06 novembro 2018

Presidente da FGV diz que 1968 acabou agora, com a eleição de Bolsonaro

Cinquenta anos depois, 1968 finalmente acabou no Brasil com a eleição do candidato Jair Bolsonaro (PSL), afirmou Carlos Ivan Simonsen Leal, presidente da FGV (Fundação Getulio Vargas). Novo governo representa ruptura com mentalidade que direita e esquerda sustentaram por 50 anos, afirma Simonsen Leal

Fonte: "Folha de S.Paulo", 06-11-2018. Por Danielle Brandt, de Nova York


Em palestra a executivos e personalidades brasileiros e americanos na Brazilian-American Chamber of Commerce, em Nova York, na quinta-feira (1º), Simonsen Leal disse que o novo governo representa uma ruptura com a mentalidade que direita e esquerda sustentavam até então e que tinha suas origens em 1968.Naquele ano, estudantes realizaram em Paris protestos em que pregaram, entre outras coisas, o fim do capitalismo, dando origem a uma geração de políticos com o pensamento mais voltado ao social e a um Estado com peso maior.

“Há uma esquerda e uma direita que pensam que nós estamos em 1968, que pensam que o melhor negócio do mundo é uma siderúrgica. E não é a siderúrgica. O lucro anual da Google compra uma siderúrgica”, diz.

“Por que não somos capazes de fazer um Google? Inovação, mercado de capitais e insuficiência de crédito. Quais são as razões disso? Há um monte de razões. Essas razões são os incentivos, têm a ver com a montagem.”

Na França, afirma, essa mentalidade acabou depois que o presidente François Mitterrand (1981-1995), o primeiro socialista eleito para o cargo no país, adotou políticas econômicas consideradas fracassadas.

Ele foi substituído por Jacques Chirac (1995-2007), que adotou medidas de austeridade com cortes orçamentários —desafio semelhante ao que aguarda Bolsonaro.

A mudança de mentalidade passou ainda por uma reformulação da discussão capital-trabalho, algo que ficou mais evidente após a reforma trabalhista aprovada pelo governo de Michel Temer.

“Se você é empresário de si mesmo, você olha a relação capital-trabalho de outro jeito. Você não quer tantas garantias. Você quer que a empresa invista para alavancar seu trabalho”, diz.

Dentro das medidas de austeridade, a reforma da Previdência deve provocar mais controvérsia, como já ocorreu durante o governo Temer.

“O que você tem que dizer é falar com as pessoas que só podem se aposentar se tiverem 65 anos, se homens, e 63, se mulheres”, defendeu. E a discussão passa por rever o conceito de direitos adquiridos.

“Ninguém nunca diz de quem eles foram adquiridos. Eles foram adquiridos à custa de todo o mundo. Todo o mundo tem que pagar a conta. Foram adquiridos à custa de nossos filhos, netos, e assim em diante”, afirmou.

Mas sem confrontação. “As pessoas têm que entender que a discussão do Orçamento é parte da democracia. Eu quero que meu representante vá lá e discuta os gastos. Eu quero que meu representante acompanhe os gastos, para saber se o que ele discutiu foi aquilo que está sendo executado.”

#elesim: Bolsonaro também ganhou entre as mulheres, diz Ibope – por Daniel Bramatti



A pesquisa do Ibope foi registrada na Justiça Eleitoral sob o protocolo BR-07268/2018 e divulgada no domingo, 28 de outubro. 

    As mulheres deram a Bolsonaro uma vitória folgada em quase todo o País - foram as nordestinas que votaram em peso em Haddad e equilibraram o placar nacional. No Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste, o candidato do PSL teve no segmento feminino vantagem de 28, 20 e 14 pontos porcentuais, respectivamente.

     No Nordeste, o candidato petista venceu por 46 pontos de folga (73% a 27%). Só as mulheres com renda inferior a dois salários mínimos votaram majoritariamente em Haddad - na faixa das que ganham de dois a cinco mínimos, Bolsonaro venceu por 62% a 38%. Entre as com renda superior a cinco mínimos, o militar reformado teve 64% das preferências.

     O deputado Jair Bolsonaro (PSL) se elegeu presidente graças à metade mais rica - ou menos pobre - da população brasileira, e perdeu para Fernando Haddad (PT) na metade de baixo da pirâmide de renda. Apesar de ter sido alvo do #elenão, movimento político capitaneado por mulheres contra sua candidatura, o presidente eleito provavelmente venceu por pequena margem no segmento feminino. Dados inéditos da boca de urna revelam que presidente eleito também conseguiu vencer entre os que tem renda acima de 2 salários mínimos.

     O recorte de renda foi o mais importante na definição do resultado: entre os eleitores que ganham mais de dois salários mínimos, Bolsonaro venceu com folga em todas as faixas etárias e de escolaridade, e também em todas as regiões, com exceção do Nordeste.
Já a segmentação do eleitorado por gênero indica que mulheres votaram de forma diferente de acordo com sua posição social e idade - as mais jovens, as mais pobres e as menos escolarizadas optaram majoritariamente por Haddad.

      Os resultados oficiais da eleição permitem apenas a análise geográfica dos resultados - afinal, o voto é secreto. Só é possível saber como se comportaram os brasileiros segundo gênero, idade, renda e escolaridade graças à pesquisa de boca de urna do Ibope, que ouviu 30 mil eleitores no dia 28 de outubro, depois que eles já haviam teclado sua opção na urna eletrônica.

      A pedido do Estado, o Ibope dividiu a amostra da boca de urna em metades, seguindo dois critérios diferentes. O primeiro foi o de gênero, para analisar como votaram homens e mulheres segundo sua idade, renda, escolaridade e região. E o segundo foi o de renda - de um lado, os que ganham até dois salários mínimos, e do outro, os que recebem acima disso.

      Na metade mais pobre, Fernando Haddad ficou à frente: 53% a 47%, levando em conta apenas os votos válidos - excluídos brancos e nulos. Na metade menos pobre, Bolsonaro teve dois em cada três votos (67% a 33%).A divisão do eleitorado por gênero revela que Bolsonaro venceu por 61% a 39% na metade masculina. Entre as mulheres, o placar foi de 52% a 48%. No eleitorado masculino, o domínio de Bolsonaro foi quase total. Ele só não venceu entre os homens com renda de até um salário mínimo, os que estudaram até a quarta série e os que são do Nordeste. Nesses segmentos, Haddad teve 61%, 59% e 61%, respectivamente.

     A maior divergência no voto entre homens e mulheres se deu entre os mais jovens. Os rapazes de 16 a 24 anos votaram em Bolsonaro na proporção de 60% a 40%. Já as garotas da mesma idade deram a Haddad 59% a 41%.

     O domínio de Haddad não foi generalizado também entre os mais pobres. Dos que ganham até dois salários mínimos, a vantagem do petista se deu dentro da margem de erro da pesquisa entre os mais velhos (acima de 55 anos) e na faixa de 25 a 34 anos, por exemplo, E o petista não venceu entre os que têm baixa renda e alta escolaridade (mais de nove anos de estudo).

      No Nordeste, principal reduto petista, Haddad teve vantagem de 44 pontos no segmento que ganha até dois mínimos, e de apenas 4 (empate técnico no limite da margem) entre os que têm renda acima disso.