17 abril 2018

Raízes dos acontecimentos - Por: Emerson Monteiro

O conceito budista revela que reencarnamos por conta do carma, balanço do mal e do bem que nos leva através das vidas sucessivas até chegar no dharma, ou encontro definitivo com a Perfeição da infinitude. Enquanto não organizar tal mecanismo, nem pensar em equilíbrio eterno das condições da consciência em todos nós. Daí dizerem eles, os budistas, que quem reencarna é o carma, na via do autodescobrimento pelos universos da alma sem fim, marcas da evolução.

E os acontecimentos são fruto disso, dos carmas somados que regressam no esforço de livrar de si a matéria e achar a transcendência. Todos, nas suas pequenas naves individuais, a vagar nos serões das vidas, são autores pessoais do próprio merecimento. Por mais e muitos sejamos, obedecemos às tendências que a Natureza concede, nos dramas/comédias dessa possibilidade. Autores e atores, nos domingos dessa perenidade, senhores só aparentes da residência onde habitam cá dentro do eu, tangemos sonhos em forma de histórias particulares, outrossim influências inevitáveis da rua dos acontecimentos ali de fora, no passeio do Tempo, e nós dentro dele a observar as vidas, então.

Queiramos, sim ou não, estamos sujeitos aos fatores ocasionais de tudo quanto há, nas batalhas de encontrar a iluminação ansiada desta jornada pelos campos do Senhor. Notas interligadas de sinfonia miraculosa, exercemos papéis por vezes desencontrados até compreender a tal transformação que reclamamos dos outros e ser bem aqui dentro de nós criaturas humanas.

Nisso, nas águas que deslizam dos céus, deslizamos feitos gotas em busca do oceano da imortalidade. Parceiros dos jogos transitórios, pois, cruzamos as vistas no bem-estar dos dias, olhos presos nas intenções e prendas escorrem entre os dedos e chamamos sorte. Nada, contudo, sendo além de meras resultantes das ilusões que esmagam e constrangem, enquanto deixávamos de lado, quase sempre, a certeza da Felicidade, desde que construamos o Destino  A sós, na solidão desse deserto, virá a hora de partir aos novos conceitos que nos aguardam.

(Ilustração: Foto de Oyama Yukio).

Lembrando o Visconde de Ouro Preto, o último Primeiro Ministro da honrada monarquia brasileira – por Armando Lopes Rafael


“O Parlamento no Império era uma escola de estadistas, 
na República virou uma praça de negócios". Ruy Barbosa

   Amargas e atuais palavras, essas palavras de Ruy Barbosa. Lembrei-me delas ao recordar a figura do político Afonso Celso de Assis Figueiredo – o Visconde de Ouro Preto. Nascido em Ouro Preto (MG) em 2 de fevereiro de 1836, ele faleceu no Rio de Janeiro em 21 de fevereiro de 1912. 
    O Visconde de Ouro Preto foi o último Presidente do Conselho de Ministros do Império do Brasil, cargo que hoje chamaríamos de Primeiro Ministro. Naquela época o Brasil era uma democracia parlamentarista. E todas as decisões políticas eram feitas por parlamentares (senadores e deputados gerais) sob a vigilância do Poder Moderador, exercido pelos Imperadores brasileiros.
        É de autoria do Visconde de Ouro Preto o texto abaixo, que transcrevo para o conhecimento das novas gerações. A conferir.
    "O Império não foi a ruína. Foi a conservação e o progresso. Durante meio século, manteve íntegro, tranquilo e unido território colossal. O império converteu um país atrasado e pouco populoso em grande e forte nacionalidade, primeira potência sul-americana, considerada e respeitada em todo o mundo civilizado.
     Aos esforços do Império, principalmente, devem três povos vizinhos o desaparecimento do despotismo mais cruel e aviltante. O Império aboliu de fato a pena de morte, extinguiu a escravidão, deu ao Brasil glórias imorredouras, paz interna, ordem, segurança e, mas que tudo, liberdade individual como não houve jamais em país algum.       
       Quais as faltas ou crimes de Dom Pedro II, que em quase cinquenta anos de reinado nunca perseguiu ninguém, nunca se lembrou de uma ingratidão, nunca vingou uma injúria, pronto sempre a perdoar, esquecer e beneficiar? Quais os erros praticados que o tornou merecedor da deposição e exílio quando, velho e enfermo, mais devia contar com o respeito e a veneração de seus concidadãos? A república brasileira, como foi proclamada, é uma obra de iniquidade. A república se levantou sobre os broquéis da soldadesca amotinada, vem de uma origem criminosa, realizou-se por meio de um atentado sem precedentes na história e terá uma existência efêmera!"
Visconde de Ouro Preto