06 abril 2018

Crônica do fim-de-semana (por Armando Lopes Rafael)

Crato poderá perder acervo dos 23 quadros de Sinhá D’Amora  que eram exibidos no Museu de Artes Vicente Leite
Autorretrato de Sinhá D'Amora

     Felizmente, alguém ameaça tomar uma medida contra o fechamento do Museu de Artes Vicente Leite, na cidade de Crato. Como é de domínio público, desde o final da administração do ex-prefeito Samuel Araripe (2008-2012) o Museu de Artes Vicente Leite de Crato encontra-se fechado. Durante os quatro anos da administração seguinte, a de Ronaldo Gomes de Matos (2013-2016) não foi movida uma palha para reabri-lo! E na atual gestão municipal, sob o comando do Sr. Jose Ailton Brasil, (a terceira que vê o museu fechado) já se passaram um ano e quatro meses e nenhuma medida foi anunciada para sanar o problema.
       Pois bem, em Fortaleza existia o Memorial Sinhá D’Amora, mantido pela Prefeitura e também desativado desde 2013. O descaso levou o Sr. Olavo Correia Lima Filho, sobrinho da renomada pintora, a comunicar a Secretaria da Cultura da capital cearense: a família da artista entrará na justiça para reaver 14 quadros que lá eram exibidos. O acervo seria transferido para a Fundação Sinhá D’Amora que está sendo criada, em Lavras da Mangabeira, terra natal da pintora.
Sala do Solar da família de Sinhá D'Amora, no centro
da cidade de Lavras da Magabeira, onde funciona a Fundação

     As providências do sobrinho de Sinhá D’Amora não param por aqui. Segundo a matéria de meia página – publicada na edição desta 6ª feira, dia 06, do “Diário do Nordeste” – o sobrinho da pintora "(também)luta há 10 anos para a preservação da memória artística de sua tia, no sentido de localizar 23 quadros doados ao Museu de Artes Vicente Leite, no Crato”.
      Quando localizado o valioso acervo, e tendo sua causa vitoriosa na Justiça, a família de Sinhá D’Amora, alocará todas as 37 telas (que dever estar empacotadas em Fortaleza e Crato?) e as reunirá na Fundação, com sede no vetusto solar -- uma bela casa existente no centro de Lavras da Mangabeira -- pertencente aos herdeiros da lendária Fideralina Augusta Lima, avó de Sinhá D’Amora.
     Será que Crato, ex-Capital da Cultura do Cariri, assistirá passivamente a perda desse rico acervo? 
      É a pergunta que fica para reflexão da população cratense, neste fim-de-semana.

“Coisas da República” – outros Presidentes que também foram presos: Hermes da Fonseca, Arthur Bernardes, Washington Luís e Juscelino Kubitschek

Washington Luís foi deposto e preso na Revolução de 30, liderada por Vargas; os outros foram detidos após deixarem Presidência. Lula será 1º ex-mandatário preso por corrupção

Fonte: excertos de matéria publicada no jornal “O Globo”, 06-04-2018 – por Gustavo Villela e Paulo Luiz Carneiro

    A condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a nove anos e seis meses de prisão, determinada pelo juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, e a decisão do Tribunal Reginal Federal da 4ª Região (TRF-4), elevando a pena para 12 anos e 1 mês, fazem lembrar episódios que marcaram a história republicana brasileira. Em contextos diferentes, um presidente, no exercício do cargo, foi preso, enquanto três outros políticos, após deixarem a Presidência, também foram detidos.
Ainda na República Velha (1889-1930), o marechal Hermes da Fonseca, que governou o país entre 1910 e 1914 — quando, viúvo, casou-se com a jovem cartunista Nair de Teffé, escandalizando a sociedade —, teve a sua prisão decretada na gestão do presidente Epitácio Pessoa (1919-22). Em junho de 1922, o governo federal interveio na eleição estadual de Pernambuco, sendo duramente criticado por Hermes da Fonseca, na ocasião presidente do poderoso Clube Militar. Foi então ordenada a prisão de Hermes e o fechamento por seis meses do Clube Militar, em 2 de julho de 1922. O ex-presidente ficaria preso até janeiro do ano seguinte.
     A Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder, também foi marcada pela deposição do seu antecessor. Em meio a uma conspiração militar e a pressão de grupos de populares, na manhã do dia 24 de outubro, Washington Luís — cujo lema era "governar é abrir estradas" — foi deposto e obrigado a deixar a sede do governo, o Palácio Guanabara, em Laranjeiras, Zona Sul do Rio. De acordo com informações do Centro Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), com a mediação do cardeal Leme, o presidente "consentiu em se retirar, ressaltando porém sua condição de prisioneiro, pois não havia renunciado. Abraçou cada um dos que estavam ao seu lado e foi transportado para o forte de Copacabana. Seus ministros também foram presos. Quando essa notícia foi divulgada, houve comemorações espontâneas nas ruas da maioria das cidades do país".
       Dois anos após a Revolução de 1930, o ex-presidente Arthur Bernardes, que havia dirigido o país entre 1922 e 1926, também se transformaria em alvo. Após a eclosão da Revolução Constitucionalista de julho de 1932, em São Paulo, ele foi preso em 23 setembro de 1932, em Araponga, município próximo a Viçosa, tentando fazer um levante em Minas Gerais em apoio ao movimento paulista. Embarcado de trem para o Rio, Bernardes foi levado para depoimentos na Ilha das Cobras e, depois, na Ilha do Rijo, ambas na Baía de Guanabara. Ficaria preso ainda no Forte do Leme, antes de seguir, em 4 de dezembro de 1932, para o exílio em Portugal.
      Presidente "bossa nova", que criou Brasília e fez o país caminhar rumo à industrialização com a ajuda do capital estrangeiro, Juscelino Kubitschek também passou pelo constrangimento da detenção, após conduzir o Brasil entre 1956 e 1961. Com o golpe de 64 que depôs o presidente João Goulart, JK teve os seus direitos políticos cassados por dez anos. O endurecimento da ditadura militar, após a edição do AI-5, em 13 de dezembro de 1968, levou Juscelino a ser preso e levado para um quartel, em Niterói, na mesma noite da decretação do Ato Institucional, quando saía do Teatro Municipal do Rio, onde fora paraninfo de uma turma de Engenharia.
      Já o ex-presidente Jânio Quadros, que também teve seus direitos cassados, foi confinado durante 120 dias em Corumbá (MS) pelo regime militar. O ministro da Justiça, Gama e Silva, disse em nota oficial que "o Sr. Jânio Quadros deverá permanecer no local escolhido para seu confinamento até 26 de novembro. Mas não ficará recolhido a quartel do Exército, pois não está preso: poderá andar à vontade pelas ruas da cidade e até trabalhar", conforme edição do GLOBO de 30 de julho de 1968.
      No caso de Lula, pela primeira vez na História um ex-presidente foi julgado culpado por um crime comum. Na sentença de primeira instância, proferida no dia 12 de julho de 2017, o juiz Sergio Moro considerou que Lula é culpado por ter recebido um tríplex no Guarujá, dado como propina pela construtora OAS, que fora beneficiada em contratos da Petrobras. Com isso, o petista foi condenado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Para a defesa de Lula, a decisão judicial tem conotação política e "envergonha o Brasil".