11 junho 2019

Bem mais que precioso - Por: Emerson Monteiro


Tempo, orixá venerado de todas as tradições, ele que passa numa velocidade estúpida e desvanece diante das dobras do vento, moleque vadio, largando folhas secas pelo chão na carreira de que é. Quando menos se espera, aonde foi, aonde foram, sumiu, sumiram, na Cachoeira do Tempo, rio imaculado, mantido tão só à distância do inesperado, ossos reluzentes de saudade e poeira. A gente olha em volta e cadê os habitantes do momento que fluíram nos rochedos da sorte. São fortes os abraços solitários nas estações, enquanto a multidão indiferente espalha passos pelo escuro de depois e nunca mais.

Esse enigma frontal das espécies age incontinenti vidas a fio, horas sem conta, marcando o ritmo das contradições humanas. Ser ignoto, invade o firmamento das luas e logo desaparece feito ser fantástico das histórias em quadrinhos; ninguém viu, ninguém curtiu, apagou simplesmente e pronto. No entanto marca bem, deixando largos vincos nas lamas do passado, pedras, paus e instrumentos de ausências e solidão. Reúne e separa com extrema facilidade, pessoas, objetos e quejandos.

Contudo traz fortuna, poderes, fama, amores, prazeres, e nada pede, apenas transita pelos astros tal poder sem limites, divisor das águas do Paraíso e mutabilidade constante das civilizações. Tempo, que pare e devora seus próprios filhos, no que assim falavam os gregos de antigamente. Vaidade, vaidades, tudo sendo vaidade, avisava o Rei Salomão. Nisso vagam os sois pelos céus, trilho das certezas de que nunca existirá o pouso exclusivo da felicidade durante os séculos da matéria em decomposição, engano de tantos, que apresenta o desejo da fome a pretexto de tudo usufruir.

Bom, perante a insistente dominação do invisível desse ente poderoso, resta aceitar nascer vezes quantas até descobrir a razão do que haverá no transcorrer das gerações, já que um dia ver-se-ão face a face no seio do mistério, humildemente rendidos aos sonhos inesquecíveis da real condição deste chão dos infiéis e dos santos.

(Ilustração: A persistência da memória, Salvador Dali).

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