27 agosto 2019

Caririensidade


Um sonho não concretizado: Crato capital do Cariri


   Registros da nossa história provam que, em 1828, a Câmara de Vereadores do Crato encaminhava representação ao Governo mostrando a oportunidade de criação da Província do Cariri Novo. Não foi atendida nessa pretensão. A ideia voltou à tona, em 14 de agosto de 1839, quando o senador José Martiniano de Alencar, do Partido Liberal, apresentava no Senado do Império do Brasil projeto de lei cujo artigo 1º dizia textualmente: "Fica criada uma nova província que se denominará Província do Cariri Novo, cuja capital será a Vila do Crato".

    Os demais artigos desse projeto de lei tratavam sobre os limites geográficos da nova unidade do Império do Brasil que incluíam municípios do sul do Ceará e os limítrofes das Províncias da Paraíba, Pernambuco e Piauí. Com a ascensão do Partido Conservador ao poder, o projeto de lei não prosperou. Anos depois, através do jornal "Diário do Rio de Janeiro", voltava o senador Martiniano de Alencar a defender sua ideia de criação da Província do Cariri. Tudo ficou só num sonho.
Crato: a segunda casa à esquerda, com três portas, pertenceu a Bárbara de Alencar

Centenário de Alderico de Paula Damasceno

       Crato não é uma cidade ingrata. No próximo dia 24 de setembro, o Instituto Cultural do Cariri, Universidade Regional do Cariri-URCA e Colégio Estadual Wilson Gonçalves, farão uma sessão conjunta para comemorar o centenário de nascimento do saudoso professor Alderico de Paula Damasceno (foto à direita). Este, foi um professor idealista e autêntico que ministrou a disciplina de História em quase todos os educandários cratenses. Nas horas vagas, além de professor também de Educação Física, Alderico foi técnico de clubes de futebol de Crato.

A propósito, e vale o registro: o colunista Neno Cavalcanti publicou, anos atrás, no jornal “Diário do Nordeste”, a nota que abaixo transcrevo

“Falam do terno do treinador Luxemburgo, mas ele não está sendo nada original. Nos anos 50, no Crato, o técnico do Cariri Futebol Clube, Alderico Damasceno, que era também professor de História e Educação Física, ia ao campo trajando paletó e gravata. Levava também um guarda-chuva que usava, chovesse ou fizesse sol, para apontar o setor pelo qual ele desejava ver seu time atacando”.

Cratenses que não esquecem sua terra

 Jornalista Xico Sá

Dias atrás, li no jornal espanhol El País uma crônica do jornalista Xico Sá (nascido no Crato do Cariri), que estava visitando o Crato do Alentejo, em Portugal, de onde retirei o parágrafo abaixo, quem sabe devido as repercussões da politicagem que divulgam lá fora sobre o nosso Brasil:
“Agora mesmo estou no Crato, não o meu Cratinho do Cariri cearense, falo do Crato homônimo do norte do Alentejo — uma cidade medieval do século XIII que deu nome ao munícipio do sertão (cearense) —, quando uma “conterrânea” portuguesa, uma senhorinha enlutada, interrompe sua sesta e chacoalha meu juízo: “Que se  passa com vosso país?” Só me restou dizer que os cratenses do Nordeste brasileiro, pelo menos, estão na fileira da resistência, ufa. Tomara que eu ainda tenha razão a essa altura” (...)

Outro cronista que poderia ser chamado “O Menestrel do Crato”


     O advogado, administrador e dicionarista Geraldo Duarte escreve toda terça-feira um artigo (ele chama de “artiguete”), no “Diário do Nordeste”, de Fortaleza. Vez por outra ele escreve sobre “causos” acontecidos nesta Mui Nobre e Heráldica Cidade de Crato. Hoje, 27 de agosto, Geraldo Duarte (que só esteve uma única vez em Crato na época da sua juventude quando integrou manobras do CPOR, mas se apaixonou à primeira vista pelo “Cratinho de Açúcar”) escreveu sobre dois típicos cratenses: Hermes Lucas e Jorge Lucas. Dois irmãos que marcaram sua passagem por Crato. Como sempre, Geraldo Duarte burilou sua crônica num estilo agradável e de leitura prazerosa. A conferir.

“Senador, foguetes e gargalhadas – Por Geraldo Duarte - advogado, administrador e dicionarista
 Wilson Gonçalves: deputado, vice-governador, senador e ministro do TCU

Anos 1960. Acirradas disputas dos cratenses pertencentes a UDN e ao PSD. O advogado paraibano Wilson Gonçalves (1914 - 2000) fez-se chefe político na terra do Padre Cícero, deputado estadual, vice-governador e senador da República.

Hermes Lucas, tio do jornalista e escritor Oswaldo Alves de Sousa (autor de “Combatendo Pelo Crato” e “Tipos e Ditos Populares do Crato de Ontem e de Hoje e Outros Temas”, integrante da UDN), ao contrário deste, pertencia ao PSD.

Solteirão, boêmio e conhecido dada à presença de espírito tornou-se, como o irmão Jorge, personagem folclórica.

Um sacerdote, buscando um dos manos, encontrou o outro e indagou onde o encontraria, pois há dois dias o procurava, deixava recados e nenhum êxito. Resposta rápida. “Arme uma arapuca ali, na Praça Siqueira Campos, bote uma rapariga dentro que ele cai.”

Rapaz afrodescendente, educado e trabalhador enamorou-se da filha de um comerciante. Este, sabendo da amizade do namorado com Jorge, pediu-lhe que interviesse, em face de achar o namoro “desigual”. Ouviu de pronto: “Se você soubesse quanto o jovem é bom, não reclamava e pintava os seus filhos de preto.”.

Todas as vezes que Wilson Gonçalves chegava ao Crato, Hermes, fiel liderado, posicionava vários fogueteiros em pontos estratégicos do itinerário do parlamentar e o foguetório estrondava durante minutos em sua passagem.

Adversário descobriu que Hermes colocava pessoa, a um 1 km da entrada da cidade que, avistando a comitiva, disparava rojão, como senha para os correligionários, no centro, replicarem.

Assim, um oponente pôs alguém para duas horas antes, soltar o fogo de artifício, fingindo o aviso.
Como de praxe, ouvido o sinal, estampidos ecoaram, sem a figura da autoridade.

Dizem que, no silencioso trajeto do senador, ouviram-se gargalhadas dos opositores.

De tão queridos, Hermes e Jorge Lucas nominam ruas do Crato”.

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