28 julho 2018

Para você Refletir - Por Maria Otilia

Não é de hoje que somos submetidas a valorização e a um grande apelo aos padrões de estética. Sem dúvida, a vaidade, a estética e o culto à saúde, são muito importantes. Isso só se torna um problema quando há uma supervalorização desses aspectos. Neste sentido estamos constatando o grande número de  mulheres, vitimas de erros médicos, muitas chegando a óbito. E o mais alarmante é que estas mulheres buscam, sem nenhuma avaliação ou critério de escolha, profissionais não habilitados para realizar procedimentos  que  possivelmente, para as mulheres, pudessem trazer o tão “sonhado” padrão de beleza.
É importante que todos os órgãos de regulação de atividades  voltadas para a área da saúde, em especial a de estética ,sejam  mais atuante fiscalizando e fazendo valer a legislação. E que  seja trabalhado, em especial nas escolas, desde a educação infantil, a desconstrução  desta “ditadura da beleza”, trabalhando a sensibilidade  e construindo uma mente sadia e de aceitação do nosso corpo com as todas as  diversidades que todo ser humano tem.
Para melhor reflexão sobre esta temática, posto um recorte de um artigo que traz um paralelo entre  o conto de fadas do Filme do Ogro Shrek e da princesa Fiona.  Boa leitura.

           CORPO, CULTURA E REGULAÇÃO SOCIAL: OU O TRIUNFO DO DESVIO.
A feiura é, atualmente, uma das mais presentes formas de exclusão social, e como tal, uma importante forma de agenciamento de subjetividade. Tomando a gordura como uma das atribuições mais representativas de feiura na cultura atual, apontamos para os processos de exclusão vividos por aquelas que nela se enquadram. (Novaes, 2006).
É também preciso ressaltar que o controle exercido através da fiscalização de um olhar minucioso sobre a aparência e com o aval da ciência, contribui para regulamentar diferenças e determinar padrões estéticos em termos daquilo que é próprio e impróprio, adequado ou inadequado, normal ou anormal. Como bem sugere Durif, “o corpo torna-se álibi de sua própria imagem.” (apud Daniels, 1999:29). Esse controle da aparência traduz-se não somente na atribuição de características estéticas, como as investem de julgamentos morais e significados sociais.
É interessante notar como os discursos que normatizam o corpo, sejam eles científico, tecnológico, publicitário, médico, estético, etc., vão, pouco à pouco, tomando conta da vida simbólica/subjetiva do sujeito. Nas palavras de Daniels, (1999):
“As instâncias que normatizam o corpo invadem as dimensões expressivas e simbólicas da corporeidade, fornecendo imagens e informações que reconfiguram o próprio âmbito do vivido corporal. O leitor é sempre aquele que possui um conhecimento muito limitado e confuso de seu corpo”. (1999:50)
Com efeito, os cuidados físicos revelam-se, invariavelmente, como uma forma de estar preparado para enfrentar os julgamentos e expectativas sociais. Da mesma forma, todo o investimento destinado aos cuidados pessoais com a estética vincula-se à visibilidade social que o sujeito deseja atingir – evitar o olhar do outro ou à ele se expor está diretamente relacionado as qualidades estéticas do próprio corpo!
As representações do que é ser belo, veiculadas pela mídia, acabam por transmitir discursos e saberes, que indicam como devemos ser. Amplamente disseminadas, essas imagens são carregadas de significações que produzem verdades, indicando formas de pensar, de sentir e conhecer, que por sua vez, ensinam ao sujeito os modos de ser e estar na sociedade e na cultura e quem está inserido. Daí advém a importância de analisar os filmes infantis, como um artefato cultural que contribui na constituição da identidade, forjando subjetividades.
Por ser um meio de produção e reprodução de informações, onde circulam concepções de gênero, classe social, sexualidade e raça, -  a mídia reafirma-se enquanto uma instância educativa. Portanto, para além da sua função de entretenimento, este artefato cultural deve ser considerado como um importante local de formação cultural e disseminação dos valores hegemônicos.
Em suas pesquisas, (FISCHER, 2002) busca demonstrar como, ao dirigir-se às pessoas de forma a ensiná-las modos de ser e estar na cultura em que vivem, a mídia transformou-se em um dispositivo pedagógico diretamente relacionado à formação das identidades, reproduzindo conceitos sobre os mais variados aspectos da vida associativa e que valorizam determinados comportamento em detrimento de outros. O conceito de regulação social refere-se a esses padrões comportamentais que ganham destaque em uma sociedade.
O pensamento Moderno tem como marco a compreensão da diferença como um desvio do padrão de normalidade. Marcados por estereótipos, quase sempre relacionados à incapacidade, improdutividade e/ou doença, os grupos desviantes foram vítimas de discriminações e preconceitos, sendo, na maioria das vezes, isolados em instituições especializadas, como nas escolas especiais, por exemplo.

As mais importantes marcas da atualidade, no entanto, são as rupturas de paradigmas do universal ao múltiplo, da exclusão à inclusão, assim como a transição do modo de se compreender a diferença: do modelo Moderno, pautado no padrão, que compreende a diferença como um desvio do padrão de normalidade, ao modelo atual, vinculado ao princípio da diversidade, que compreende que todos os indivíduos são diferentes e que ser diferente não significa ser normal ou anormal, capaz ou incapaz, melhor ou pior etc, significa apenas ser diferente.
Com uma abordagem afiada no tocante à temática dos estigmas relacionados à aparência, o desenho apresenta uma grande riqueza de diálogos nesse sentido, como revela a cena em que Shrek se queixa das pessoas o julgarem antes mesmo de conhecê-lo. Com isso, o personagem reafirma a crueldade e injustiça presentes no olhar preconceituoso que o imaginário social demonstra lançar em relação à feiura: "Olha, não sou eu que tenho problemas, ok? É o mundo que parece ter um problema comigo. As pessoas olham para mim e: Ah! Socorro! Um ogro enorme e horrível! Elas me julgam antes de me conhecerem".
Ao que parece, as pessoas bonitas têm prerrogativas. Ao vermos uma bela figura parecemos desculpar todo e qualquer tipo de defeito de caráter. Inversamente proporcionais aos comentários depreciativos em relação às pessoas gordas, são aqueles associados aos indivíduos de bela de aparência. Aos belos, tudo é desculpado e permitido, pois a beleza, em si, é a moeda de troca.
Não havendo qualquer tipo de restituição simbólica que possa despertar a piedade alheia, os gordos são mantidos excluídos, feito párias sociais, pois já não participam das regras do jogo social. Não à toa, na sociedade contemporânea, os obesos são denominados “malignos” ou “malditos” – como no jocoso termo empregado por Fischler. Possuem também, um comportamento visto como depressivo e por isso, desprovido da obstinação necessária para a contenção de suas medidas corporais. Enfim, sua imagem demonstra um certo desânimo perante à vida, remetendo ao fracasso no agenciamento do próprio corpo e dos seus limites.
Numa sociedade como a nossa, na qual o máximo da valoração social não reside na realização das ideologias/utopias, mas na realização dos projetos individuais – nada, então, mais antipático e que desperte menos solidariedade do que um indivíduo incapaz de empenhar-se no projeto pessoal da boa aparência.
Partindo, então, da premissa de que os imperativos estéticos são, simultaneamente, produzidos e reforçados por expectativas socialmente instituídas. Portanto, concluir-mos-emos que é a relação com a alteridade, ou seja, com o olhar do outro, que atribui uma avaliação demasiadamente depreciativa a respeito da imagem corporal que o sujeito constrói sobre si. Nota-se, contudo, que ao descrever a própria imagem, o indivíduo tende em querer desvencilhar-se dos adjetivos mais depreciativos, fazendo uso de eufemismos e diminutivos para mascarar sua real aparência.
Como bem aponta o autor, as categorias que representam a gordura, a magreza e a obesidade mantém-se, relativamente, estáveis ao longo dos séculos. Contudo, é preciso que estejamos atentos, pois são os critérios que determinam o limiar entre uma e outra, que sofrem grandes variações. Nas palavras do autor: ”era preciso sem dúvida, no passado, ser mais gordo do que hoje para ser julgado obeso e bem menos magro para ser considerado magro” (1995:79) 

Extraído do Artigo escrito por Joana de V. Novaes