02 novembro 2018

O voto nordestino mais à direita – por Antônio Jorge Pereira Júnior (*)



 No interior do Nordeste  há maior contingente populacional e maior pobreza. Apesar da pobreza e do aparelhamento na região, começou uma guinada à "direita" nas capitais. 

        Prezado leitor, os fatos da eleição permitem diversas análises. Detenho-me em uma. Como explicar o paradoxo de o Nordeste, nitidamente mais conservador, votar à esquerda? Haveria uma "consciência crítica de esquerda" na região, ou seria outra a razão para o voto em Haddad? Teria a região mais cristã do Brasil aderido à agenda da "esquerda", em favor da liberação do aborto, das drogas e da ideologia de gênero? Como compreender o fato de os nove Estados da região terem votado majoritariamente no PT?

         Alguns poderiam dizer que foi o receio de Bolsonaro acabar com a democracia e os direitos fundamentais. Isso pode ter contribuído. Mas, fosse isso, algo similar teria se passado no Sul e Sudeste, regiões com elevado senso crítico, onde se deu o oposto nas urnas. Além disso, em 2014 Dilma teve mais votos e não se dizia que Aécio ameaçasse a democracia. A explicação, acredito, está em algo mais próprio da região: a situação de pobreza e o medo de piorar. Portanto, o voto no 13 se daria, antes, em favor da manutenção do status quo material, do que por opção ideológica. Evidentemente a pobreza gera vulnerabilidade. Bolsa Família e políticas assistenciais tornam-se moedas de troca. Autoridades locais cativam o voto de quem depende delas. 

          Atualiza-se o cabresto eleitoral. Isso independe do partido. Ou seja, o povo carente se alinha a quem tem poder de lhe ajudar de imediato, seja de esquerda ou de direita. A "fidelidade" aos líderes locais é reforçada mediante ameaça de perda do benefício. Também é comum a cooptação pela entrega de algum auxílio concreto. Desse modo, o povo sofrido prefere manter as coisas como estão, com receio de dias piores. 

         Instrumentaliza-se a vulnerabilidade econômica. Hoje, os líderes políticos no  Nordeste são majoritariamente de partidos à esquerda, herança dos últimos 20 anos, quando o Governo Federal do PT aumentou políticas assistenciais. Ao lado disso, o aparelhamento dos órgãos de governo favorece a manutenção no Poder. A "máquina" é usada na campanha. Tal fator atinge capitais e interior.
No interior há maior contingente populacional e maior pobreza. Apesar da pobreza e do aparelhamento na região, começou uma guinada à "direita" nas capitais. As capitais concentram instituições mais representativas e possuem estrutura econômica superior, com melhores salários e serviços. Apresentam IDH maior. Desse modo, representam um Nordeste mais próspero. Logo, com voto mais livre.

          Note-se que em 2014 o PT ganhou nas nove capitais. Em 2018 venceu em 6. Em 5 delas teve menos votos em comparação com 2014. Por outro lado, Bolsonaro ganhou em Maceió (62,5), João Pessoa (54,8%) e Natal (52,98%).  Quase empatou em Recife (47,5%) e Aracaju (47%). Teve 44% em Fortaleza e 42% em São Luís. Em Teresina obteve 37% e em Salvador 31%. Enquanto isso, o percentual de votos nos interiores, excluindo-se as capitais, ficou abaixo de 30% em todos os Estados, com exceção do RN (31,5%).

           Por isso, o que de fato deve chamar a atenção do País no último pleito é o aumento da votação à direita nas capitais, a despeito de toda a pressão governamental local contrária. A redução da pobreza no interior do Nordeste, com desenvolvimento sustentável, permitirá aos nordestinos escolher a agenda política mais de acordo com sua cultura que, com certeza, não se harmoniza à ideologia de esquerda.

(*) Antônio Jorge Pereira Júnior é doutor e mestre em Direito – USP. Professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Direito da Unifor.