07 agosto 2018

Liberdade perene - Por: Emerson Monteiro


Nesses tempos enigmáticos que parecem controlar as pessoas através de filamentos presos a reinados sórdidos, paro e escuto o som do vento nas árvores. Sei bem da voz das lufadas na escuridão, que querem dizer algo, mensagens que as devoro em compreender. Sei, sim. Ninguém nunca disse, mas sei, porque ouço no silêncio a melodia das folhas no idílio carinhoso delas e do tempo, um dizer sucessivo do que somos e quero intensamente desvelar. E sinto também vagando o perfume das flores nas outras plantas, a invadir narinas adentro nas vozes santas da natureza. Nisso, longe até dos pensamentos e das contradições, dois senhores dominam o meu jeito de ver, impulsos de quem fala e eu que a eles sobrevivo calado, quieto; os escuto e sinto, e analiso, sem, no entanto, sequer saber doutras alternativas senão continuar. Apenas observo, sonho e testemunho a imensa criação dos viventes no escuro dessas noites dadivosas.

Bem no instante quando tudo vira musicalidade e parece querer existir longe dos intrusos que escutam o gotejar dos sentimentos, bem ali, moleque vadio entre o nada e as existências, vem esse desejo forte de libertar firmamentos, astros acesos na distância, e mergulhar solto por demais na brisa que balança as árvores impacientes. Logo depois mais calmas.

Há profusão de seres reunidos em meio do perfume e das folhas que se agitam. E saber o que isto significará uma resposta ao desejo de interpretar o curso do Universo e das almas. Há que largar pedras e caminhos e abandonar conceitos e respostas, antes de a consciência desistir de procurar, e aceitar só a inexistência qual razão luminosa de além do horizonte. Entretanto antigos ídolos ainda vagam pelas sombras feitos fantasmas de almas em perdidas aventuras, e choram abandonados diante de quem ali os deixara assim ausentes e solitários.

(Ilustração: Valdimir Kush).