30 abril 2018

Numa mesma estação planetária - Por: Emerson Monteiro

Galpão enorme do tamanho da superfície terrestre espalhado pelo chão. Gente de não ter limites de quantidade multiplica os milhões aos bilhões, sei lá, no entanto. O certo daquela vez, de cada um dos lados chegará o comboio que os levará ao destino das multidões absortas em si próprias e suas virtudes. Todos sabem, alguns fazem de conta não saber, que o drama das comédias de carne terminará quando chegar o Sol. Quero crer parecer com a parábola do joio e do trigo, onde ninguém arrancaria antes por se parecerem tanto.

Mas os tais passageiros dos tais comboios estarão de malas prontas, aprontadas, aprontando todo dia, pois sabem de sobra que esse dia chegará, a fim de atendê-los naquilo do deus dos corações, de onde está o tesouro e lá também estarás. Processo semelhante de quando a alma virar espírito e o espírito virar alma. A única desigualdade é que espírito não terá mais carne.

Bom, nisso esperam, e pronto.

Num dos cantos do galpão monumental pequenos grupos jogam truco; noutros, gamão, dama, xadrez, vídeo game, os errepegês da vida que anda arrastando a barriga nos esgotos e nos pântanos dos filmes de horror contemporâneo de campos e refugiados. Naves sobrevoam atentas pelo céu, de olhos abertos a mínimos detalhes daquilo tudo, cena secular das gerações.

Os bilhetes vão sendo adquiridos aos lotes nos leilões da madrugada ainda escura. São eles os reis, sultões, ditadores, presidentes, políticos, financistas, empreendimentos mil transformados em distração das horas que passam feitas ondas nas marés siderais da criação do mundo.

A multidão, ao seu modo, gosta disso, porquanto nada mais resta senão o lazer das ilusões de esperar, vistas presas nos retângulos das televisões distribuídas no teto dos dormitórios sob a camada atmosférica.

Qualquer momento, e chegarão, das duas origens e em duas direções, comboios descomunais que os levarão pelo espaço, ou aqui permanecerão na superfície, a refazer o sonho dos que ficarem, ou alimentarão de possibilidades outras os que seguirem rumo a outra constelação perdida no Infinito.

(Ilustração: Pieter Bruegel, o Velho).

Expedita do Bode (por Pedro Esmeraldo)

Com muito alarme, desejo retroceder a fim de desviar o comportamento interativo com o intuito de aprimorar o processo de comunicação entre as pessoas interessadas em relembrar todos aqueles que têm o procedimento de querer saber dos bons costumes de certas pessoas em tempos passados.
Com muita reflexão permaneço atento e vivo a matutar eternamente as boas atitudes de pessoas antigas que viviam lutando pelo pão de cada dia.
    Desta vez vivo pensando em recordar o modus vivendi de certas pessoas que lutavam pelo pão de cada dia à sua maneira.
Neste período conheci uma senhora afrodescendente trabalhando com afinco, especializada em abate de bode. Era astuciosa, vibrante, conhecia tudo sobre as raças caprina e ovina. Permanecia imóvel às diabruras, já que havia brincadeiras distorcidas entre os amigos. Ela era inacessível a certas brincadeiras, mas respondia com palavras obscuras, não deixando cair em entristecimento, pois sempre se saía de maneira jocosa que provocava risos.
    
     Por isso, relembro as figuras folclóricas do sítio São José.
     Destaco outras pessoas amigas que viviam perambulando ‘‘para lá e para cá’’ que era uma mulher de comportamento ébrio, cambaleando nas estradas poeirentas desse sitio São José. Era conhecida como Rita Bêbada. Ela já estava decrépita que não sabia mais o que dizer. Fazia raiva aos trabalhadores rurais porque quando se excedia na bebida dizia que todos fossem trabalhar ao patrão.
Outra figura notável é o senhor Manuel d’agua também, um beberrão, marido da Expedita do bode, pessoa que relatava por esse apelido desdenhoso.  Permanecia sempre beberrão, devido a permanecia de sempre andar embriagado, já que esse apelido era jocoso, que não deixava prática de beber bebidas alcóolicas.
      Expedita ficava furiosa, completamente enraivecida devido a falta de ética do seu marido beberrão. Mesmo assim, nos dias de abates dos ovinos e caprinos ela  obrigava o marido a efetuar o trabalho da matança e que ele fazia com precisão. Depois deste trabalho, Expedita saía vendendo carne de bode ou de carneiro nas ruas de Crato e Juazeiro, mas vivia continuamente perturbada devido o péssimo estágio do seu marido Manuel d’agua. Nunca saía da perturbação financeira porque tinha de suprir o desgaste monetário do seu esposo. Ele era indolente, inconformado, sem determinação alguma.
      Numa noite enluarada, Expedita teve uma grande aflição devido o seu marido Manuel d’agua praticar algazarra, pois sem querer se jogou numa Kombi que vinha de uma maneira lenta na estrada. A pancada que ele levou foi fatal e Manuel d’agua caiu morto na mesma hora do acidente. Nesse ínterim, alguns moradores do sitio, apavorados correram armados, com facas, roçadeiras e facões, querendo vingar a morte do seu amigo Manuel.
      O motorista não titubeou, quando viu o perigo em sua frente e correu imediatamente sem socorrer a vítima.
        Expedita era astuta, de comportamento compreensível, mas sabia se aliar tentando se enquadrar com altivez no meio da tropa que praticava o negócio na venda de carne.
       Ela nasceu no sítio São José no começo do século passado. Seus pais também Afrodescendentes moravam com a família Pinheiro no sitio Paúl neste município. Após o casamento Expedita não quis se sujeitar a ninguém e se desviou da rota do Feudalismo caririense, logo cedo após o casamento.
Astuta como ela era, teve a ideia de partir para a venda de carne e que logo procurou se enquadrar nesse meio. Após longo tempo e tenebroso trabalho que perdurou até sua morte. Veio a falecer no final dos anos oitenta e deixou uma lacuna ao pessoal amante da carne caprina.

Arquétipos do conservadorismo – por Valmir Lopes (*)

   O conservadorismo como prática política é baseado na crença da imperfeição humana. Inicialmente, expressão e defensores dos valores do mundo agrário, o conservadorismo evolui para forma de concepção de mundo mais sofisticada e adaptada ao mundo moderno. Como crença intelectual tem origem bem definida: a Revolução Francesa. Trata-se de um pensamento contrário aos eventos revolucionários e suas ideias inspiradoras.
   A melhor caracterização é o antirracionalismo, oposição a todo construtivismo social e político, que pretende fazer experimentos com a existência humana, procurando aperfeiçoa-la. Na antropologia filosófica, os homens são concebidos como criaturas e menos como criadores. 
       Inexiste uma ideologia conservadora. Não se apoia em utopias e projetos realizados através da ação política. Nutrido do sentimento da frágil condição humana, acredita numa espécie de sabedoria imemorial materializada na realidade que não deve ser subvertida pela potência da razão. Em política, é pessimista, realista e prudente com formas inovadoras de agir. A experiência das gerações passadas está incrustada em forma de sabedoria prática muito superior a toda e qualquer especulação teórica da razão. O realismo conservador se opõe ao ilusório. É aceitação ao que existe historicamente como sendo expressão dessa sabedoria coletiva. O domínio da razão prática tem autonomia que o pensamento teórico não pode ultrapassar.  
        É errado interpretar o conservadorismo como oposto à mudança, deseja mudança dentro da ordem e conduzida pela própria realidade. Contrários às mudanças intencionais para atingir fins desejados pela razão humana, o conservadorismo sabe apreciar o valor da circunstância, dela extrai todo o conhecimento prático necessário para agir. Muito antes dos dialéticos, ele já valorizava a história como redução do tempo experienciado. É o saber praticável, distante do teorético, que o alimenta. Mudanças dentro da ordem e guiadas pelos princípios extraídos da própria realidade. O ritmo e o alcance da mudança desejada não deve ser uma invenção e propósito humano. 
      A mudança deve ser imposta pelas circunstâncias e dela deve-se extrair os indicadores do sentido dessa mudança. As circunstâncias têm um papel crucial na ação política conservadora, ela deve ser guia, ao lado da prudência das decisões políticas. Implícito encontra-se uma ideia de razão prática ou de uma razão controlada e guiada pela prática. Não é certo dizer que os conservadores valorizam mais o passado do que o presente. A ideia é que as instituições legadas do passado, já deram provas de maior adequação ao modo de existir coletivo. As instituições persistentes na história humana devem ser valorizadas porque contém a sabedoria prática dos antepassados e revelam ter ultrapassado o teste do tempo.  
      Em relação ao Estado, é propenso a apoiar regimes diversos, mesmo autoritários, contanto que promovam aquilo que considera bons valores de uma sociedade. Ao lado dos socialistas, os conservadores nutrem o fetichismo pelo Estado em sua potência realizadora. Enquanto os liberais apregoam amplas liberdades para os indivíduos, os conservadores receiam a liberdade individual e temem uma sociedade individualista. Quanto à economia, têm uma atitude ambígua em relação a sociedade de mercado. Descrentes de propostas de aperfeiçoamento humano e felicidade ofertada publicamente, apoiam-se numa ideia mínima de natureza humana imutável.

(*) Valmir Lopes, Cientista político e Professor da UFC. E-mail: lopes.valmir@gmail.com