27 dezembro 2018

Às vésperas de 2019: Crato precisa reformar o seu brasão municipal e sua bandeira -- por Armando Lopes Rafael



Acima, o atual brasão de Crato

   Há uma coisa que incomoda o sentimento cívico dos habitantes de Crato: tanto a bandeira como o brasão desta cidade são pobres, têm  pouco significado e estão superados em relação as demais cideades brasileiras. Comecemos comentando o "brasão oficial". Foi o Sr. João Ranulfo Pequeno quem desenhou o Brasão do município de Crato, criado pela Lei Municipal Nº. 349, de 15 de novembro de 1955.

 Abaixo reproduzo um texto de autoria de Evandro Rodrigues de Deus sobre este assunto:

“O desenho foi criado por Pe. Antônio Gomes de Araújo que solicitou ao técnico-desenhista cratense João Ranulfo Pequeno a execução do projeto. O Padre Gomes não só sugeriu o desenho, mas redigiu o histórico do símbolo determinado da seguinte forma:

AS DUAS HASTES DE CANA-DE-AÇÚCAR – A principal produção agrícola do município;

UM PENACHO DE ÍNDIO – Pois a base étnico-sócio-cultural da cidade tivera, denso aldeamento indígena, que evoluiu ao ponto de em 1838 a população, na sua quase totalidade, constituía-se de 2.000 índios ao todo, puros e mestiços.

UM ARCO-ÍRIS, UM SOL E UMA CRUZ – Respectivamente significam a união de todos os povos que constituem nossa cidade, a liberdade e a Fertilidade, e o cristianismo.

A LEGENDA "LABORE" – Significa trabalho. É uma representação do progresso, da civilização e da cultura, triângulo em que o Crato se enquadra desde os primórdios.

O ESCUDO – De origem galesa e no seu centro uma rosácea em contorno vermelho, e nas extremidades de quatro CC, que significam, a acepção popular – Cidade de Crato, Cabeça de Comarca – com que se marca a fogo, desde os tempos remotos, a criação de animais graúdos, simbolizando a riqueza primitiva de nossa terra, que foi a pecuária, é o símbolo característico do Crato.

A FRASE CRATO COM  A DATA "17 OUT"E O "NÚMERO 1853" – Registra a data em que o município foi elevado à categoria de cidade.

Agora o meu comentário: O Pe. Antônio Gomes de Araújo foi um grande pesquisador e bom historiador do Cariri, mas não era especialista em Heráldica. Se fosse, não teria colocado um “penacho” de índio, no nosso brasão,  coisa inexistente na arte heráldica. Ao invés do “penacho” deveria ter colocado  uma coroa, pois nossa origem primeva remonta à “Vila Real do Crato”. Outra detalhe que precisa ser modificado: a data constante no brasão. Ao invés de 17 de outubro de 1853, deveria constar “21 de Junho de 1764”, data da criação da Vila Real do Crato. Inclusive, é no dia 21 de junho que comemoramos o dia do nosso Município e não no dia 17 de outubro.

E a bandeira?
 A atual bandeira de Crato

     A bem dizer ela não existe. Pois é representada apenas por um pano branco, tendo ao centro o escudo que contraria as orientações da heráldica, com como comentamos acima. Diferente da pálida dos dias atuais, a nossa bandeira ,municipal deveria ser dividida ao meio, por duas faixas horizontais. A faixa superior, na cor azul celeste, representando o azul límpido do céu que paira sobre a Chapada do Araripe. Já a faixa inferior, deveria ser na cor verde, representando as matas da floresta da Chapada do Araripe. Na faixa superior -- na cor azul celeste --, poderia constar o desenho de  um sol nascente -- simbolizando o alvorecer --, pois "Araripe", na língua indígena significa: “Lugar onde surge o sol”.
     
       Crato merece ter um brasão desenhado dentro da heráldica. Merece possuir, também, uma bandeira original e bela, quiçá a mais bonita dentre as bandeiras dos municípios do Cariri.

       Não perco a esperança de que um dia o Crato terá um prefeito culto, inovador e com visão de futuro. O aperfeiçoamento do nosso brasão municipal e a criação da nossa bandeira municipal deveria ser o primeiro decreto a ser enviado, por esse prefeito, à Câmara de Vereadores quando ele tomasse posse. Como fez o governador Cid Gomes, que redesenhou o Brasão do Ceará e, consequentemente, a Bandeira do nosso Estado.

Texto de Armando Lopes Rafael

Desbravar a Chapada do Araripe é boa opção para apreciar contato com a natureza e a história

Fonte: “Diário do Nordeste”, 27-12–2018, por Roberta Souza

Confira percurso, curiosidades da trilha da Nascente (ou das Samambaias), integrada ao Geossítio Batateiras
Trilha na Chapada do Araripe convida para imersão natural e histórica FOTO: Roberta Sousa

Você certamente já ouviu a profecia "O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão", espalhada por Antônio Conselheiro nos sertões da Bahia. Talvez o que não seja do conhecimento da maioria é que ela bebe de uma lenda contada pelos índios Cariri que viveram na região do Crato, e que ainda hoje continua a ser difundida no Sul do Ceará a quem visita o sopé da Chapada do Araripe. Foi esse um dos motivos que me deixaram curiosa, mesmo sob o sol de meio-dia, a fazer a trilha da Nascente (ou das Samambaias), integrada ao Geossítio Batateiras. É que ao fim dela eu encontraria a origem dessa história contada desde o século XVII pelos nativos daquela região.

Como uma boa moradora de cidade grande que se aventura só de vez em quando em trilhas naturais, fui totalmente desprevenida: sem chapéu de sol, sem repelente, sem garrafa d'água. Por sorte, o percurso era todo na sombra, mas ainda assim recomendo não seguir o meu exemplo. Preparada mesmo estava Deborah, instrutora do curso técnico em guia de Turismo do Senac da localidade. Foi ela quem conduziu a imersão natural e histórica por uma trilha sem grandes desafios (e por isso mesmo própria para pessoas de todas as idades), além de muito relaxante, por ser feita na beira da nascente do Rio Batateiras.

Sentidos

Pelo caminho, o som das cigarras, do fluxo da água, do balançar das árvores e até do canto do soldadinho-do-Araripe alertam para uma experiência mais sonora do que propriamente visual. As flores e as diferentes espécies de samambaias completam o jogo de sentidos.A caminhada pode durar uma hora ou mais, a depender da disposição de quem a faz para contemplar os detalhes. A meta é chegar na queda-d'água da "Pedra da Batateiras", que guarda todo o mistério da lenda Cariri.

Para os nossos antepassados indígenas, todo aquele vale era um mar subterrâneo, e, debaixo da terra dormia a Serpente d'Água, cujo imenso caudal era represado pela tal "Pedra da Batateiras". Os pajés profetizavam que ela iria rolar, todo o vale do Cariri seria inundado e as águas, em fúria, devorariam os "homens maus" que tinham roubado a terra e escravizado os índios. Quando as águas baixassem, a terra voltaria a ser fértil e livre, e os Cariri voltariam para repovoar o "Paraíso".

Adaptada aos dias de hoje, a história serve de alerta para aqueles que ambicionam a região para a construção de imóveis, por exemplo. Por enquanto, a pedra segue intacta, e até hoje não se sabe o que pode acontecer se alguém resolver desafiar as leis naturais e dos primeiros moradores. É melhor não arriscar.Bom mesmo é lavar o rosto com a água do Rio Batateiras. A experiência é tão revigorante que mais parece ter poder curativo, fazendo entender porque a natureza deve ser respeitada e compartilhada.

Serviço
Trilha da Nascente (Samambaias)
Bairro Lameiro, Sítio Luanda, Crato, Ceará.
De Fortaleza, saem voos diários para Juazeiro do Norte. 
Lá, a visita ao Geossítio pode ser agendada com a Anhaguera Turismo pelo telefone (88) 9838.5440.
Os preços são negociáveis.

Trilha na Chapada do Araripe oferece visitação acessível para pessoas com deficiência

Fonte: “Diário do Nordeste”, 27-12–2018, por Roberta Souza

Desbravar a Chapada do Araripe é boa opção para apreciar contato com a natureza e a história

Nem todo mundo que vai a uma trilha está preocupado em fazer fotos incríveis, seja da paisagem ou mesmo posando diante dela. É o caso de pessoas com deficiência visual, por exemplo, cujos principais sentidos explorados em situações como essa são o tato e a audição.  A verdade é que nós, videntes, acostumados que estamos a olhar tudo por detrás das câmeras dos smartphones, também podemos nos desafiar a viver experiências cuja prioridade não seja o visual. E a Chapada do Araripe oferece essa possibilidade por meio da Trilha dos Sentidos, inaugurada no Sítio Estadual Parque Fundão, no Geossítio Batateiras, localizado no Crato, este ano.

A iniciativa surgiu a partir de uma caminhada que o educador ambiental Alexadre Sinézio realizou com outra funcionária no local de olhos fechados. A mim, ele propôs o mesmo. Por alguns minutos, deixei-me guiar pela rota dos sentidos, sem saber onde estava pisando.  A relação com o guia é de total confiança. Mergulhamos no escuro para sentir, por meio da condução do outro, aquilo que já é natural para quem convive com a deficiência visual.

Cada passo dado sobre os galhos secos caídos no chão, no período mais seco da região Nordeste, aviva a nossa consciência sonora sobre o ambiente em que estamos inseridos.  No percurso, além de cordas para cegos, há placas em braille que indicam os nomes das plantas presentes na trilha. QR Codes, que podem ser lidos com o aplicativo offline Ecomaps, proporcionam mais informações sobre o bioma à disposição. Ao final, sentados sobre pedras, os visitantes podem ouvir o som de uma queda- d'água que replica o Rio Batateiras, cuja nascente está no sopé da Chapada do Araripe.

Sustentabilidade

A origem da Trilha dos Sentidos fica a alguns passos dali, nas proximidades de um sobrado de taipa (com um andar superior) que pertenceu a um dos pioneiros da consciência ambiental no Cariri, Jefferson da França Alencar.  A casa dele também é atração turística no Sítio Estadual Parque Fundão, por guardar um pouco da nossa história com alguns fósseis do período Cretáceo. Construída apenas com elementos da floresta, a residência dá lição de sustentabilidade.

É no local que fica guardada uma cadeira de rodas adaptada para trilhas, a Juliette. Feito para ser usado em terrenos irregulares, o equipamento pode ser disponibilizado para pessoas com dificuldade motora que decidam por qualquer trilha nos geossítios do Geopark Araripe. Diversa como é, a Chapada está pronta para acolher também a nossa diversidade, estimulando todo mundo a viver novas experiências no Sul do Ceará.

Serviço
Trilha no Parque  Estadual do Sítio  Fundão
Geossítio Batateiras 
(Rua José Franca Alencar, s/n, Bairro Seminário, Crato, Ceará)
Visitação todos os dias, de 6h às 17h30, com agendamento pela gerência da Semace Cariri pelo telefone (88) 3102-1288