07 novembro 2018

CARIRIENSIDADE (por Armando Lopes Rafael)


De luto o patrimônio ecológico do Cariri: fogo trouxe destruição ao Parque Estadual do Sítio Fundão
O que restou do velho "engenho de pau" do Sítio Fundão após o incêndio

   A cidade de Crato, e toda a região do Cariri, ficaram mais pobres – no último sábado, 3 de novembro – devido a um incêndio – cujas causas ainda não foram apuradas – que destruiu toda a estrutura do “engenho de pau" existente naquela reserva ecológica. O engenho destruído, que era movido a tração animal, produziu rapadura até 1944. O incêndio destruiu ainda cerca de dez hectares da floresta nativa daquela reserva, cuja flora preservavam os biomas Caatinga e Cerrado e remanescentes da Mata Atlântica.

Onde está localizado o parque


    O Parque Estadual do Sítio Fundão fica localizado na área urbana da cidade, e contribui para a preservação de aves e animais silvestres, dentre eles saguis, lagartos em maior escala, como também serve de habitat para raros tatus, tamanduás e veados que já foram vistos na sua área de 94 hectares.


Quando o parque foi adquirido pelo Governo do Ceará

      O Parque Estadual Sítio Fundão, criado pelo Governo do Estado do Ceará, em 05 de junho de 2008. Lá podíamos contemplar a beleza exuberante da sua flora. O parque abriga, ainda, parte do território do Geossítio Batateira, integrante do   Geopark Araripe. Era comum para lá se dirigirem comitivas de alunos das nossa rede escolar para atividades de Educação e interpretação  ambiental, recreacionais  e pesquisa científica.

      Quando da sua criação pelo Governo do Ceará, em 2008, foi inventariado o seguinte patrimônio do Parque Estadual do Sítio Fundão:


   1) Uma murada de pedra e cal erguida por ordem do imperador D. Pedro II, cujos trabalhos foram executados por negros escravos;

     2) Um engenho de madeira com tração animal que funcionou puxado por cavalos ou junta de bois, construído em 1904 e que representa um símbolo da época áurea da produção rapadureira caririense, mantido em funcionamento até o ano de 1944;

      3)A casa onde Seu Jeferson, antigo proprietário, morava e que, curiosamente devido à tranquilidade do local, não tinha portas nem janelas;

      4) Uma espaçosa casa abandonada, construída por Seu Jeferson com o objetivo de ser sua morada, porém nunca habitada; 

       5) Uma casa de taipa em 1° andar, edificação que se destaca pela raridade do modelo construtivo, com alpendre elevado, escada em parafuso e piso superior feito em madeira, planejada por Seu Jefferson e construída para um dos seus filhos.
Casa de taipa construída pelo Sr. Jeferson da Franca Alencar

Preservando a vegetação primitiva do Cariri

       O Sítio Fundão é um pedaço preservado da vegetação do Cariri. E isso se deve ao Sr. Jeferson da Franca Alencar, que manteve incólume – até 1986, ano do seu falecimento – a área florestada, e proibia a caça de aves e animais silvestres naqueles 94 hectares.  Ademais, graças também ao Sr. Jeferson da Franca Alencar, foram preservados no Sítio Fundão outros bens históricos (todos tombados pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará) a exemplo da Casa de Taipa (chamada hoje “Centro de Visitantes”) composta de piso inferior e superior, além de uma parede de pedras. No interior do Parque Estadual do Sítio Fundão corre parte do Rio Batateira, que banha aquele espaço e mantém verde a vegetação na parte do árido verão nordestino, que se estende pelos meses setembro/dezembro de cada ano.

Uma área para entrar em contato com a natureza

        Ressalte-se que, até a semana passada – antes da ocorrência do incêndio – o Parque Estadual do Sítio Fundão disponibilizava cerca e 3,5Km de trilhas e circuito de bicicleta para os visitantes. Em 2017, aquela reserva ecológica recebeu a visita de cerca de 3.700 pessoas. Ela ficava aberta ao público no período das 6h às 9h e das 15h30 às 17h30. Não era cobrado ingresso dos visitantes, que tinham uma equipe de 11 funcionários para servirem de cicerone no passeio pelo sítio. 

Dom Luís Antônio dos Santos, 1º Bispo do Ceará, a quem o Cariri deve muito do seu progresso


   Antes mesmo de visitar Crato, pela primeira vez, Dom Luís Antônio dos Santos já havia feito um ato concreto em defesa da saúde dos seus diocesanos residentes no Cariri. Em maio de 1862, ocorreram em Crato os primeiros casos de cólera-morbo, que viria a provocar a morte de cerca de 1.100 cratenses. O historiador Irineu Pinheiro fez o seguinte registro no seu livro Efemérides do Cariri, à página 148: “1862, 17 de Junho – Fundado em Crato, na estrada entre esta cidade e Juazeiro, por ordem de Dom Luiz Antônio dos Santos, primeiro bispo do Ceará, o cemitério dos coléricos, o qual mediu vinte braças de largura e quarenta e três de profundidade. Foi benzida em frente dele pelo padre João Marrocos Teles uma cruz de madeira, mandada erguer pelo pároco do Crato, Manoel Joaquim Aires do Nascimento. Morreram da epidemia o padre Marrocos e Joaquim Romão Batista, pai do Padre Cícero Romão Batista”. 

    Homem culto e, ao seu tempo, bem informado, Dom Luís sabia que o Cemitério Bom Jesus dos Pecadores (hoje denominado de Nossa Senhora da Piedade) de Crato não era o local certo para sepultar as vítimas de cólera-morbo, pois isso poderia contribuir para alastrar o contágio da moléstia. Para tanto, em 1862, determinou a improvisação de novo cemitério, distante, dois quilômetros do centro de Crato, no local onde hoje fica a subestação de energia da COELCE, no bairro São Miguel.

A grande obra de Dom Luís em Crato: o Seminário São José

Seminário São José de Crato nos seus primórdios

   O Seminário São José de Crato foi fruto de um desejo de Dom Luís, com o objetivo de ampliar a divulgação da Boa Nova de Cristo e salvar almas, no território da sua vasta diocese, a qual, à época, compreendia todo o Estado do Ceará.  Para concretizar esse anelo, e depois de ter recebido sugestão nesse sentido, em 1871, do recém-ordenado Padre Cícero Romão Batista, Dom Luís encaminhou – em 1872 – dois padres lazaristas, – padres Guilherme Van den Sandt (alemão) e José Joaquim de Sena Freitas (português nascido no arquipélago dos Açores) – para realizarem uma missão religiosa, em terras do Cariri cearense. Os dois missionários lazaristas ficaram encantados com o progresso da cidade e com o entusiasmo com que a população acolheu as missões.

     Os dois padres receberam orientação para angariar doações visando à construção de um Seminário Diocesano, na cidade de Crato. Depois disso Dom Luís Antônio enviou para Crato o padre italiano Lourenço Vicente Enrile, para acompanhar a construção do vasto prédio, que seria erguido em grande terreno doado pelo coronel Antônio Luís Alves Pequeno, no aprazível subúrbio, à época conhecido como Grangeiro, hoje denominado bairro do Seminário. Logo faltaram os recursos para dar continuidade à construção. Então Dom Luís Antônio resolveu deslocar-se de Fortaleza para Crato, ficando ele próprio à frente dos trabalhos. Aqui chegou no dia 31 de dezembro de 1874. E só retornou a Fortaleza em julho de 1875, deixando em funcionamento (até os dias atuais) o Seminário São José de Crato.

Perícia será acionada para descobrir causas de incêndio no Parque Estadual do Sítio Fundão, em Crato


(Fonte: "Diário do Nordeste", 07 de novembro de 2018 --  Por Antonio Rodrigues)

Somente após a investigação será possível descobrir quais as causas do incêndio e ter noção do prejuízo causado à fauna e à flora do Parque Estadual do Sítio Fundão, unidade de conservação (UC) do Município

O que sobrou no Sítio Fundão, localizado na zona urbana do Crato, após o incêndio do último sábado, cujas causas ainda estão sendo investigadas Foto: Antonio Rodrigues

Construído em 1904 com engrenagem feita de madeira e tratamento artesanal, o "engenho de pau" localizado no Parque Estadual do Sítio Fundão era movido por tração animal. O equipamento funcionou até 1944, quando houve o declínio da produção de rapadura no Crato. Exemplar único na região do Cariri e tombado em 2013 pela Secretaria de Cultura do Estado, a estrutura se viu consumida pelas chamas do incêndio que queimou aproximadamente 10 hectares da Unidade de Conservação na tarde do último sábado (3).

Numa ação rápida do Corpo de Bombeiros e voluntários da ONG, Aquasis, da APA Chapada do Araripe e da União Protetora dos Animais e Meio Ambiente (UPAMA), cerca de 30 homens combateram o fogo que começou por volta das 13h30 e foi controlado às 20h. No entanto, a perda foi visível. Do Rio Batateira até o engenho, um rastro de destruição ainda incalculável. Por pouco, não foi pior, já que as chamas ficaram a poucos metros da Casa de Visitantes, local também tombado pela Secretaria de Cultura do Estado.

Segundo a diretora do Parque Estadual Sítio Fundão, Rose Feitosa, a perícia ambiental será acionada para descobrir as causas do incêndio e ter noção do prejuízo causado na fauna e flora. "Vamos ver o que é possível fazer para a recuperação e aproveitar o período chuvoso", garante. Por enquanto, a trilha que dá acesso ao engenho e ao Rio Batateira, maior da unidade, está interditada, pois muitas árvores pegaram fogo e correm risco de cair. "A ideia não é afastar a população. A gente vai tentar reaproximar e saber a importância daquele lugar".

No caso do engenho, o fogo consumiu quase toda sua estrutura que era predominantemente de madeira. Restou parte do piso e tração em ferro fundido. Há alguns anos, o telhado já tinha cedido. Recentemente, a direção da Unidade procurou apoio da Universidade Regional do Cariri (Urca) para fazer um levantamento histórico da área para criar um projeto de contenção. O estudo já tinha sido enviado para o Departamento de Arquitetura e Engenharia (DAE).

"Revolta e tristeza profunda", classifica o radialista Ed Alencar, neto de Jeferson Franca de Alencar, responsável por preservar o Sítio Fundão até sua morte, em 1986. Depois de saber do incêndio, Ed foi ver de perto a destruição do local onde viveu ainda criança, quando foi criado por seus avós. "Conhecia essas belezas de perto".

Caatinga e Cerrado

No Parque Estadual do Sítio Fundão, a flora nativa representa os biomas Caatinga e Cerrado, além de conter uma diversidade de animais silvestres. Alguns são mais comuns como saguis, cobras e pássaros, mas raramente alguns veados, tatus e até tamanduás foram vistos por lá.