24 novembro 2018

Signos - Por: Emerson Monteiro


Década de 70. Durante Alguns meses eu funcionaria como assessor do inspetor Mário Jofre, da CACEX do Banco nos seus trabalhos em Salvador, auxiliando nos relatórios que ele encaminhava a Brasília. Aos intervalos, íamos ao 9.º andar, onde fazíamos as refeições. Ele, um mineiro que, inclusive, fora vereador em Belo Horizonte; encetamos bons papos nos assuntos mais diversos.

Dessa vez, sentados à mesa, após fazermos os pedidos, aguardávamos ser servidos, quando veio até nós um colega da agência e conversamos sobre signos astrológicos, de que tratáramos noutra ocasião. E o inspetor ouviu toda conversa. Saíra o interlocutor exato quando chegavam nossos pedidos; Mário Jofre se volta em minha direção e observa:

- Sim, senhor, seu menino. Então o senhor conhece os signos... Pois diga lá qual é o meu signo.

Colhido de surpresa, busquei terra nos pés, sem querer decepcionar o meu superior, nisso observando que o prato que lhe viera servido continha pura carne, um enorme bife sangrado. Daí pelos indícios, cogitei:

- Bom, inspetor, pelo visto do senhor gostar tanto de carne meio crua, o senhor dever ser Leão.

Com a resposta, o homem se entusiasmou e falou até mais alto, a ser ouvido também nas outras mesas; o restaurante estava quase lotado; elogiava o meu desempenho. Foi quando vinha chegando no almoço um dos gerentes adjuntos da agência, Brito, carioca autoritário, cara fechada, que, naquela época, recebera a missão de botar ordem na casa em relação ao pessoal, respeitado só o tanto entre os funcionários. Ao ouvir do inspetor que eu conhecia de signos, que acabara de acertar o seu signo, e outros elogios, na mesma hora, sisudo, Brito olha e consulta:

- Pois diga qual o meu signo?

Que houvesse ainda mais terra debaixo dos pés; corri a vista pela memória; recorri aos céus; e sem demorar sustentei:

- Sim, deve ser Gêmeos ou Balança. (Nunca passara por isso, nem nas brincadeiras de salão, e duma vez enfrentava logo duas paradas frontais). Dava por perdido, fizera apenas de mera apelação. Quando, na hora, o administrador olhou de cara assustada e considerou:

- Por que Balança? Por que Balança? – Acertara outra vez o palpite.

- É que o senhor é pessoa ponderada, equilibrada... – Com isto, tratei de terminara de comer, e me despedir dos dois, avisando que havia compromisso naquele momento, saindo fora antes de aparecer novo desafio astrológico. Graças a Deus minha experiência no assunto fora bem sucedida.

70 anos de Abidoral Jamacaru, o Menestrel do Cariri



Carlos Rafael Dias

28 de novembro de 2018, uma data histórica para a cultura caririense. Abidoral Rodrigues Jamacaru Filho, ou simplesmente Abidoral Jamacaru, completa 70 anos de vida. Mais do que a idade em si, cronologicamente falando, este marco, em se tratando do aniversariante que é, se reveste de uma simbologia a mais. É que Abidoral, além do talentoso e humanista artista, carrega em si outras marcas notáveis, como a espiritualidade e a cidadania à flor da pele.

Abidoral começou sua carreira artística, oficialmente falando, no segundo Festival da Canção do Cariri, em 1971. Portanto, considerando este marco, ele está próximo de completar 50 anos de carreira. Naquele festival, Abidoral integrava a banda Cactus, ao lado de dois irmãos seus, Alberto e Hildeberto, e da qual também participavam Luiz Carlos Salatiel e Geraldo Urano . Na ocasião,  O Cactus foi o grande vencedor, interpretando a canção Grito de uma geração, de autoria de Hildeberto Jamacaru, com letra e musicalidade a la anos 60, ainda ecoando fortes nas mentes e corações dos jovens inconformados com o establishment devorador de sonhos e utopias. 

De papel de mero acompanhante, Abidoral não demorou a virar protagonista. E isso graças ao seu dom de compor e interpretar. Em 1973, foi o vencedor do III Festival, com a música Lembrança do carnaval que passou, um frevo que contagiou plateia e jurados e marcou uma época dourada da arte caririense, que até hoje reverbera na memória coletiva regional. Mais do que um vencedor, Abidoral demonstrou ser um compositor eclético, ousado nas experimentações sonoras e afiado no discurso antissistema, denunciando, mesmo nas entrelinhas, os pesados ares contaminados com partículas de chumbo que se respiravam naquele irrespirável ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’ que lamentavelmente está sendo agora reeditado. 

Vencer festivais, quase que se tornou uma especialidade de Abidoral. Em 1975, novamente fez jus ao primeiro prêmio com Margem virgem, uma composição bem ao estilo mais radical da tropicália, daquelas que somente Tom Zé e Caetano de Araçá azul sabiam fazer. Mas, Abidoral, que nunca abriu concessão ao sistema, cansou da fórmula competitiva dos festivais que se faziam no Brasil desde a década de 60 e “chutou o pau da barraca”. Antes, porém, levou um pau na barraca. Ããhh?!!! Explico melhor.

Em 1976, estava no Crato um jornalista brasiliense interessado em fazer um resgate da história do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, comunidade de agricultores pobres sem-terra, liderada pelo beato José Lourenço, um seguidor do Padre Cícero. O Caldeirão, pela sua proposta coletivista de vida, onde trabalho e produção eram repartidos igualmente entre todos, logo atraiu a ira dos latifundiários locais que, conluiados com a hierarquia da Igreja e o poder estatal, tramaram a destruição deste projeto de libertação popular, isso no ano de 1936. Por todas essas nuanças, o Caldeirão era assunto proibido de ser falado e muito menos pesquisado. Abidoral não só hospedou esse jornalista, como ainda se dispôs a fazer shows na barraca que foi montada na Exposição do Crato para arrecadar uma grana, visando financiar o projeto de resgate histórico do Caldeirão.  Por isso ou por otras cositas más, durante uma das apresentações do Menestrel do Cariri, confundido com um barbudo de Sierra Maestra, a polícia invadiu a barraca, distribuindo porradas e fazendo prisões. Abidoral chegou a ser detido, depois de apanhar e ser arrastado pelos longos cabelos que cultivava na época.

Pior do que as porradas e a prisão, foi sentir-se estrangeiro em sua própria terra, ver-se olhado com olhares atravessados e ter alguns amigos mais jovens afastados de si por ordem dos pais. Isso fez com que Abidoral decidisse partir para um exílio voluntário (mas não tão voluntário assim). Como cantou o “Bob Dylan brasileiro”, o também cearense Belchior, na bela e emblemática canção Retrato 3 x 4: “o que pesa no norte, pela lei da gravidade, disso Newton já sabia!, cai no sul grande cidade”. E assim nosso Menestrel fez o caminho mais trilhado pelos artistas incomodados, incomodantes e sem espaços na sua terra natal. Afinal, “santo de casa não obra milagre”, como já vaticinava nossa sábia cultura popular. Sul Maravilha #partiu!

Antes, porém, deu um rolê (sim, essa é em alusão ao Novos Baianos) por algumas cidades do país, fazendo shows acompanhado de dois garotos talentosos: seu irmão caçula Pachelly e Audísio Gomes, o Tapioca. Fortaleza, Recife, Salvador e Brasília. Depois, fixou residência no Rio de Janeiro, dividindo casa com o seu arcanjo da guarda Salatiel no aprazível e artístico bairro de Santa Teresa, a Montmartre brasileira. Na capital carioca fez contato com a vanguarda alternativa da MPB. Jards Macalé, por exemplo, abriu-lhe algumas portas, mas nenhuma de gravadora. Gravar um disco naquela época e conjuntura era um sonho quase impossível. Além do mais, o show business cobrava a alma do artista para isso e ainda lhe comia o fígado a tira-gosto. Tinha que se vender para o esquemão da indústria fonográfica se quisesse registrar o trabalho em disco. Felizmente, essa concessão Abidoral nunca fez. Enquanto isso, os que aqui ficaram, ficaram esperando pelo disco de Abidoral que nunca veio das bandas de lá.

Em meados dos anos 1980, mais precisamente em 1984, Abidoral decidiu retornar. No Cariri, entre a rotina de compor e se apresentar esporadicamente em shows e participação em eventos, Abidoral exerceu uma ativa militância cultural e ecológica (era assim que o ativismo ambiental era chamado naquela época). Foi quando o seu incansável arcanjo da guarda Salatiel lhe propôs a gravação de um disco independente, tudo bancado por ele. O destino para uma empreitada daquele tamanho era Sampa, onde estavam radicados vários músicos caririenses, alguns que já tinham tocado com o Menestrel nos festivais, como Audísio Tapioca e Paulinho Chagas. Foram, gravaram e voltaram. O disco chegou depois. Avallon (este é o título) foi prensado em vinil, embalado em capa dupla colorida, belíssima, com desenhos de Romildo Alves e Edelson Diniz, e texto profético de Salatiel: “Dos doze pares da França, sete druidas bretões eram e cavalgavam a enorme baleia dourada e desposaram sete índias das tribos deste vale do Cariri e festejaram por sete luas seguidas: cantaram e dançaram e banharam-se nas fontes e provaram da bebida do fermento da mandioca e roeram caroços do pequi e saborearam o doce do fruto do buriti e trocaram mágicas e fumaram do mesmo cachimbo com o pajé”. 

O repertório musical do LP é mágico, clássico, inovador, instigante, com letras inteligentes, profundas e de rara sensibilidade. Mas só o ouvindo mesmo para entender e sentir toda essa representação verbal. Avallon foi recebido entusiasticamente pelo público e pela crítica. Recentemente ao completar 30 anos de seu lançamento, foi objeto de um festejado revival, com direito a audição pública, promovida pelo Curso de Música da Universidade Federal do Cariri, e documentário em vídeo, produzido pelo coletivo O Berro. Depois vieram outros discos, já na era digital: O peixe (1999), Bárbara (2009), Dádivas (2015) e agora Abidoral Jamacaru (2018).

Nesses setenta anos de vida e quase cinquenta de carreira artística, ao mesmo tempo, pouca e muita coisa mudou. Abidoral é o mesmo cara simples de quando ajudava o pai no Casa Abidoral, armarinho de variedades e miudezas localizado na rua Bárbara de Alencar, centro do Crato. Mora ainda na mesma casa que herdou dos pais; cozinha para si e lava a própria roupa, varre a calçada diariamente e rega o pequeno jardim que cultiva nessa mesma calçada. Sobrevive, em parte, dando aula de violão, mas persegue uma busca espiritual que o transforma diariamente e inspira suas composições. Ou seja, nunca deixou de ser ele mesmo, mas nunca se contentou consigo. Ele lapida coisas sublimes e nessa jornada ele compartilha seus tesouros. E suas mais valiosas joias são suas canções, sempre soando inconformadas e ásperas, mas suavemente belas e reconfortantes. Ecléticas, passeiam por estilos diversos, do blues ao coco, do rock ao baião. Em geral, as temáticas abordam elementos que descrevem situações políticas, sociais, referentes também à cultura popular tradicional, mas que, paralelamente, também lanças olhares para realidades diversas, aberturas de novos campos de significação onde possam coabitar em um mesmo contexto o antigo e o contemporâneo, o que é considerado vanguarda e as diversas manifestações de tradição.

Abidoral, em uma palavra, é simplesmente Bida, um amigo que sempre deixa a porta da casa aberta (tão escancarada que uma vez lhe roubaram o violão). Em duas palavras, é o Menestrel do Cariri. Mas o homem Abidoral transcendeu sua existência material. Ele é um mito, como Bob Dylan e Luiz Gonzaga. É canção que anuncia utopias como o canto da cigarra que prediz um inverno de fartura nos campos do sertão e nas mesas sertanejas. É um dos quantos estende a voz por tantos. Lá de dentro, lá de fora. Abidoral...

Crato, Cariri, novembro azul (pra lembrar a Bida do exame de próstata) de 2018.