05 setembro 2018

CARIRIENSIDADE (por Armando Lopes Rafael)


Cariri, uma região privilegiada

Localizada no centro do Nordeste brasileiro, constituindo-se um oásis – pois cercado pela paisagem seca do árido sertão nordestino – o Cariri cearense é uma região privilegiada. Lá, fica a Chapada do Araripe, a qual, dentre vários atrativos, abriga a Floresta Nacional do Araripe, onde existem redutos da Mata Atlântica no Brasil. O leque do ecoturismo da Chapada do Araripe é variegado: a flora e a fauna complementam atrações, como as trilhas que são percorridas a pé ou de bicicleta; o rapel, o voo de parapente e até balonismo. Outros atributos da Chapada do Araripe são desconhecidos dos caririenses. Confira abaixo.

Bacia Sedimentar do Araripe, o berço da Paleontologia do Brasil 


Fóssil de um Rhacolepis

   Historicamente, o berço da paleontologia do Brasil é a região da Bacia Sedimentar do Araripe. Isso se comprova com o primeiro o relato (e desenho) de um fóssil brasileiro, na publicação do livro “Viagem pelo Brasil” (Reise in Brasilien) editado entre 1823 e 1831, onde consta uma referência a um peixe “Rhacolepis’, encontrado numa concessão carbonática, na região da Barra do Jardim (atual cidade de Jardim).

A riqueza dos fósseis da Chapada do Araripe


      É nessa Bacia Sedimentar que fica a Chapada do Araripe, com 165 Km de extensão, estendendo-se pelas divisas do Ceará, Piauí e Pernambuco. Ela é conhecida pela sua rica biodiversidade e considerada a região fossilífera mais rica do período Cretáceo, em todo o planeta. Explicou o paleontólogo Alexandre Kellner (em entrevista à revista “Galileu”, número de agosto de 2000) que “o clima árido contribuiu para a excelente qualidade da preservação dos fósseis, ali existentes". Há cerca de 100 milhões de anos, existiam na Chapada do Araripe pequenos lagos, ocasionalmente alimentados pela água do mar. “A baixa concentração de oxigênio, no fundo desses lagos, dificultou a proliferação de bactérias e, portanto, a decomposição da matéria orgânica. Escavações ali realizadas já revelaram 350 exemplares de pterossauros de 19 espécies diferentes, sem falar de outros fósseis de animais e vegetais".

José Flávio Vieira lançará este mês seu novo livro 

     O escritor cratense José Flávio Vieira, que também é médico, lançará no próximo dia 28 de setembro, seu mais recente livro, “Dormindo à borda do abismo – A medicina no Cariri cearense (1800-1900”). O lançamento do livro acontecerá no Salão de Atos da Universidade Regional do Cariri - URCA, em Crato e será apresentado por Carlos Rafael Dias, professor do Curso de História dessa Universidade.

    O livro, com mais de quatrocentas páginas, farta e ricamente ilustrado, é resultado de uma profunda e longa pesquisa a partir de fontes documentais primárias e bibliográficas, a exemplo dos jornais pertencentes à Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, à Hemeroteca do Instituto Cultural do Cariri, ao Departamento Histórico Diocesano Padre Antônio Gomes de Araújo e à Biblioteca Menezes Pimentel, esta última localizada em Fortaleza. Pelo cuidado com que se revestiu todas as etapas de sua elaboração, da arrojada pesquisa, passando pela apurada escrita, feita em estilo peculiar do autor, até a sua editoração, o livro é um forte candidato a obra definitiva sobre esta temática regional.

     Dividida em dezessete seções, e estes em inúmeros capítulos, a obra parte de um “continuum” dos principais acontecimentos da medicina na história geral para depois abordar os aspectos da colonização branca no Ceará e no Cariri, até chegar aos fatos e processos marcantes da conjuntura regional durante o século XIX. Nada passa ao largo de sua atenção, indicando a correlação existente entre os diversos contextos de uma região. Neste sentido, percebe-se que o autor não limitou seu enfoque à medicina em si, mas realizou um verdadeiro apanhado sobre a cultura regional, estabelecendo uma relação entre os vários campos da história: do econômico ao ambiental, do político ao religioso, do artístico ao científico, etc. Assim, sua narrativa tem a qualidade de atrair todos os tipos de leitores, pois segue o ritmo dos acontecimentos com precisão e é pintada com todas as nuanças possíveis de um panorama histórico que comporta infinitos e significantes detalhes.

     Comparando a feitura do livro a um projeto arquitetônico, o autor revela que este é apenas “a antessala de uma casinha”, pois seu projeto é contar a história da medicina no Cariri até a década de 1960, atingindo “com sua torre, nuvens idílicas e nebulosas”. Não paira nenhuma dúvida de que ele atingirá o píncaro de sua ambição, visto ser dotado de disciplina e paixão inerentes aos grandes historiadores e literatos.

      Com este lançamento, o público leitor, na amplidão que a expressão sugere, ganha uma obra que, ao nosso ver, se tornará referência para o estudo sobre a região do Cariri, no mesmo patamar do clássico “O Cariri”, de autoria de Irineu Pinheiro que, como J. Flávio, se dividia entre a profissão médica e o diletante, mas profícuo e competente ofício de pesquisar e escrever sobre a história regional.

A “Imperatriz do Crato”

     O carro-andor que conduziu, pelas ruas centrais da cidade, a imagem histórica de Nossa Senhora da Penha – na procissão do último dia 1º de setembro, – tinha cerca de 4 metros de altura. A decoração do andor foi inspirada no velho Hino da Padroeira do Crato, também chamado “Imperatriz Constante”, cantado pelos fiéis cratenses nos tempos da Monarquia e nas primeiras décadas da atual fase republicana.

    Por que, em Crato, Nossa Senhora era chamada de “Imperatriz” e não de Rainha? Devido à diferença que existe entre um Rei e um Imperador. Um Rei governa um reino, geralmente pequeno. O Imperador é soberano de uma grande extensão de terra. Entra aí, principalmente, a relevância da extensão territorial.

     Por exemplo, a Rússia era um Império. A  Alemanha e a união da  Áustria-Hungria também. País de dimensões continentais, o Brasil, ao tempo da monarquia, era reconhecido, mundo afora, como um Império. Tivemos dois imperadores e três imperatrizes. Daí porque os cratenses daquele tempo não chamavam Nossa Senhora da Penha de “Rainha” e sim de “Imperatriz”.

O hino "Imperatriz Constante"

      A tradição popular atribui a autoria desse antigo hino a Nossa Senhora da Penha, ao então Vigário de Crato, e depois primeiro bispo desta Diocese, Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva. A estrofe “Mãe Imaculada, sois no céu e na terra Imperatriz constante! ” foi escolhida como temática para o andor de 2018. A imagem histórica, no andor, foi abrigada num castelo estilizado – representando a realeza de Maria Santíssima – cercada por anjos e flores (gérberas, rosas e margaridas). As centenas de rosas que ornamentaram o carro-andor foram doadas pelo povo cratense.  
     Em 2008, o então pároco Pe. Edimilson Neves (hoje Bispo de Tianguá) mandou gravar um CD que contém o antigo e o atual Hino de Nossa Senhora da Penha. Esse CD, gravado pelo Coral de Divani Cabral, ainda se encontra à venda na lojinha da catedral.

Memória – Um caririense ilustre: João Gonçalves de Sousa 

      Nasceu no distrito de Mangabeira (município de Lavras da Mangabeira) em 20 de agosto de 1913. João Gonçalves de Sousa foi uma das personalidades cearenses de destaque nacional no século XX. De origem humilde, numa visita pastoral que o segundo Bispo de Crato – Dom Francisco de Assis Pires – fez à Mangabeira, o pai de João Gonçalves lhe falou da inteligência do filho. E pediu ao bispo que o levasse para estudar em Crato, no que foi atendido. Estudou no Colégio Diocesano de Crato (onde trabalhou como contínuo).
      Depois rumou para Salvador (BA) levando cartas de recomendações de Dom Francisco. Passou algum tempo na capital baiana. De lá, seguiu para o Rio de Janeiro. Conseguiu aprovação em dois vestibulares: Agronomia e Direito. Concluiu Ciências Jurídicas na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil.

     Dotado de perseverança e inteligência privilegiada, João Gonçalves chegou a ser alto funcionário da Organização dos Estados Americanos– OEA, em Washington (EUA). Tinha mestrado em Sociologia Rural, pela Wiscousin University (EUA), onde estudou de 1944 a 1946.  Escreveu alguns livros, dentre eles: “The Regional Aproach in Exploring The Northeastern Section of Brazil” (sua Tese de Doutorado, feito nos EUA, em 1956); “Migrações Nordestinas” de 1957; “Algumas Experiências Extracontinentais de Reforma Agrária”, de 1963; “Nordeste Brasileiro: Uma Experiência de Desenvolvimento regional”, de 1979.João Gonçalves de Sousa foi Superintendente da SUDENE (1964-1966) e Ministro do Interior (1966-1967).

     Teve seu nome cogitado nas articulações para a escolha indireta do Governador do Ceará, para o período 1975-1979. Era apoiado pelo então governador César Cals e pelo General Golberi do Couto e Silva, mas o escolhido foi Adauto Bezerra. João Gonçalves de Sousa nunca perdeu o contato com suas origens. Quando esteve no poder beneficiou sua vila Mangabeira com alguns melhoramentos. Faleceu em 16 de janeiro de 1979, no Rio de Janeiro.

Escritores do Cariri: Joaryvar Macêdo

      Joaquim Lobo de Macêdo (mais conhecido por Joaryvar Macedo) nasceu em Lavras da Mangabeira em 20 de maio de 1937 e faleceu em Fortaleza em 29 de janeiro de 1991.Foi poeta, historiador e um dos maiores intelectuais do Cariri. Escreveu e publicou quase 50 trabalhos, alguns relevantes, dentre os quais vale citar:  “Caderno de Loucuras” (poesias); “Os Augustos”; “Um Bravo Caririense”; “A Estirpe da Santa Teresa”; “Povoamento e povoadores do Cariri”; “Império do Bacamarte” e “Temas históricos e regionais”.

         Além de professor na Faculdade de Filosofia de Crato e nos principais colégios de Crato e Juazeiro do Norte, Joaryvar foi fundador do Instituto Cultural do Vale Caririense–ICVC, com sede em Juazeiro do Norte, instituição por ele dirigida durante 10 anos. Foi Secretário da Cultura do Estado do Ceará (1983–1987). Pertenceu à Academia Cearense de Letras, Instituto do Ceará, Instituto Cultural do Cariri, Instituto Genealógico Brasileiro, Academia Internacional de Ciências Humanísticas e membro-correspondente de numerosas instituições culturais do Brasil e do exterior. Foi agraciado com 12 Comendas, Títulos e Honrarias, dentre elas a Medalha José de Alencar do Governo do Estado do Ceará.