14 dezembro 2018

Música da visão - Por: Emerson Monteiro


Escrever é bem isso, transmitir à visão o sentido da percepção que isso traz e conduzir pelos caminhos da consciência pensamentos; letras e palavras, e sentidos que talvez toquem um dia o sentimento. Tudo suspenso no ar das horas do mistério, nas palavras conduzem a imaginação através da alma. Sons que existem desde quando a luz se fez, assim são as palavras que hoje formam soltas na liberdade individual a literatura.

Num enlace prodigioso, as visões permitem que nos encontremos conosco próprios no formato das letras e no senso imediato que elas constroem dentro da gente, porquanto quem lê a si mesmo o faz; se permite deixar que conceitos nascessem das palavras e ofereçam à consciência valores e significados; deixa que o silêncio da visão conceda ao instante o inédito da compreensão há pouco inexistente. Mundo vasto a si que preenche novos universos naquele espaço exclusivo da individualidade, e mergulha no outro, no leitor, qual quem refaz a presença dos que antes havia e deixara que a existência revertesse em códigos as cores e as formas que nunca voltariam a existir, porquanto nem os autores refarão o que viveram ao momento de escrever caso não os gravem para sempre.

Bem isso de trabalhar nas palavras os fragmentos da ilusão ou da compreensão do que habitara, dalgum modo, a consciência do escritor. Horas mágicas de arte e cultura, sentir e passar em frente, dividir os frutos de pensar e produzir com os leitores um viver partilhado, em muitos ou nenhum. Daí serem solitárias as chances de escrever, quais garrafas lançadas ao oceano das impossibilidades possíveis, mensagens isoladas que silenciaram nas letras angústias e alegrias, no sonhar no aberto das ocasiões fugazes.

Foram e serão muitos esses tais escafandristas da alma na busca de partilhar o entendimento por meio das incompreensões humanas. Aventureiros da razão inevitável, que correm o risco de jamais descobrir as trilhas dessa floresta exótica das condições deste século sem fim.