09 abril 2019

Liberdade de Expressão nas Universidades

Por Roger Scruton

Religiões oferecem certa comunidade. Elas preenchem o vazio do coração humano com a presença mística do grupo, e se elas de fato não fornecerem esse benefício, elas murcharão e morrerão, como as religiões do mundo antigo durante o período helenístico. Portanto, é da natureza de uma religião proteger-se de grupos rivais e das heresias que os promovem.

Os estudantes universitários de hoje têm pouco tempo para religião e tempo algum para grupos exclusivos. Eles são particularmente insistentes nessas distinções associadas à sua cultura herdada – entre sexo, classes, e raças; entre gêneros e orientações; entre religiões e estilos de vida – tudo deve ser rejeitado, em prol de uma igualdade que compreenda e permita que cada um seja quem realmente é. A “não discriminação” é a ortodoxia dos nossos dias. No entanto, essa aparente abertura da mente é tão determinada a silenciar o herege quanto qualquer religião estabelecida.

Pode não haver conhecimento prévio de como novas heresias podem ser cometidas, ou o que exatamente elas são, já que a ética da não-discriminação está constantemente evoluindo para desfazer as distinções que eram apenas ontem parte do tecido da realidade. Quando Germaine Greer fez a passageira observação de que, em sua opinião, as mulheres que se consideravam homens não eram, na ausência de um pênis, reais membros do sexo masculino, isso foi considerado tão ofensivo que uma campanha foi montada para impedi-la de falar na Universidade de Cardiff. A campanha não teve sucesso, em parte porque Germaine Greer não é qualquer pessoa. Mas o fato de ela ter cometido uma heresia era desconhecido para ela na época e, provavelmente, isso só ocorreu aos ouvidos de seus acusadores durante a prática do “ódio de dois minutos” daquela manhã.

Mais bem-sucedida foi a campanha para punir Sir Tim Hunt, o biólogo vencedor do Prêmio Nobel, por fazer uma observação indelicada sobre a diferença entre homens e mulheres no laboratório. Uma caça às bruxas em toda a mídia levou Sir Tim a se demitir do seu cargo de professor na University College London; a Royal Society (da qual ele é um membro) quando a denúncia se tornou pública, e por conta disto foi isolado pela comunidade científica. Uma vida de distinto trabalho criativo terminou arruinada.

A ética da não discriminação nos diz que as mulheres são tão adaptadas a uma carreira científica quanto os homens. Não sei se isso é verdade, mas duvido que seja, e o comentário indelicado de Sir Tim sugeriu que ele também não acredita. Como eu descobriria quem está certo? Certamente, pesando as opiniões concorrentes no balanço de uma discussão ponderada. A verdade surge por uma mão invisível sob nossa variedade de erros, e tanto o erro como a verdade devem ser permitidos para que o processo funcione. A heresia surge, no entanto, quando alguém questiona uma crença que não deve ser questionada dentro do território favorecido de um grupo. O território favorecido do feminismo radical é o mundo acadêmico, o lugar onde carreiras podem ser feitas e alianças formadas através do ataque ao privilégio masculino. Um dissidente dentro da comunidade acadêmica deve, portanto, ser exposto, assim como Sir Tim, à intimidação pública e ao abuso; e na era da Internet essa punição pode ser ampliada sem custo para aqueles que a infligem.

Este processo de intimidação deve lançar dúvidas, na mente de pessoas razoáveis, sobre a doutrina que a inspira. Por que proteger uma crença que está em seus próprios pés? A fragilidade intelectual da ortodoxia feminista está aí para todos verem, no destino de Sir Tim. De fato, a University College London e a Royal Society demonstraram, em sua recusa em proteger Sir Tim da chocante nuvem de idiotas, o triste estado do mundo acadêmico que hoje está perdendo todo o sentido e o papel como guardião da vida intelectual. Como Jonathan Haidt argumentou com louvor, no exato momento em que as universidades defendem a diversidade como um valor acadêmico fundamental – significando por “diversidade” tudo o que incluí sob o termo “não discriminação” – a verdadeira diversidade pela qual uma universidade deveria ter uma posição, ou seja, a diversidade de opinião que tem sido constantemente corroída, e, em muitos lugares, completamente destruída.

A educação tradicional tinha muito a dizer sobre a arte de não ofender. A educação moderna tem muito mais a dizer sobre a arte de se ofender. Isso, em minha experiência, tem sido uma das conquistas dos estudos de gênero, que mostra aos alunos como se ofender com o comportamento, com as palavras, os pronomes, as instituições, os costumes, e até os fatos, sempre que a “identidade de gênero” é questionada.  Não foi preciso muita educação para que as mulheres antiquadas se ofendessem com a presença de um homem no banheiro feminino. Mas é preciso muita educação para ensinar uma mulher a ver como ofensivo um banheiro feminino onde os homens que se “identificam” como mulheres são excluídos.

Semelhantemente, os estudantes de hoje são encorajados a exigir “espaços seguros“, onde suas vulnerabilidades cuidadosamente nutridas não serão “inseridas” em algum tipo de crise. A resposta correta para isso, é convidar os alunos a procurar um espaço seguro em outro lugar que não aquele que as universidades parecem considerar, visto que, afinal, cada aluno é um ativo nas contas e censura é de graça.

Acredito que uma instituição na qual a verdade possa ser procurada imparcialmente, sem censura, e sem quaisquer penalidades impostas a quem discordar da ortodoxia vigente, é um benefício social além de qualquer um que possa ser alcançado por meio do controle sobre opiniões alheias. Se a universidade renunciar a seu chamado quanto aos argumentos direcionados à verdade, corre o risco de se tornar um centro de doutrinação sem doutrina, um modo de fechar as mentes sem o grande benefício conferido pelas religiões, que embora também fechem a mente, o fazem em torno de uma comunidade moral e real.


Artigo Original: Free Speech and Universities
Tradução de Natan Falbo
Fonte: http://contraosacademicos.com.br/

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