23 agosto 2018

Nuvens de algodão - Por: Emerson Monteiro


Depois avistaria os mesmos traços livres também nas costas dos lápis de cores múltiplas, num abstrato solto de tintas derramadas e que antes já contava nas nuvens lá do sítio da minha infância. Agora sei bem a razão deles olharem sempre no Nascente. É que no Sertão existe quase um compromisso de todos vigiarem saber quando vêm as chuvas das nuvens escuras feitas do Nascente. Quando ainda não escuras, ou carregadas (qual dizem), são os torreões da distância longínqua, a indicar na raiz as futuras formações, pois a chuva chega de longe, das terras da Paraíba, donde as nuvens nascem. Nisso a gente ganha aquela hipotenusa de querer olhar o Nascente a todo instante, a qualquer motivo, mania boba dos jeitos infantis daquele tempo de fixar olhos e cedo principiar a descobrir outros acontecidos vindos na barriga das nuvens. Se não, limpo de tudo, as nuvens vêm claras, brancas, mas formações constantes de seres e objetos dos diferentes estilos, artes do firmamento. Animais, castelos, gigantes, arvoredos, mutações, rostos, desenhos impossíveis em permanente evolução a novos quadros.

Enquanto adiante seriam cenas constantes de cinema, televisão, equipamentos de perder de vista, naquele eito de criança, eu, ali sentado na varada de nossa casa no sítio, próximo de minha mãe que costurava numa máquina Singer, viajava à solta nas nuvens que ofereciam as cenas e cenas. Filmes e filmes produziam epopeias, odisseias, jornadas siderais, histórias mil, lendas, situações. Eram roteiros internos da imaginação que as figuras provocavam, durante horas, no mormaço das manhãs, acalmando o sentimento e percorrendo cúmulos celestes a perder de vista pelas cascatas do Infinito.

Assim, bem adiante, dado meu gosto pelas artes visuais, conheci de perto o poderio das imagens aleatórias através das escolas atuais, na pintura, na fotografia, no cinema. Reconheci com facilidade a impressão visual na interpretação dos desenhos espontâneos da natureza e no modo de expressão de liberdade nas cores e no movimento dos pinceis. Sem largos esforços, por isso, ora compreendo também a música e sua fluidez ocasional de sons e ritmos, ao modo liberto dos que escolhem a variação das notas por meio de intuição artística.

Naquelas visões originais ao sabor da brisa sertaneja a tanger os fiapos de nuvens nos céus da visão de um menino, aprendi o quanto de sensibilidade e sonhos vaga no íntimo à busca da consciência cá fora, nas letras e ficções.