13 julho 2018

Lançamento da Ladeira Cultural e da Instalação Portal dos Sonhos: o ICC mostra sua nova face


Carlos Rafael Dias
Historiador e sócio acadêmico do Instituto Cultural do Cariri

Reveste-se de simbólica importância a iniciativa do Memorial da Imagem e do Som do Cariri, através do seu diretor Jackson de Oliveira Bantim, de prestar um oportuno tributo a dois ícones da cultura caririense, o poeta Geraldo Urano e o artista plástico Sérvulo Esmeraldo. Para tanto, entregará ao público amanhã, dia 14, duas instalações:  a Ladeira Cultural Geraldo Urano e o Portal dos Sonhos Sérvulo Esmeraldo, utilizando e dinamizando o espaço de uma instituição que geralmente é vista como um empedernido sustentáculo da tradição caririense, o Instituto Cultural do Cariri - ICC.
No entanto, na virada das décadas de 1960 e 1970, os discursos produzidos pela geração de intelectuais fundadora do ICC vão ser recepcionados por uma nova geração, também fortemente influenciada por um movimento global, de caráter contracultural, motivador de contestação e transformação de estruturas que se julgavam arcaicas ou anacrônicas. Como consequência deste processo, observa-se a emergência de um benéfico e produtivo conflito de gerações que se revestiu em um embate entre os valores da tradição e da modernidade, visto que se deve entender esse processo como um campo de lutas, onde há espaço não só para a resistência, mas também para agenciamentos. Nesse contexto, destaca-se a produção literária e o protagonismo do poeta Geraldo Urano, marcados pelo experimentalismo, irreverência, contestação e engajamento sociopolítico, com fortes características de universalidade, mas sem perder o sentimento regionalista.
Antes, porém, o ICC já tinha reconhecido o valor de um vanguardista gravurista caririense, que no início da década de 1960 tinha sido um dos destaques da Segunda Bienal de Paris, merecendo uma nota na prestigiada revista Itaytera, com o pomposo título “artista cratense Sérvulo Esmeraldo brilha em Paris”. Itaytera continuaria, no decorrer de suas edições seguintes, registrando os feitos de Sérvulo Esmeraldo, como ocorreu na edição 27, de 1983, quando reproduziu matérias veiculadas na imprensa nacional acerca desse conceituado artista plástico que, na época, já era também reconhecido como escultor e autor de “uma obra rigorosamente construtiva, em que a força da estrutura geométrica e a concepção inteligente predominam sobre a expressão de emoções”. Coincidentemente, nessa mesma edição de Itaytera, o ICC abriu um generoso espaço para a produção dos jovens poetas cratenses, dentre eles Geraldo Urano, que traz em um dos poemas um verso emblemático: “rapadura é dura e doce / a verdade é assim”.
Além deste sincrônico entrelaçado de referências entre o ICC e os dois artistas homenageados, deve ser enfatizado o novo momento vivido pela velha instituição (completará em outubro próximo 65 anos de existência). Nele, sobressai-se uma força-tarefa liderada pela sua atual diretoria, tendo a frente um jovem dinâmico e repleto de boa vontade, o historiador Heitor Feitosa, que tem literalmente escancarado as portas da casa para receber e hospedar os velhos e os neófitos sócios (o mais recente é o cantor e compositor Tiago Araripe), em uma frenética programação que já é literalmente cotidiana. 
Com toda essa hospitalidade, o Memorial da Imagem e do Som, que ocupa um generoso e privilegiado espaço do ICC, sente-se cada vez mais à vontade para continuar promovendo inovações que venham injetar o pretendido sangue novo que a instituição tanto carece e que sua diretoria tanto almeja.

Na face da Terra - Por: Emerson Monteiro



Isto, no reino das tais aparentes contradições, eles andam vergados debaixo do peso de dúvidas imensas; contingentes assim se arrastam rumo do despenhadeiro, porquanto é dado ao homem morrer uma só vez e nascer na vida eterna. Sucumbir ao peso das eras, isso deixa margem a longas discussões do penhor que oferece a troca das noites do prazer pelo arrependimento.

Retrato da própria face ao espelho da dúvida, os passageiros desse trem do desconhecido reveem assim horas sucessivas de incertezas que demonstravam os limites da liberdade, vítimas da cegueira e da ignorância. Origem de paixões dolorosas, o instinto domina muitas vezes as atitudes que trouxeram até aqui. Quais folhas ao vento, nalgumas horas caem perdidos na lama e afundam no desgosto da solidão. Isso pede justiça, e dela ninguém escapa. Tropas, pois, de bandoleiros, as pessoas pisam o chão feito meras aprendizes dos equívocos e das leis. Quais atores dos dramas particulares, estonteiam as linhas do destino e jogam nos tribunais aquilo que serviria de instrumento de felicidade, contudo utilizado em causa imprópria. Vítimas de si, joguetes nas mãos da sorte, peças das tramas do azar e fagulhas de fogueiras apagadas, vacilam soltos no teto das lojas abandonadas.

Bom, quis refletir diante dos erros que serviram à construção da Torre de Babel das individualidades. Histórias delirantes da vaidade fecharam as portas aos extremos deste lugar onde andam às tontas. Que sejam reis ou serviçais no palácio, fogem às condições de olhar quanto veriam tão só do quanto resta de viver os dias e regressar aos planos, que deles nem se lembram de lá terem vindo. Eis o que fere a natureza das criaturas humanas, de saber tanto e conhecer quase coisa alguma. Parceiros dos sonhos da Eternidade, deitam sob a terra o pouco que restava ao final de tudo. E ausentes dormem o silêncio profundo e misterioso de memórias inexistentes nas profundezas do mar.

(Ilustração: Jacek Yerka)

“Coisas da República” – “Pautas-bomba” ameaçam as contas de Temer e do próximo governo


Enquanto o governo tenta cortar gastos e aumentar receitas para, pelo menos, fechar as contas de 2019, e o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, fez apelos aos presidentes da Câmara e do Senado para segurar as votações da chamada “farra fiscal”. Inútil. Propostas de parlamentares às vésperas das eleições – aprovadas ontem na Câmara dos Deputados – podem ter impacto negativo bilionário na arrecadação e são promessa de herança maldita para quem vier a ser eleito Presidente da República daqui a menos de três meses.

Às vésperas da eleição, deputados e senadores estão abrindo a torneira das contas públicas por meio da aprovação de projetos que derrubam a arrecadação do governo e impedem a contenção de gastos. As chamadas “pautas-bomba” podem ter impacto próximo a 100 bilhões de reais nos próximos anos, ameaçam as contas do governo de Michel Temer e são promessa de herança maldita para o próximo presidente.

A maior dessas “bombas” é relacionada à desoneração do ICMS sobre exportações. Se o projeto de lei que determina que a União compense o imposto aos Estados passar, a consequência serão 39 bilhões de reais a menos para o governo por ano.

Mas a lista é extensa. Tome-se o exemplo do Refis: o perdão de dívidas tributárias de produtores rurais pode custar 13 bilhões de reais só neste ano. A anistia a empresas integrantes do Simples, 7,8 bilhões de reais em 10 anos. Benefícios para transportadoras representariam 27 bilhões de reais a menos até 2020. Benefícios a Sudene, Sudeco, e Sudam podem custar 9,3 bilhões de reais até 2020. Outras propostas, como a que permite a criação de até 300 municípios, não têm impacto estimado.
Fonte: VEJA