01 outubro 2018

Preceitos e emoções - Por: Emerson Monteiro


Enquanto falas, a palavra voa no vento, sujeita a penetrar ouvidos e chegar aos corações. Nos diários, documentos e decretos, viram leis que regem o cotidiano e as pessoas. Bilhetes, cartas, mensagens, prescrições, manuais, formulários, planejamentos. Lá mais adiante, vira literatura. E nessa hora, poemas, prosas; romances, novelas, contos, crônicas, memórias, registros históricos, compêndios, etc.

As falas originais dos primitivos ainda ecoam pelas cavernas do tempo e chegam nos dias de hoje feitas de pedras, papiros, couros, argamassa, inscrições rupestres, magia simpática, fotografias do pensamento dos ancestrais gravados a fogo em metal, nos cascos de tartaruga, peles de animais pré-históricos, fractais, troncos petrificados, lastros perdidos de embarcações submersas, ruínas de grandes batalhas, sítios arqueológicos, pedras da Roseta, pirâmides e lagos submersos.

Quase humanos, tais registros permanecem contidos nas florestas virgens da Eternidade em forma de herança marginal da História que desmancha no ar feita o risco deixados desses aviões que fogem marcando de rastros cinzentos os céus. Pedaços das vivências em sinais do esforço de preservar por fina força, através dos códigos resultantes, as falas produzidas em tempos idos, são meros farrapos da memória das criaturas. Dali que nasce o ofício de escrever, norma de sobrevivência das emoções que insistem permanecer, crescer, antes de desaparecer, não fossem os aventureiros da luta contra o silêncio no atrito das gerações que sucedem as gerações.

Peças que andam largadas nos monturos da cantaria, restos de visões dos aflitos de plantão, eles, os autores, retêm das luas essa força da inspiração por vezes enigmática e febril, confrontam traças, carunchos, máquinas incendiárias dos vândalos, a fome dos séculos e a fertilidade do solo. Nisto, saem soltos contando de tudo nas folhas do quanto persiste do pensamento que não seja só a ação da trituradora das incontidas vaidades. Querem a todo custo reter nas malhas das imaginações literárias o desespero aflito que cerca objetos e corpos em queda livre, na correnteza do inevitável. Eles vão junto, no entanto, porém senhores do norte que existe no meio da perdição e do sonho.

(Ilustração: Paul Klee).