASTRO é doutor em ciência política na Universidade Oxford.

DA VERGONHA À INDIGNAÇÃO -- por Rafael Moia Filho (*)


     Recentemente, um jovem advogado discutiu dentro de um avião com um dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) dr. Ricardo Lewandowski, dizendo em alto e bom tom que o órgão era uma vergonha nacional. O ministro pediu que a comissária de bordo chamasse um agente da Polícia Federal. A seguir, o rapaz foi levado à sala da PF para interrogatório e o assunto ganhou as ruas e as redes sociais no País.

     A questão que ficou é a seguinte: Devemos sentir vergonha do STF ou não? Ao colher alguns números sobre aquela Corte máxima da Justiça nacional, confesso que passei do sentimento de vergonha para o de completa indignação. São números astronômicos incompatíveis com a situação do trabalhador brasileiro que beira a penúria.

     Os dados a seguir demonstram que algo fugiu do controle e, com certeza, não são os benefícios concedidos aos aposentados nem aos trabalhadores da iniciativa privada. Não vejo nada no horizonte que possa me fazer acreditar numa mudança drástica que levasse à redução destes gastos nababescos protagonizados justamente pelo único poder que tem a obrigação de zelar pela ordem moral e legal.

    Vamos aos números que assombram: o STF é constituído de 11 ministros indicados pelo presidente da República, com vencimentos médios de R$ 47 mil dentro de um orçamento que gira em torno de meio bilhão de reais ao ano (R$ 544 milhões). Essa quantia, maior que a maioria dos orçamentos das cidades brasileiras, serve para poder manter uma estrutura que tem, entre outras coisas: 2.442 servidores (média de 222 por ministro, sendo 85 secretárias, 194 recepcionistas, 24 copeiros, 27 garçons, 293 vigilantes, 116 serventes de limpeza, 7 jardineiros, 6 marceneiros, 19 jornalistas, 5 publicitários, 10 carregadores de bens, 10 encadernadores, 58 motoristas para 87 veículos). Isso faz com que o STF tenha gastos de R$ 9,2 milhões com veículos, R$ 15,7 milhões com despesas médicas e odontológicas e R$ 12,7 milhões com alimentação.

     Tudo isso acontecendo no mesmo Brasil que tem aproximadamente 30 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, sem saneamento, emprego, educação e saúde. No mesmo país de 50 milhões de analfabetos e semialfabetizados, que não conseguem entender ou receber informações sobre o mundo maravilhoso em que vivem os 11 ministros do STF. No Brasil de mais de 60 mil assassinatos ao ano, estes números servem para matar a esperança de dias melhores para a nossa sociedade.

(*)Rafael Moia Filho
E-mail: rmoiaf@uol.com.br