29 novembro 2018

As cigarras da serra - Por: Emerson Monteiro


Sim, esse poder consistente que há na música e chega bem longe por entre as crateras das almas nas dimensões da tarde; cenas audíveis de horas distantes, infinitas, remotas, e inquietas eras que circulam à volta do sabor dos silvos de cigarras lá perdidas entre as árvores, que acalmam os deuses na amplidão e envolvem o oceano das nuvens arrancadas do ser que nós somos fieis testemunhas. Matrizes das filosofias, dos poemas, das músicas, zona neutra ali permanece escondida, olhos, ouvidos e sonhos. Ruídos que escorrem nas veias do instante até pulsar no coração do silêncio.

Nisso, imensa vontade pede conhecer o segredo que circula as consciências mortais na busca de Si, salutar esperança de permanecer diante das ruínas  deixadas pelo Tempo, senhor das eras. Portos distantes, pois, deste mar das existências, sons invadem os vazios de finais do dia. Avançam céleres rumo a desconhecidos, ocasião das noites inesgotáveis, fontes grandiosas do mistério de que tanto carecemos.

O som, os sonhos, sede do viver das criaturas gritam de perfeição no seio do Inconsciente. Nós, seres imprudentes e ambiciosas criaturas de dominar o Destino, heróis dos próprios dentes, donatários da Promessa, apenas deslizamos silhuetas nas paredes sombrias do escuro, pulsações de fantasmas que somem sorrateiros.

Com elas regressa o calor, sinal de novas chuvas neste verão intenso. Linguagem dos que significam a história secreta do Sol, sublimes vozes, falas e religiosidade compõem o presente nas cigarras que invisíveis ritmam o século das dores e das angústias, certezas ainda implumes, revelações do quanto avançar na face do perigo e afagar os desejos da humana felicidade. Amar, amar além da sobrevivência e do viver. As falas dos sentimentos soltas, assim, fibras resistentes da solidão e respondem ao cicio das cigarras, enquanto sorriem feitas almas penadas vagando pelos céus.

O rio imóvel - Por: Emerson Monteiro


Dia 12 de novembro de 2018, à noite, tivemos no Instituto Cultural do Cariri, em Crato, o lançamento festivo desse livro, O rio imóvel, romance da autoria de Maércio Lopes de Figueirêdo Siqueira, Maércio Siqueira, natural de Santana do Cariri, Ceará, lugar onde nasceu aos 21 de novembro de 1977. Ainda criança veio estudar em Crato, graduando-se em Letras pela Universidade Regional do Cariri, sendo, também, mestre em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba.

Houvesse de usar um único adjetivo a considerar o livro de Maércio, diríamos tão só que distingo a obra qual “consistente”, pela força do conteúdo e da forma de encaminhar a história que contém. Visivelmente dotado da verve literária, de fácil percepção, nisso desenvolve enredo no mínimo bem conduzido, mostrando segurança naquilo a que se propõe no decorrer de sua produção de 218 páginas.

Qual diz logo na apresentação, o livro foi escrito há 13 anos e só agora traz a lume em uma edição do próprio autor, de tiragem limitada, com ilustrações de Arievaldo Vianna. Destarte, aos 30 anos, obtém esse resultado de já autor amadurecido no trato do gênero difícil que escolheu estrear na prosa. Narra com espontaneidade a vida de Lucas Rocha, personagem que, depois de galgar sucesso noutras paragens, decide regressar ao seu lugar de origem, de onde havia fugido para esquecer uma experiência dolorosa.

Em uma exatidão dos que dominam o estilo, o escritor executa com maestria e nuances suficientes o desenrolar dos acontecimentos, que prendem o leitor e demonstram clareza nos objetivos colimados. Bom observador, descreve cenas sob crivo eficiente, característica dos romancistas vocacionados.

É esta, portanto, a minha satisfação de ver em campo o cordelista e xilógrafo Maércio Siqueira agora sustentando a batuta de prosador, o que enriquece tanto mais as benquistas letras caririenses.