03 maio 2019

A fluidez do destino - Por: Emerson Monteiro


Na ânsia de continuar, mesmo quando o Sol desaparece no horizonte, a fluidez de lugares, pessoas e objetos suavemente passa qual se nunca antes houvesse existido. Pessoas, elas estendem as mãos entre si, apressadas mãos, e sustentam nada mais que migalhas do que as lembranças agoniadas recolherem das pedras do caminho. Restam isso, poucas fagulhas dos apetitosos pratos de corpos suados ao relento das horas mortas. Até os heróis, avassalados de desejo, caem desfalecidos sobre os lençóis, feitos carcaças desnudas de velhas peças, nos espetáculos mambembes. E orgulhar de quê, vilões esquecidos, vez que logo além dos combates virarão filmes desbotados em latas enferrujadas?...

No entanto combateram o bom combate; guerrearam feito gente grande, agarrados aos mastros de galeões em fúria. Acreditaram ser valentes inexpugnáveis por terem fome e desfrutar do repasto dos deuses. Viverão para sempre nas folhas do destino que hoje lhes escorre pelos dedos amarelados. Dormem o sono venturoso dos justos e sonham voando nos tapetes persas, que o Sol assim gratifica seus filhos diletos no clarão das luas que sucedam aos dias. Conhecem, sim, que deslizavam entre as nuvens, santos no Paraíso das ninfas apaixonadas.

Foi de tal o modo o que era enquanto havia luzes acesas na consciência. E elas, essas humanas criaturas artesãs da própria sorte, beduínas almas e visões, que ofertaram  sacrifícios nos altares enegrecidos e ainda tangem os ferros das armaduras da ilusão, alimentaram de promessa os frutos e a sementeira, porquanto são longas as noites da Estrela Peregrina, agora o destino dos viventes. Criaram com toda força da juventude o resultado que merecem, livres de dores e cantilenas. Usufruam, pois, do que ora crepita nas fogueiras acesas do amor, que as naves próximas já vêm a caminho.

(Ilustração: A Crucificação - Brueghel).

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