30 junho 2018

As fronteiras do Paraíso - Por: Emerson Monteiro


Nesta condição donde mourejamos impera o vil desejo de dominar o destino. Quantas doses de frustração ainda nos aguardam nesse caminho de sonhos soltos, impossíveis, torpes. No entanto a isto aqui nos haveremos; planejar os destroços do próximo barco, na próxima tempestade do próximo inverno. Até parece que desisto de sonhar, contudo. Nada disso, todavia. A dor exige determinação de acreditar nos desejos, mesmo vis desejos que eles o sejam.

Portas abertas às probabilidades humanas, vivemos quais quem dorme e sonha com o instante solene do Sol na janela a restituir o dia e nos despertar dos antigos sonhos da noite. Vontade soberana faz de nós meros joguetes de alternativas fugazes, porquanto eis ser assim o que resta aos mortais em voo livre, de uma a outra solidão. Parceiros da destruição do que prossegue a indicar os meios de encontrar a resposta, pomos nossos pés nas fronteiras dos valores da perfeição. Afinal a que viemos se não a ser pretensos candidatos à imortalidade?

Foram tantas oportunidades que os dias ofertaram graciosamente, e as largamos perdidas nas contradições deste ser que somos nós, que persistimos a continuar na missão de encontrar o que nos resta de equilibrar sonhos e a realidade, e salvar o conceito de sermos entes eternos, desejo último de quem morre. Beiramos, pois, a toda hora esse poder infinito de revelar o mistério de que somos. Artífices da preservação na existência por todos os séculos dos séculos, toquemos o furor de ampliar o desejo do infinito e promulgar a libertação da finitude. Cabe, portanto, só a cada ser consciente o sinal que nos chama do outro lado da Eternidade, que aos poucos conhecemos de dentro da nossa própria pessoa. Aceitar a condição de precursores da salvação há nisso o motivo único de andar face a face com os acontecimentos que transformarão a dualidade em instrumento de aceitação no mundo real, verdadeiro.

(Ilustração: Vincent van Gogh, em Noite estrelada).

Não é o ódio que explica Bolsonaro. É fé. - por Regina Ribeiro (*)


A passagem do candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro, por Fortaleza tem o poder de criar impacto. Pelos vídeos e fotos que circulam pelas mídias sociais, parece que há mais gente ao lado do Mitô do que o diz a vã filosofia.

      Em 1950 houve uma campanha ferrenha contra o Getúllio Vargas no Brasil. Umas das cronistas mais anti-Getúlio da imprensa brasileira era a escritora Rachel de Queiroz, que escrevia em favor do adversário de Getúlio. O líder da Revolução de 1930 era chamado de caudilho, ditador, perverso, manipulador, adepto à censura. Era odiado pelos intelectuais. Quando as urnas se abriram, Getúlio Vargas estava eleito. Sem espaço nenhum nos jornais, Getúlio usou o rádio – impulsionado por ele, diga-se de passagem – e fazia chegar sua mensagem aos milhões de iletrados nos rincões do Brasil.

     No dia 25 de novembro de 1950 foi publicada a crônica “Um pouco de autocrítica”, que mostrava uma Rachel de Queiroz que reconhecia que a capacidade dos intelectuais influenciarem o povo era mínima. “A dolorosa verdade é que o povo não nos lê, o povo não nos conhece. E a pequena parte dele que nos lê, não nos escuta”, afirma a escritora. Falava no esforço em vão de recitar a cantilena anti-Getúlio nos cantos das páginas “pregando no deserto”. Segundo Rachel, enquanto os intelectuais demonstravam saber de tudo sobre as revoluções dos homens, era Getúlio quem parecia ter descoberto a chave do coração do povo. Qual é esse segredo?, questiona a cronista, trazendo para si a razão da escrita: “Afinal entender e comover as gentes é o nosso ofício”.

      Em 2002, Jean Marie Le Pen, candidato de extrema direita chegou ao segundo turno nas eleições francesas. Foi um susto. Le Pen surgia com um discurso impossível de se acreditar, afirmando entre outras coisas que as câmaras de gás usadas na Segunda Guerra Mundial contra os nazistas eram um “detalhe bobo”. Nessa época, li um artigo que afirmava que a responsabilidade de Len Pen estar no segundo turno era dos intelectuais franceses que não haviam ocupado o lugar de debate na França, minimizando o poder de um discurso neonazista, nacionalista e conservador.

      A passagem do candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro, por Fortaleza tem o poder de criar impacto. Pelos vídeos e fotos que circulam pelas mídias sociais, parece que há mais gente ao lado do Mitô do que o diz a vã filosofia. A julgar pelo discurso tão frágil que chega a ser bobo do candidato, mas que toca a tantas milhares de pessoas, o papel dos intelectuais, se é que existe ainda algum, é vão. Se Getúlio tinha o rádio, Bolsomito tem os chatbots, tem os grupos de WhatsApp, tem a rede.

       Cheguei à conclusão de que o jornalista Érico Firmo talvez tenha cometido um equívoco quando disse na coluna de ontem que “Só uma coisa explica a força de Bolsonaro: o ódio”. Pode também ser fé. Fé irracional em tudo o que ele fala. Fé que Bolsonaro é o homem que vai resgatar a família dos libertinos da esquerda, fé que o liberalismo tosco que ele prega vai salvar o país do comunismo (?), fé que a tortura é o santo remédio, fé que ele faz cara de mal, mas é bom, fé que é ele é exatamente como eu e você. Só há duas diferenças entre nós e ele. A primeira é que é ele quem está lutando pelo poder. A segunda é que ele poderá ser bem diferente de você, mas sua fé não o deixa perceber.

 (*) Regina Ribeiro. Jornalista do O POVO -- E-mail: reginah_ribeiro@yahoo.com.br