21 outubro 2018

Os sequelados - Por: Emerson Monteiro


Espécies de zumbis soltos nas ruas e nos becos, eles vagam pelas mesmas paisagens dos doces charmes de belos filmes estrangeiros que viram nas telas da vontade. Também denominados de tipos populares, atravessaram os mercados, as feiras, os guetos, e agora trocam pernas e poucas palavras nos encontros fortuitos do pelotão vacilante que foram. Andam de olhos vagos, peles amarelecidas nos desgastes da idade, engelhados debaixo das antigas tatuagens que já nem falam dos bichos surreais, símbolos, astros, palavras e frases das outras horas, dos ídolos que foram, artistas de desconhecidos, cenas e sonhos. Eles, que param à sombra das poucas árvores que existem nas praças, largados aos bancos solitários, mero cadastro de reserva jamais convocado e nunca levado em conta.

Isto enquanto as cidades movimentam seus dias estafantes. Repartições, afazeres das oficinas, lojas, hospitais, salas de aula, fábricas, bancos, sustentos vários, esses veteranos agarram seus derradeiros raios de sol e restam contar do moafo que foram nas vidas abandonadas à própria sina. Tantas vezes consumidos em mesas de bar, jogos de azar, debates, discursões vazias, bancas de revista, festas, vídeos de televisão, baratos e farras. Entretanto corriam dias e horas, vistas presas só nas glórias vãs de entulhos, lixões e lágrimas; deixaram assim transcorrer os aniversários das eras sob o efeito de bebidas, drogas, fúteis prazeres. E agora...

Personagens, pois, ambulantes sem bandeira ou calendário, dispersos nesse tudo que passa à velocidade do vento, comtemplam as migalhas do que teriam sido lutassem nos campos de batalha de amores, fancarias e saudades. Cabelos grisalhos, calvos, às vezes, faces barbadas, solenes, tais homens dos antigamente olham dentro do futuro sem saber nem quando haverá o balanço do mistério e possam regressar a novas aventuras errantes.

No céu das almas, vadios, lentos, lerdos, sem planos ou metas, os sequelados da raça indagam absortos que fizemos, fazemos, faremos da força que circula as veias e clama a luz da Consciência. Obtusos pincéis das nuvens cotidianas, lá adiante, talvez, viram sobejos das ilusões em que pediam paz e a deixavam no abandono de quartos escuros, vícios e adiamentos.

Há que haver memória nos que combinaram escrever. Nas epopeias, nas lendas, em lousas de cavernas e nos fosseis, essa verdade do que teremos sido será realidade um dia, e haverá em tudo melhor aproveitamento perante os tribunais da Eternidade.

(Ilustração: Inferno, de Botticelli).