18 setembro 2018

Gabriel - Por: Emerson Monteiro


Este o primeiro dos meus netos, perto de quem estou morando. Vez por outra trocamos umas ideias, no dizer popular. Agora recente vem demonstrado, do alto dos onze anos, interesse pelos jornais que aparecem. Lê com desenvoltura. Talvez devido aos modismos de internet e quejandos, as matérias impressas lhe tocam doutro modo, bichos raros, no entanto, face à proximidade territorial dos assuntos nas notícias, o que nunca o fazem filmes da Marvel e da DC, foco das atenções costumeiras.

Ele dispõe da tendência natural de gostar de assuntos de ciência, tecnologia, invenções, e publica experiências químicas que promove, nos vídeos do YouTube, trajando comprido jaleco branco, adotando explicações fluentes, bem habilidoso no que quer transmitir.

Enquanto conversávamos, ao me ver debruçado sobre o notebook nessas viagens literárias, quis saber se nalgumas das minhas produções já citara seu nome, ou fizera alguma referência às atividades que desenvolve. Falei que chegaria nesse momento, o que ora providencio com satisfação.

Aprecia a calma da natureza e zela pelos animais. Estuda, lê, vê seriados e conhece as características dos super-heróis como poucos meninos. Aqui pelo sítio, de comum vejo portando o escudo de Capitão América, brinquedo que possui e utiliza, inclusive nalgumas ocasiões também conduz em lugares fora daqui. Outro dia, ao sairmos, voltou rápido à busca do tal equipamento, ao que lhe indaguei dessa preocupação de sempre carregá-lo junto de si. Respondeu, entre o lúdico e o real, que poderia vir a precisar da peça implacável numa missão de salvar o Mundo. Parei, então, nos espaços do pensamento a examinar o que pode bem fazer sentido, nessa época de tantos vilões e desmandos, e que caberá, de certo, à sua geração o fiel desempenho de nos salvar até de nós próprios, isto face aos estragos irreversíveis que acarretamos às ações da Natureza. Siga firme, Gabriel, aceitamos de bom grado os valiosos propósitos das novas gerações que virão, em breve, nos suceder e salvar o Mundo.

CARIRIENSIDADE ( por Armando Lopes Rafael)



 
    A força eleitoral do Cariri 

      Nos dias atuais, compõe a região do Cariri 29 municípios. Contam eles com mais de 711 mil eleitores aptos a votar nestas eleições de 2018, a se realizarem em 7 de outubro próximo. Desses eleitores, 295.301 (mais de 41%), residem na conurbação Crajubar (Crato, Juazeiro e Barbalha. Só Juazeiro do Norte tem mais de 160 mil eleitores). E imaginar que, com toda essa força – devido as esdrúxulas leis eleitorais em vigor –  o Cariri não tem um único deputado federal nos dias de hoje
    Se tivéssemos voto distrital o Cariri formaria, com certeza, um distrito eleitoral, como foi na época do Brasil Império. Nada justifica que uma região tão importante e tão povoada seja desprovida de um deputado que represente mais de 1 milhão de habitantes.

O Cariri no tempo da monarquia

    
        Um assunto puxa outro. Pouca gente se dá conta disso. Durante os 518 anos de sua história, o Brasil (do descobrimento em 1500, aos dias atuais), viveu 389 anos da sua existência sob a forma de governo monárquica (entre 1500 a 1889). Ou seja, durante 75% da sua existência o Brasil nunca foi a república, que é hoje. Tanto tempo de monarquia deixou marcas que não se apagam facilmente. Isso nos remete a uma pergunta pertinente: Como era o Cariri durante os quase 200 anos (de 1700 a 1889), quando nossa pátria viveu sob o regime da monarquia?

Cariri real, Cariri verdadeiro

      Foi significante a presença do Cariri na época da monarquia. Basta lembrar que, em 1847, o engenheiro cratense Marcos de Macedo, deputado pela Província do Ceará, apresentou ao Imperador Dom Pedro II a ideia de transpor as águas do Rio São Francisco para o Rio Jaguaribe, a fim de amenizar os problemas gerados pela seca nordestina. Naquele tempo a ideia não foi concretizada porque a engenharia não tinha condições de realizar uma obra daquele porte. Basta dizer que a dinamite sequer tinha sido inventada.

      À época da monarquia, a sociedade caririense, diferente dos dias atuais, cultivava os valores morais e éticos, como o respeito à família, à propriedade privada e à Igreja Católica.  Dom Pedro II criou, em 1859,  uma Comissão Científica de Exploração (que os cariocas apelidaram de “Comissão das Borboletas”), composta por renomados especialistas,  destinada à investigação  científica, que realizou pesquisas  nas áreas de botânica, geologia, mineralogia, zoologia, astronomia, geografia e etnografia, no Ceará e na região do Cariri.

         Renato Braga assim escreveu sobre a Comissão Científica: “Os viajantes foram bem acolhidos no Crato e demais localidades do Cariri. A todos (cratenses) causou estranheza, para não dizer espanto, a simplicidade de maneiras dos “doutores” a contrastar com a arrogância dos donos de engenho e autoridades (de Crato).

A mentalidade dos súditos caririenses


       O Prof. José Denizard Macedo de Alcântara (foto ao lado), erudito e douto cratense, dá o arremate sobre a mentalidade monarquista que imperava no Cariri. Escreveu ele (na apresentação do livro “Vida do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro”, de Joaquim Dias da Rocha Filho):

       “Um bom entendimento dos fatos exige que se considere a realidade histórica, sem paixões nem preconceitos. A sociedade brasileira (e consequentemente a sociedade caririense) plasmou-se à sombra da monarquia, com todo o seu cortejo de princípios, hábitos, usos e costumes, não sendo fácil remover das populações esta herança cultural, tão profundamente enraizada no tempo; daí o apego (do povo) aos Soberanos, a aversão às manobras revolucionárias que violentavam suas tradições éticas e políticas”

       “Ora, dentre os dados da evolução histórica brasileira há que se ter em conta o seguinte: O centro de gravidade desta sociedade (aqui incluída a sociedade caririense), eminentemente rural, era sua aristocracia territorial, única força social de peso na estrutura nacional, repartida em clãs familiares, e profundamente adita ao Rei, de quem recebia posições públicas e milicianas, além de outras benesses, sentimento este que mais se avolumara com a transmigração da Família Real, em 1808 (de Portugal para o Brasil), pelo contato mais imediato com a Coroa, bem como pelos benefícios prestados ao Brasil, no Governo do Príncipe Regente Dom João VI”.

Como surgiu o Museu de Paleontologia


   O Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri está situado na cidade de Santana do Cariri e funciona como núcleo de pesquisa e extensão daquela universidade.
    Para tanto, dispõe de centro de pesquisa com laboratório, biblioteca e videoteca. Segundo seu criador – o Prof. Plácido Cidade Nuvens – a ideia de viabilizar esse museu nasceu no âmbito da programação das festividades do centenário do município de Santana do Cariri, em 1985.

    Exercendo o cargo de Prefeito, Plácido Cidade Nuvens enviou à Câmara Municipal mensagem com projeto de lei, a qual, depois de aprovada virou a Lei nº 197/85. Em 1991, o museu foi entregue à Universidade Regional do Cariri que, desde então, o administra e é responsável pela evolução e ampliação de suas instalações. O Museu de Paleontologia de Santana do Cariri – além de atração turística – é conhecido hoje em todo o Brasil.

Lendas e Mitos do Cariri 

Fundação Casa Grande de Nova Olinda

    Existe na cidade de Nova Olinda uma ONG denominada Fundação Casa Grande–Memorial Homem-Cariri. Criada em 1992, a partir da restauração da Casa Grande da Fazenda Tapera, esta construída em 1717, no lugar da aldeia dos índios Cariús-Cariris, onde hoje se ergue a cidade de Nova Olinda. 

    A Fundação Casa Grande faz um trabalho de preservação das lendas e mitos que contam a história do Homem-Cariri. Tornou-se, assim, uma escola de gestão cultural que tem como missão educar crianças e jovens através dos programas de Memória, Comunicação, Artes e Turismo. Os mitos, segundo Alemberg Quindins, fundador e presidente da Fundação Casa Grande são narrativas que possuem componente simbólico. Persiste no imaginário das camadas mais simples da população caririense, como acontecia com os povos da antiguidade.

Uma lenda que sobrevive: A Pedra da Batateira

 A nascente da Pedra da Batateira

    Na cidade de Crato, até décadas atrás, a população simples divulgava uma lenda: a de que os índios Cariris, aprisionados e escorraçados pelo povoador branco, haviam “encantado” (tapado) com uma gigantesca pedra, a grande nascente existente no sopé da Chapada do Araripe. Essa “Pedra da Batateira” (assim era chamada) continuou a barrar os milhões de litros de água daquela nascente, represando-as no subsolo. Mas um dia essa pedra não resistiria a força das águas represadas, cederia e inundaria o Crato inteiro e parte do vale do Cariri. Essa lenda era um terror para as crianças no início do século passado. Interessante que esse mito ainda persiste (com menor intensidade) mas, algumas pessoas residentes nos sítios ainda se recusam a morar na cidade de Crato, temendo a vingança da Pedra da Batateira...

Um homem importante para o progresso do Cariri: Dom Quintino

     Embora, nascido no sertão central do Ceará, o jovem Pe. Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva chegou ao Cariri tão logo foi ordenado sacerdote, em 19 de junho de 1887. E daqui nunca mais saiu. Inicialmente se fixou no distrito de Jamacaru (município de Missão Velha). Em 1889 foi nomeado Vigário de Crato. Nesta cidade permaneceu durante 40 anos, até sua morte em 29 de dezembro de 1929.

     Em 10 de março de 1915 foi nomeado primeiro bispo da nova Diocese de Crato, tomando posse em 1º de janeiro de 1916. Deu prioridade, no seu episcopado às causas espirituais. Foi, no entanto, o homem das grandes realizações materiais que modificaram o cenário social e econômico do Cariri.

     Fundou, em 1822, o Seminário Episcopal de Crato, tornando-se o pioneiro do ensino superior no interior do Ceará. Criou, em Crato, os Colégio Diocesano e o Santa Teresa de Jesus. Fundou, em 1921, a primeira instituição de crédito do Sul do Ceará, o Banco do Cariri, que prestou grandes benefícios ao comércio e à lavoura da região. Criou no seu episcopado 5 paróquias, entre elas a de Nossa Senhora das Dores de Juazeiro do Norte.

       A melhor biografia sobre Dom Quintino continua sendo a escrita pelo Pe. Azarias Sobreira (“O primeiro Bispo de Crato”), onde destacou as virtudes morais, o espírito de pobreza e a coragem pessoal que ornavam a personalidade do ilustre prelado.

"Histórias do Tatu" -- por Paulo Eduardo Mendes (*)





     O título desta crônica lembra livro infantil. Não é. Trata-se de produção literária de Emerson Monteiro. O autor de "Histórias do Tatu" tem um precioso roteiro de reminiscências que surgiram encadeadas na formação da bela história de vida, oriunda de Lavras da Mangabeira. Emerson divisa horizontes do seu caminhar, desde menino pelas terras do sertão cearense.

    Sensibilidade à flor da pele para narrar atos e fatos do seu viver, "entre o mundo agrário e o urbano". Estabelece limites dicotômicos na sua rica descrição dos detalhes captados pela sua verve de escritor inato. "Histórias do Tatu" surpreendendo pelo valor agregado de estilo miscigenado de quem pisou no solo árido até aportar na cidade grande. Sentimentos universais pairam no livro relato, que não é autobiográfico por ousar o voo mais alto, capaz de divisar horizontes do "sertão de outrora".

     Revelações que se não podem apagar da retentiva, para perpetuar os temas regionais de tanta relevância na história de gente da gente, através do tempo. Emerson Monteiro surge com muita felicidade ao colorir o seu texto usando as cores da realidade para dizer sobre tudo o que viu e guardou, possibilitando essa "conversa com o leitor", a fim de identificar as raízes de quem sabe "cantar a sua terra". Excelente divisão de caracteres para dosar em livro o valor de vidas comuns. Feito de um escritor que soube aproveitar detalhes de rotina para transformá-los em obra editada, para ficar na memória. Sensacional livro de temas regionais despertando a vontade de viajar para conhecer as glebas que servem de palcos magistrais aos teatros da nossa existência do dia a dia.

(*) Paulo Eduardo Mendes. Jornalista.

O pato e a garrafa - Por: Emerson Monteiro


Nas técnicas adotadas pelo Zen Budismo existem os koans (pequenas histórias enigmáticas destinadas a confundir o intelecto até que apreenda que existe dimensão além do puro pensamento, a revelar alternativas que suplantem a compreensão pura e simples, confunda e desconcentre o raciocínio diante das revelações através da intuição). No dizer de Alan Watts, então o Zen conseguirá, assim que o discípulo chegue a um impasse intelectual e emocional, transpor a distância entre o contato conceitual de segunda mão com a realidade e a experiência em primeira mão.

O pato e a garrafa é uma dessas pequenas histórias-desafio. Nela o mestre oferece ao discípulo a chance da autodescoberta, solicitação de que descubra o jeito adequado de tirar um pato de dentro de uma garrafa sem que, nisso, mate o pato ou tenha que quebrar a garrafa.

Passados tempos de meditação, os postulantes da revelação interior buscam mil formas de solucionar o impasse. No meio tempo, visita o instrutor, a oferecer alternativas possíveis e imagináveis ao desafio recebido. Vasculha todos os cadinhos da mente, sem, contudo, encontrar resposta suficiente ao que caberia naquele exame, na intenção religiosa de oferecer o modo de pacificar o espírito em desenvolvimento.

Quando, então, lá um dia, apercebe que não existira pato, nem garrafa, e que tudo significava tão só a presença do ser em formação diante do Universo, razão suficiente de calma e equilíbrio, causas e fundamento da existência de tudo quanto há. E desperta...

...

Dia desses, alguém pediu que escrevesse a propósito de uma rosa presa em uma redoma. (Você atende a pedidos para texto? Eu adoraria ver um texto seu sobre a beleza da rosa sufocada numa redoma). Quis encontrar meios de responder à solicitação da amiga, no entanto insistentemente veio aos pensamentos essa história zen que resolvo deixar aqui registrada, talvez razão de frustração ou, quem sabe?, de lenitivo ao pedido que me fora feito naquela ocasião.