29 junho 2018

Naquela madrugada fria - Por: Emerson Monteiro



Isso se deu nos idos da Segunda Grande Guerra, em Crato. Era de ter escrito tal história que marcou profundamente os que ali viveram à época. Uma madrugada inesquecível de angústia de que falava minha mãe. 


Sei não ainda porque, sempre que me lembro de recomeçar, os episódios das histórias humanas, ali me avisto na Praça Francisco Sá, defronte à Estação Ferroviária, hoje desativada, ora sem os trens. Morei acima, no Bairro Pinto Madeira; na infância e na adolescência pisei por demais o chão daquela praça, nas idas e vindas ao centro da cidade. Pois foi ali que isto se deu.

O que conto revive uma madrugada durante aquela triste guerra. Já transcorriam por volta de cinco anos, de quando a Alemanha invadira a Polônia e dera início à maior das conflagrações armadas até hoje. Chegara, naquela hora, a vez de os atiradores do Tiro de Guerra de Crato ser convocados integrar as tropas expedicionárias brasileiras que lutavam nos campos da Itália. Meu pai era um desses atiradores.

Imaginemos a comoção dos habitantes do rincão interiorano face aos seus jovens na idade militar irem arrastados a tão longe, na guerra que abalava o mundo inteiro, sem perspectivas que fosse de terminar.

A tropa perfilou devidamente orientada pelos superiores. As derradeiras instruções foram dadas. Em seguida, à hora definitiva, marcharam pelas principais ruas escuras da cidade ao troar de tambores e caixas, e clarinadas, em marcha cadente, a revirar toda a alma do lugar. Horas frias. Missão estúpida rumo da morte. Lágrimas em todas as faces; ninguém dormira na noite. 

Logo os vagões do trem lotaram de soldados transidos na dor dos corações que iam e dos que ali ficavam. Distanciamento heroico dos pracinhas em horas cratenses. Esse trauma ocorreu, portanto, certa vez. 

Ao chegar em Fortaleza, onde navios aguardavam os contingentes, poucos dias depois seriam surpreendidos com os derradeiros telegramas da Europa de que as tropas aliadas ganhavam território e breve obtinham a vitória sobre o totalitarismo do Eixo, alento de paz que dominaria o mundo alguns anos daí desde então.

Caririensidade – por Armando Lopes Rafael


Soldadinho do Araripe: a ave símbolo da Caririensidade

 Esta espécie, cujo nome científico é Antilophia bokermanni, é um pássaro que só existe nas encostas da Chapada do Araripe. Trata-se da única ave endêmica do Ceará, ou seja, das mais de 460 espécies que encontramos no nosso Estado, o Soldadinho do Araripe é a única exclusiva do Ceará. Por isso, tornou-se o símbolo para a conservação da Floresta Nacional do Araripe–Flona.

   As riquezas e as diversidades naturais e culturais fazem do Cariri um oásis no centro da região Nordeste brasileira. A água que é armazenada – na temporada das chuvas –, em reservatórios subterrâneos na Chapada do Araripe, desce depois pelas encostas, formando algumas nascentes. E se transforma numa água límpida e cristalina, que se derrama entre a mata e o sopé da chapada, formando – parte inferior da encosta –  tapetes verdes de bela vegetação.  Em torno desses tapetes surgem pequenos regatos. Fica aí o habitat do Soldadinho do Araripe, uma ave ameaçada e extinção. O Soldadinho do Araripe tornou-se um ícone, uma imagem da caririensidade! E está sendo usado como apelo contra a devastação das florestas da nossa Chapada; contra o mau uso das águas das nascentes; em favor da defesa do meio ambiente.

Três locais onde se produz a cultura popular em Juazeiro do Norte
    Padre  Cícero dizia, ao seu tempo, que toda casa de Juazeiro do Norte deveria ser uma santuário de oração e uma oficina de trabalho. Mudaram os tempos. Mas para quem quiser comprar o rico artesanato da Terra do Padre Cícero, abaixo 3 dicas:
1 – Centro de Cultura Popular Mestre Noza. Um verdadeiro passeio pela essência do imaginário da cultura caririense, onde você pode acompanhar ao vivo o ofício de vários artesãos.
2 – Associação dos Artesão da Mãe das Dores. Espaço onde artesãos criam e comercializam objetos de decoração e utensílios belíssimos, feitos a partir de palha de milho e carnaúba.
3 – Grupo Genipoarte. Composto por uma família de artesãos, o grupo produz m lindo e rico artesanato utilizando palhas de milho, confeccionando móveis, sandálias, bolsas e decorações.

História: 180 anos da expedição de George Gardner ao Cariri
     Desde 1838, há 180 anos, a região do Cariri era objeto de interesse por parte de cientistas. Padre Cícero ainda nem tinha  nascido. George Gardner (médico naturalista, botânico memorialista, intelectual pesquisador, escritor, ensaísta e cientista inglês) – nascido em Glasgow, Escócia –  passou cinco meses no Cariri fazendo estudos sobre a flora, fauna, reservas paleontológicas e aspectos sociológicos, do então Império do Brasil, uma nação respeitada àquela época.  
  
     Após explorar os arredores de Crato (àquela época já existia a aldeia do Joaseiro, erguida em torno da capelinha de Nossa Senhora das Dores, esta construída pelo Pe. Pedro Ribeiro), Gardner incursionou por outros sítios da Chapada do Araripe, como a Vila da Barra do Jardim (hoje cidade de Jardim). Esta havia sido emancipada de Crato em 3 de janeiro de 1816, através de decreto assinado por Dom João VI, Príncipe Regente do Reino de Portugal, Brasil e Algarves.


Uma amostra dos escritos de George Gardner
    Interessante ler as primeiras impressões que Gardner escreveu sobre sua chegada a Crato depois de ter viajado – várias semanas – pelo sertão semiárido do interior cearense:
“Impossível descrever o deleite que senti, ao entrar neste distrito, comparativamente rico e risonho, depois de marchar mais de trezentas milhas através de uma região que, naquela estação, era pouco melhor que um deserto.
 A tarde era das mais belas que me lembra de ter visto, com o sol a sumir-se em grande esplendor por trás da Serra do Araripe, longa cadeia de montanhas, a cerca de uma légua para Oeste da Vila, e o frescor da região parece tirar aos seus raios o ardor que pouco antes do poente é tão opressivo ao viajante, nas terras baixas. 
A beleza da noite, a doçura revigorante da atmosfera, a riqueza da paisagem, tão diferente de quanto, havia pouco, houvera visto, tudo tendia a gerar uma exultação de espírito, que só experimenta o amante da natureza e que, em vão eu desejava fosse duradoura, porque me sentia não só em harmonia comigo mesmo, mas “em paz com tudo em torno”.