18 julho 2019

Apresentando o novo livro do Prof. José Newton Alves de Sousa -- por Armando Lopes Rafael


(Palavras proferidas no Instituto Cultural do Cariri, em 17-07-2019)


    Se existe um livro que não precisa de apresentação, este ("Escritos reunidos ao entardecer - poesia, amor e fé", fruto das reflexões do Prof. José Newton Alves de Sousa) é um deles.
   Para recomendá-lo bastaria citar o nome do autor, um respeitado intelectual, produtor de obras alicerçadas na sua mente fértil, honesta, pervadida de elevados pensamentos, nobres e férteis, a dignificar o ser humano.

  Aliás isto já fora dito há 78 anos – em 1941 – quando o conhecido sacerdote e escritor Pe. Antônio Feitosa escreveu no prefácio de um livro do Prof.  José Newton, publicado naquele recuado ano:

      “A melhor apresentação do jovem e talentoso autor destas páginas sãos suas publicações precedentes (...) José Newton Alves de Sousa está por isto mesmo apresentado ao público”.

      Ora, se o renomado Mons. Antônio Feitosa afirmou isso, o que eu poderia acrescentar agora? E falo isso com a mais pura sinceridade. Reconhecendo meus poucos méritos quando comparados com aquele luzeiro do clero de Crato.

       Isto posto, e para justificar a minha presença aqui,   neste momento, em verdade, em verdade vos digo:  vim apenas porque não poderia recusar um pedido feito por meu amigo Paulo de Tarso, filho do Prof. José Newton, nesta missão de apresentar a última obra  do venerável mestre, pessoa  por quem nutro uma  profunda admiração.

       Admiração que não se restringe apenas às qualidades intelectuais do Prof. José Newton Alves de Sousa, pois – e acima dessas – eu coloco o primado da exemplar inteireza moral e a acentuada formação humanística do Prof. José Newton, sobejamente comprovadas ao longo de sua profícua existência.

       Admirável essa vida de quase cem anos do professor José Newton Alves de Sousa! Existência permeada por centenas de poesias, muitas delas perpetuadas em dezenas de livros, além da publicação de centenas de artigos e trabalhos, todos de rara profundidade. E o que dizer das milhares de aulas que ele proferiu?

      O Prof. José Newton Alves de Sousa é um homem simples, despojado de qualquer vaidade e sinceramente humilde. Acredito que essa sua humildade advém da sabedoria de que é possuidor. A bem dizer, a vida do professor José Newton tem sido um sermão silencioso, mostrando, em seu modo de viver, um pálido reflexo da presença de Deus entre nós. E dentre as bênçãos que o Criador espargiu na pessoa do Prof. José Newton Alves de Sousa avulta a sua produção poética, uma coletânea de beleza estética que comove, que sensibiliza, que desperta nobres sentimentos...  

       Felizmente os filhos do Prof. José Newton, dotados da necessária sensibilidade filial, souberam preservar parte da produção cultural do pai, produção que o Prof. José Newton não teve vaidade em preservar. Cuidaram, inclusive, da edição destes "Escritos reunidos ao entardecer - poesia, amor e fé”, numa homenagem ao patriarca da família pela passagem dos seus 97 anos de idade, festejados no último dia 5 de junho, na cidade de Salvador.

        As palavras escritas pelo Prof. José Newton, anos atrás, no prefácio do livro de poemas da sua primogênita, Ana Cecília, se aplicam perfeitamente a este livro ora entregue ao público. A conferir. 

“Poesia não é coisa de se guardar; antes é um fazer para doar. Sua essência é de uma interioridade tão íntima, que se teria por incomunicável, mas, é de uma irradiação tão poderosa, que não se contém no universo espiritual de quem por ela é estigmatizado”.

  Poderia citar alguma poesia deste livro para mostrar a beleza dos versos. Mas não o farei. As pessoas presentes logo terão em mãos os poemas. Mas permitam-me lembrar que há setenta anos José Newton Alves de Sousa publicou um pequeno opúsculo, editado em 1949 pela Imprensa Oficial da Bahia, com o título– “Paisagem Lírica do Cariri (Quadros da minha terra) - 1ª série”.  Naquele opúsculo, diluído em crônicas, o autor escreveu – em linguagem poética – nossos horizontes como os canaviais, as cidades, as feiras, as igrejas e os tipos populares do Cariri. Abordou ele o cenário existente, no extremo sul do Ceará, nas primeiras décadas do século passado.

   Daquele livro, dedicado primeiramente: “– Ao magnífico espírito do Dr. Álvaro Madeira” (Este, um respeitado professor que legou ao Crato o exemplo de um varão católico, apostólico, plenamente romano), pincei algumas frases, que me confirmaram o adágio “Todo poeta é um pescador de beleza”. Vejam o que escreveu o professor José Newton em 1949:

   Sobre os canaviais do Cariri: “Verde mar ondulante roçado pela música ciciante das brisas... Verde mar. Cor da esperança e da esmeralda. O Cariri é a esmeralda do Ceará”.

    Sobre sua cidade natal: “... e a princesa dorme. Crato adormecendo no lençol crepuscular do último adeus do sol além da serra... Crato como uma princesa encantada no leito esmeraldino do Cariri, reclinando-se sobre o travesseiro azul da Araripe, ao ritmo cantante das nascentes fecundas...”

   Sobre os sinos das nossas igrejas: “Os sinos de Crato têm uma harmonia própria, inconfundível. Nunca ouvi em parte alguma sons como os seus, tão musicais e cristalinos; tão recordativos e poéticos. Criei-me ouvindo-lhes as tocatas. As tocatas alegres e as tocatas tristes. Umas falavam-me da vida; outras, da morte”.

   Sobre o alto do Seminário e o alto do Barro Vermelho: “No alto do Seminário está a capela de São José. No Barro Vermelho, a de São Francisco. Para mim, ambos esses santos foram poetas. O primeiro, poeta do silêncio e do trabalho, aquele que era um poema em si, o poema que se chamou: Justiça. O segundo, poeta boêmio, da boêmia espiritual dos pobrezinhos de Cristo. São Francisco de Assis escreveu também um poema, o Poema da Alegria. Alegria filha da Pobreza. Pobreza filha do Amor”.

   Sobre as noites caririenses: “Noite-de-lua no Cariri. As serras se banham de luar. As estradas estão argentinas de luar. Os açudes são pérolas gigantescas, luzindo. Os rios são boitatás enormes, serpeando molengos. As cidades adormecem tranquilamente e a brisa traz um eco de música longínqua”.

     José Newton Alves de Sousa é um excelente poeta! Ele nos mostra aspectos que muitos não conseguem enxergar; Ele dá vazão, na sua alma, a sentimentos não percebidos pela maioria das pessoas; Ele é, enfim, um ser sensível que consegue reverberar as coisas mais simples do universo. Sempre guardei uma frase dita pelo nosso genial romancista José de Alencar, cujas origens estão também, próximas à Chapada do Araripe. Escreveu ele: "O cidadão é o poeta do direito e da justiça; o poeta é o cidadão do belo e da arte".

       José Newton Alves de Sousa é um cidadão-poeta do direito e da justiça; é também  o poeta- cidadão do belo e da arte.

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