29 janeiro 2019

As dimensões da memória - Por: Emerson Monteiro



Por mais que haja essa disposição de esquecer os traumas da existência, o que predomina sobremodo significará memórias persistentes, essa energia advinda nas formações, senso de dominação que finca raízes e acontecimentos, e marca o andamento dos seres em tudo quanto existe. Em ondas e partículas, a memória tange o tempo no frigir dos objetos e das pessoas. Desde a memória mais original das primeiras formações minerais, vegetais e animais, até os níveis da transcendência da matéria aos mundos superiores, a isto que aqui nos encontramos.

Memória, memórias, caligrafia dos astros nos tantos detalhes dos quadros da Natureza. Há um código universal que assim prevalece e determina que aconteçam. Bem que muitos gostariam que fosse diferente, e que bem pudessem delimitar as ações, sem a sujeição inevitável às leis do grande todo. Que o poder dos humanos tivesse a condição de reverter normas e obedecer aos caprichos pessoais. No entanto, ledo engano. Força maior impõe e os fenômenos ocorrem no sabor de valores abstratos, desconhecidos, na linguagem comum.

Destarte, dever de submissão, representa sabedoria e rendição aos fatores determinantes do quanto seguimos desses códigos da Eternidade. Em tudo, pois, resta gravada a essência do Ser, do Autor que cria e rege a valsa do instante. Senhor absoluto das circunstâncias, jamais desconhecerá a consciência das ocorrências e segue seus andamentos, seja dentro das criaturas, seja no conjunto dos seres em movimento.

Eis a virtude da memória em suas inúmeras dimensões, que representam o plano da realidade visível. Enquanto que, mesmo sob as limitações da inteligência, ninguém dispõe de poder que supere o sonho do existir e permita mergulhar no mistério tenebroso disso. Depois, sós, lembranças vagas respondem silenciosas ao desespero de conhecer o outro lado das imagens que logo passam na tela das consciências, deixando apenas restos soltos de sentimentos guardados na imaginação do que fora e de onde jamais regressarão outra vez.

(Ilustração: Juazeiro da Bahia, foto de Emerson Monteiro). 

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