29 novembro 2019

Sobre o "Jovem cratense, um herói" ( 3ª e última parte) – por Joaquim Pinheiro (*)

Cruzador Bahia

         “...densos rolos de fumaça, corpos dilacerados, destruição total e os gemidos dos feridos, que mal se arrastavam pelo convés, e a área de ré destruída e em chamas. Apenas três minutos após a explosão, o navio começou a afundar a popa, com uma rapidez impressionante”.

“Na primeira noite, as balsas, que eram mantidas juntas, se dispersaram, ficando apenas seis no grupo chefiado pelo Tenente Torres Dias. Falta de água e alimentos, o frio noturno e o calor diurno insuportáveis, desespero, ataques de tubarões, a insolação, fadiga, delírios, alucinações e a morte foram as companhias desses bravos marujos, até a chegada do Cargueiro Balfe.” 
  (Parágrafos extraído do blog naval.com.br.blog, de 20.05.2018, descrevendo a tragédia do Cruzador Bahia)

   Em que pese o elevado número de brasileiros sacrificados na maior tragédia da sua história naval, o caso foi tratado com displicência pelas autoridades. No primeiro momento, reconheceram que a explosão fora causada por um torpedo. O ministro da marinha declarou aos jornais que o navio fora vítima desta arma. O Almirante Ary dos Santos Rangel publicou artigo na Revista Marítima Brasileira onde escreveu “...eram aquelas águas turvas que haviam sorvido o nosso querido Cruzador Bahia, vítima de torpedeamento...”. O próprio Presidente Getúlio Vargas, em carta de pêsames endereçada aos familiares dos marinheiros mortos, afirma que eles foram “tomados de surpresa e assassinados”.

   No entanto, o inquérito instaurado para apurar as causas e os responsáveis pela explosão, presidido por um almirante americano, concluiu que os culpados pela tragédia eram as próprias vítimas. Segundo o relatório, disparo acidental de metralhadora teria acertado uma bomba no paiol do navio e feito o estrago. 

   A versão de acidente foi construída graças a enorme contorcionismo mental. Para isto, desconsiderou depoimentos da maioria dos sobreviventes, descartando inclusive revelação de sobreviventes assegurando terem avistado pequena embarcação distante, a princípio julgada como barco pesqueiro, mas o uso de potente binóculo constatou ser um submarino. Ignoraram a chegada, dias depois, de submarinos alemães na Argentina onde oficiais nazistas se exilaram. O diário de bordo de um dos comandantes registrou que o veículo saiu da Noruega carregado com torpedos mas desembarcou em Mar del Prata com três a menos. Nele também consta que no trajeto cruzou com o navio sinistrado.

    O que alguns historiadores e pesquisadores buscam hoje é identificar as razões que levaram as autoridades da época a camuflar a história. Por que os americanos, a quem o navio estava subordinado, se apressarem em apontar tripulação como culpada, quando na verdade foi vítima?
Uma conjunção de fatores pode explica estes questionamentos. O clima reinante na época era de euforia pela vitória dos aliados, cuja propaganda enfatizava a rendição incondicional dos alemães e a destruição total do seu regime.  Alardeavam que principais líderes nazistas estavam mortos ou presos. Neste contexto, o reconhecimento de atentado inimigo iria contrariar o “marketing” dos aliados.

    Do lado brasileiro, caso o governo aceitasse o fato como crime de guerra, teria que exigir da Argentina medidas contra os militares alemães dos submarinos que haviam recebido proteção do seu governo. Preferiu não criar confusão diplomática de grandes proporções.  Além do mais, a posição do almirantado ficaria extremamente desconfortável porque não teria como explicar a negligência e omissão diante de uma tragédia desta proporção. Um detalhe causa estranheza: o resultado do inquérito foi divulgado somente em 30.10.1945, em nota apócrifa, justamente no dia em que Getúlio Vargas deixou o poder. Assim, a notícia passou despercebida.

    Os mandatários americanos, por sua vez, com o novo redesenho da geopolítica mundial, já em disputa aberta com a União Soviética, elegeram novo inimigo, o comunismo. Não mais interessava aos Estados Unidos demonizar o nazismo. Pelo contrário, estava em curso a operação “paperclip”, programa americano para empregar cientistas nazistas e tirar proveito do conhecimento deles. Wernher Von Braun, engenheiro que chefiou o desenvolvimento dos foguetes de Hitler, é um bom exemplo disto. Foi o principal nome do início do início do programa espacial americano.


(*) Joaquim Pinheiro, economista. Funcionário de carreira do Banco Central do Brasil, aposentado.

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