02 outubro 2018

CARIRIENSIDADE (por Armando Lopes Rafael)


65 anos do Instituto Cultural do Cariri–ICC


    Iniciadas em 06 de setembro de 2018, com o lançamento do livro-póstumo de Manoel Patrício de Aquino (“Alguma Coisa”), as comemorações alusivas aos 65 anos de fundação do Instituto Cultural do Cariri–ICC, prosseguiram no dia 28, do mesmo mês, com o lançamento do livro “Dormindo à Borda do Abismo”, de José Flávio Vieira.

      As festividades prosseguirão nesta 5ª feira, 4 de outubro, com uma sessão comemorativa pelos 65 anos de fundação do ICC. Será às 19:00h. na sede da instituição com hasteamento de bandeiras, replantio de um mandacaru (árvore símbolo do ICC) e lançamento do número 47 da revista Itaytera, alusiva a 2018.

       Na mesma ocasião será oficialmente lançado o site do ICC na Internet. Este site disponibilizará, para consultas, a coleção digitalizada completa da revista “Itaytera”. Nessa sessão serão abertas as comemorações pelo centenário de nascimento dos ex-sócios Alderico de Paulo Damasceno, Pe. Antônio Vieira e José do Vale Arraes Feitosa. Um coquetel será servido aos presentes.

          No próximo dia 18 de outubro de 2018, será celebrada uma missa comemorativa aos 65 anos de fundação do Instituto Cultural do Cariri, na Catedral de Nossa Senhora da Penha. No dia 09 de novembro vindouro haverá sessão de homenagem aos fundadores e ex-presidentes do Instituto Cultural do Cariri. Será orador oficial o repórter da Rede Globo, e sócio do ICC, jornalista Francisco José de Brito. Ele é titular da Cadeira 17, que tem como patrono o jornalista João Brígido.

             Finalmente, nas datas 20 e 21 de dezembro de 2018, será realizada a 1ª Festa do Livro do Cariri–FLICA, tendo como local a Praça Siqueira Campos. Naquelas datas haverá lançamentos e venda de livros, apresentações musicais, folclóricas e danças, exposição de arte, desfile de modas e mesas redondas, dentre outras atrações. 

A presença da Igreja Católica na formação do Cariri

 Capela  de Santo Inácio de Loyola, localizada no Sítio Caldeirão, no município de Crato. Este pequeno templo foi construído pelo Beato José Lourenço

    A Igreja Católica contribuiu de forma decisiva para a formação da sociedade caririense. As cidades do sul-cearense, em sua maioria, surgiram ao redor de um templo católico. Geralmente uma capelinha construída numa pequena comunidade. Os santos faziam parte das nossas famílias nos albores do Cariry Novo. E estavam presentes na rotina do povo, tanto da zona rural, como das pequenas vilas, a partir dos anos de 1700. As relações entre Igreja Católica e as instituições governamentais foram estreitas no Sul do Ceará. 
      Tanto no tempo do Brasil-Colônia, quanto no Brasil-Império. Essa relação garantia a disciplina social da nossa sociedade. Ademais, a Igreja, por ser a religião oficial do Brasil, também executava no Cariri as tarefas administrativas que hoje são atribuições do Estado. A exemplo do registro de nascimentos, mortes e casamentos. Somente a partir do golpe militar de 15 de novembro de 1889, começou a declinar a influência do catolicismo na vida dos caririenses.

A religiosidade do povo caririense


 Igreja-Matriz de Senhora Santana, na cidade de Santana do Cariri

   O médico-historiador Irineu Pinheiro sintetizou, com rara felicidade, a principal característica do povo caririense: a religiosidade. No livro “O Cariri”, publicado em 1950, escreveu ele que essa característica foi preponderante na formação do caririense. A conferir: 

“Foi sempre muito religioso, inda hoje o é, o povo do Cariri. Vive, como todo cearense, a apelar para a misericórdia divina, no decurso de sua existência entremeada de épocas de fartura e felicidades e misérias e morte. Cite-se, aqui, um exemplo da fé inabalável da mulher sertaneja. Em quaisquer perigos, em momentos, por exemplo, de grandes chuvas acompanhadas de relâmpagos e trovões de estalo, costuma ela ajoelhar-se diante de seus humilíssimos registros de santos e rezar o rosário apressado da Virgem da Conceição”. (...) “Em toda a zona do Cariri, também nos sertões circunvizinhos, extremou-se a religiosidade popular”

A força da Igreja Católica no Cariri

         A bem dizer, a Igreja Católica foi a bússola usada para guiar as populações caririenses desde o povoamento do Sul do Ceará.  Missão Velha e Crato – as duas mais antigas povoações do Cariri – nasceram como frutos do trabalho evangelizador dos frades franciscanos capuchinhos, que aqui atuaram a partir do início do século 18, ou seja na primeira década de 1700. Passados 318 anos, a conduta dos caririenses – sua cultura, mentalidade, usos e costumes, enfim, muito do que diz respeito à prática religiosa do nosso povo – deve-se a sua relação com esses missionários franciscanos que habitaram entre nós.

        Ainda hoje nossas cidades são tituladas, e até conhecidas, pela herança da evangelização católica. A “Terra do Padre Cícero ou “A Terra da Mãe de Deus” (Juazeiro do Norte); “A Terra de Santo Antônio” (Barbalha); “A Terra de São José” (Missão Velha) ou “A Cidade de Frei Carlos” (Crato), são exemplos mais conhecidos. Mas é comum, à entrada das cidades caririenses, a existência de arcos ou monumentos dedicados aos seus padroeiros. Falar em Padroeiros, as suas festas representam, ainda hoje, grandes manifestações coletivas de fé e interação social. Algumas têm registros no nosso patrimônio histórico.

Os santos padroeiros dos municípios caririenses

 Procissão a Nossa Senhora da Penha -- Imperatriz e Padroeira da cidade de Crato -- no último dia 1º de setembro

       Festas como a de Nossa Senhora das Dores (Rainha e Padroeira de Juazeiro do Norte) e a de Santo Antônio (Padroeiro de Barbalha) obtêm repercussão nacional e são divulgadas pela grande mídia televisiva do Brasil. Mas não só estas. Repercussões menores, mas também significativas, atraem multidões para os festejos de Nossa Senhora da Penha (a “Imperatriz de Crato”, como reza a tradição mais do que bicentenária), de São Raimundo Nonato (Padroeiro de Várzea Alegre), de São José (Padroeiro de Missão Velha e Potengi). Outras festas de Padroeiros estão inseridas no calendário turístico do Cariri: Santa Teresa D’Ávila (Altaneira), Santo Antônio (Antonina do Norte, Araripe, Barro e Jardim), Nossa Senhora das Dores (Assaré e Jamacaru), São Pedro (/Caririaçu), Senhora Santana (Jati e Santana do Cariri), Nossa Senhora da Conceição (Mauriti e Porteiras), Nossa Senhora dos Milagres (Milagres), São Sebastião (Nova Olinda). Todas essas cidades realizam festejos significativos paras seus Patronos e Patronas.

A capela de São Sebastião dos Currais

   Quem percorre a estrada Barbalha-Arajara-Crato, em direção à última cidade, é surpreendido — cerca de cinco quilômetros, antes de chegar ao destino — quando avista, no lado direito, uma singela e respeitável capelinha, típica dos templos rurais do século 19. Trata-se da Capela de São Sebastião, do sítio Currais, erguida para atestar, às gerações futuras, uma grande graça concedida por Deus, à população daquela localidade, na segunda metade do século 19.

      Damos a palavra ao historiador Irineu Pinheiro que fez menção deste fato no seu livro “O Cariri”, página 245: “Em 1862 prometeu o major Felipe Teles Mendonça erigir uma capela em seu sítio Currais, a uma légua do Crato, dedicada a São Sebastião, se não morresse de cólera-morbo nenhum dos membros de sua família ou de seus moradores. Naquela época a epidemia do mal asiático abateu milhares de pessoas em todo o Ceará. Nada sofreram o major Felipe e os de sua casa e sítio. Em 12 de outubro de 1863, para cumprir o seu voto, pediu ao Bispo Dom Luiz Antônio dos Santos licença para edificar a igrejinha, licença que lhe foi dada no dia 13 do mesmo mês e ano, depois de informação favorável do vigário de Crato, Pe. Joaquim Aires do Nascimento. Mas só em 1888, após ter o segundo Bispo do Ceará, Dom Joaquim José Vieira, confirmado a graça concedida por D. Luiz, foi erguida a capelinha e benzida pelo vigário do Crato, Antônio Fernandes da Silva”. 

História: Sesquicentenário da Casa de Caridade de Crato
 Como era a Casa de Caridade de Crato até a década 1950

   No próximo ano – mais precisamente em 07 de março de 2019 – será festejado os 150 anos de inauguração da Casa de Caridade de Crato. O médico-historiador José Flávio Vieira, no seu mais recente livro (“Dormindo à Borda do Caminho – A Medicina no Cariri Cearense–1800-1900”, na página 146) fez uma retrospectiva daquela instituição, fruto do trabalho apostólico do Servo de Deus Padre José Antônio de Maria Ibiapina.

      Dentre outras informações, José Flávio publicou: “ (A Casa de Caridade de Crato) Teria uma longa e profícua atividade, permanecendo em funcionamento por quase cem anos. Na Casa de Caridade de Crato, além das funções habituais da instituição, montou-se um Gabinete de Leitura (talvez a primeira biblioteca da cidade) e que em notícia de 20 de março de 1870, na “Voz da Religião do Cariry”, possuía 45 volumes”. Número considerável para aquela recuada época.

        As instalações da Casa de Caridade de Crato também abrigaram, em caráter temporário, (a partir de 23 de dezembro de 1936), o recém-criado Hospital São Francisco de Assis de Crato, iniciativa do 2º Bispo da nossa diocese, Dom Francisco de Assis Pires.

          Apesar de o prédio ter sido descaracterizado (por reformas feitas sem preocupação de preservar o aspecto original do prédio), a Casa de Caridade de Crato se constitui num edifício que deveria ser tombado pelo Patrimônio Histórico do Ceará. Aquele imóvel perdeu, é verdade, muito da sua bonita fachada. Na década 50 do século passado foram destruídas, também, suas centenárias árvores fruteiras e outras plantas ornamentais que ficavam onde hoje estão localizados os prédios do Colégio Madre Ana Couto e da Rádio Educadora do Cariri. Entretanto, aquele conjunto arquitetônico ainda é um resquício do que foi, tempos atrás, a beleza do estilo que dominou o patrimônio imobiliário da Cidade de Frei Carlos.

Escritores do Cariri: Irineu Pinheiro

     Nascido em 6 de janeiro de 1881, em Crato, Irineu Nogueira Pinheiro é considerado um dos mais respeitados e produtivos intelectuais do Cariri. Estudou em Crato (Seminário São José), Fortaleza, Recife e no Rio de Janeiro, cidade onde concluiu o curso de medicina, na turma de 1910.

     Estudioso da História, foi “o maior pesquisador dos “fastos” regionais”, na feliz expressão do Dr. Raimundo de Oliveira Borges. Deixou vários livros publicados, dentre eles: “Um Caso de Dexiocardia”, “O Juazeiro do Padre Cícero e a Revolução de 1914”, “José Pereira Filgueiras”, “ Joaquim Pinto Madeira”, “Cidade do Crato”, “Morte do Capitão J. da Penha”, “O Cariri” e “Efemérides do Cariri”. Foi um dos fundadores e primeiro presidente do Instituto Cultural do Cariri.

      Foi Inspetor Federal do Colégio Diocesano; professor do Seminário São José; Sócio-Correspondente da Academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará.  Colaborou com os jornais de Fortaleza e com os periódicos de Crato (“A Região”, “Correio do Cariry” e “A Ação”). Teve intensa participação nos movimentos que trouxeram progresso para sua cidade natal, sendo fundador e primeiro presidente do Rotary Clube de Crato e Presidente do Banco do Cariry, a primeira instituição de crédito do interior cearense, fundada por Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva.

        Faleceu, em 21 de maio de 1954, na cidade de Crato, vítima de colapso cardíaco, enquanto – com a caneta à mão –  escrevia a um amigo de Fortaleza sobre o último livro que produziu: “Efemérides do Cariri”.

Humana condição - Por: Emerson Monteiro


Isso de aguardar o que há de vir sem, no entanto, haver tido ainda possibilidade mínima de saber superar os limites da sua pequenez... Andar às tontas no seio da própria sombra em que vagueiam dias e dias nesse mar de tormentas... Querer, porém só longe do desejar profundo... Presas do desespero no que vicejam os animais do rebanho, aspiram aos tetos do Céu...

Mãe de tantas filosofias geniais, lhes restam exercitar o senso de renúncia aos apetites imediatos. Estradas longas essas do tempo. Alimárias impertinentes, golpeiam de dúvidas as poucas certezas mais seguras e os meios de que utilizam nas viagens interplanetárias em volta do eu imenso das vaidades e dos apegos. Vez em quando alguns laços desgarram alguns no espaço infinito da santidade, entretanto testemunhas que pesam sobre os que aqui deixaram abismados, espécie de cordeiros levados ao sacrifício dos deuses distantes lá longe nas embocaduras do mistério.

Naquelas ocasiões, regressam às cavernas, munidos de ossos amarelados guardados na caixa das adivinhações e perguntam sempre as perguntas rigorosas de onde viemos, que fazemos agora e aonde iremos nessa longa jornada a astros incandescentes. Em que mundo, em q'estrela Tu t'escondes embuçado nos Céus?! Todavia de algo têm forte convicção, ninguém veio a semente... Carregam o instinto da sobrevivência no ser das grandezas e do Infinito cósmico.

Afeitos, pois, aos dramas do horizonte desconhecido, vivem às turras com os demais, na ânsia de poder e de domínio das outras criaturas semelhantes. Querem chegar à frente, sem conhecer nem a que lugar onde ir quando chegar nesse pouso inimaginário. Homem, esse bicho desconhecido rumo aos sóis desconhecidos da visão e do coração.

Munidos da procura sob a qual criaram seus amores, as caravanas sem par deslizam no deserto das horas e velam os ventos das existências, olhos postos nas dobras que alimentam os passos e sujeitam aventuras intermináveis.