13 março 2018

De ser um lugar só - Por: Emerson Monteiro

Dessa contingência dos mundos, de andar aqui, ficar aqui aonde for e nunca sair do mesmo lugar. Olhar distante, no entanto aqui permanecer de olhos colados na distância impossível de ir e só aqui permanecer. Sair e regressar sem sair, sem regressar. Esse eu imortal e só vagando solto no mar das tormentas humanas. Doce às vezes, amargo, talvez, noutras, mar de no entantos. Tais desta, a natureza dos objetos, dos animais, dos universos. Marcas indeléveis de pródigas torturas e lentas felicidades em forma das nuvens que passam no horizonte azul.

Lá longe, contudo, em que as dores ferem e matam, na Síria, no Afeganistão, em Uganda, ali está o coração da humanidade inteira, uma só criatura espalhada pelas folhas soltas do tempo. Há clamor de justiça e paz, enquanto o mundo segue sua forma de preencher as páginas da história. Mexe por dentro do corpo das criaturas ausentes no lá longe vontade intensa de apenas preencher as páginas da história sem que tivessem de entregar corpos e vidas diante das aventuras dos grupos em luta. Outros assim iguais na esperança erguem aos céus o desejo das horas de pensar e ser que nunca pedissem partes de si, dos amores, da família, do lar, do trabalho e da beleza, nos sóis da Natureza mãe.

Quantos e tantos que pedem ao menos fugir de ser naqueles lugares em guerra, Enquanto isso, bem aqui ferem de angústia o não saber resolver os dramas humanos criados pelos próprios seres que disso alimentam e se alimentam, de ser um lugar só, em um só lugar. Clamores de justiça, harmonia e respeito, fatores mínimos que alimentam o instinto de preservar a existência do mistério que somos todos neste mar de possibilidades. Amor o que virá nos dias e trará véus de luz aos planos em andamento neste lugar de todos e oficina dos amores justos.

A História do Brasil que os professores das universidades e escolas não contam -- I

República impopular do Brasil – por Cláudio Fragata Lopes (1ª Parte)
A sociedade ficou de fora no regime que teve de inventar mitos, hinos, bandeiras e heróis
(Excertos da matéria publicada na revista “Galileu", nº 112)
 A Quartelada– O quadro Proclamação da República, de Benedito Calixto, retrata com realismo o episódio de 15 de novembro de 1889: sem participação popular

   “A proclamação da República ainda é um capítulo equivocado da História do Brasil. Muita gente pensa no episódio como uma revolução popular, que pôs fim à monarquia e instalou no país um regime moderno e progressista. Mas não foi bem assim. O ato de implantação da República não teve participação popular. Nem na proclamação, a 15 de novembro de 1889, nem nos anos seguintes” (...) (A proclamação) “Foi fruto de uma elite, formada por militares, intelectuais e proprietários rurais, que, para legitimar o novo regime junto ao povo, tentou forjar mitos e símbolos.
     “Aprendemos na escola a ver a República como um movimento renovador e patriótico. Mas o episódio teve uma repercussão bem diferente daquela que está nos livros. A população carioca assistiu, no dia 15 de novembro de 1889, a uma parada militar liderada p elo marechal Deodoro da Fonseca, que até o último momento hesitou em desempenhar o papel de "proclamador".
    “Testemunhos da época sustentam que o marechal deu um viva ao imperador ao fazer o famoso gesto que o pintor Henrique Bernardelli eternizou em quadro, e até hoje simboliza o ato da proclamação. A descrição que o dramaturgo Arthur de Azevedo fez do episódio não é mais animadora: o cortejo passou em silêncio pelas ruas e o marechal parecia "um herói derrotado, mal se sustentando na sela, a cara fechada, de cor ferrosa puxando para o verde".
      “José Murilo de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é um dos historiadores que veem a República com outros olhos: "Deodoro nunca foi republicano, nem antes, nem depois do 15 de Novembro", afirma. O marechal aceitou a missão por razões corporativistas, em defesa da honra militar, e também táticas, já que os conspiradores fardados eram muito jovens. "Ele aliava liderança e comando", explica o historiador. "Durante seu governo, deu várias indicações de seguir o antigo regime, como na dissolução do Congresso e na maneira imperial de tratar os ministros." Quando o irritavam, ameaçava "chamar o Velho". Ou seja, dom Pedro II.
      “(Depois de implantada, pelo golpe militar de 15 de novembro de 1889) “Para ter um herói, a solução encontrada (pelas novas autoridades republicanas)  foi promover Tiradentes ao panteão da República. O inconfidente mineiro já era cultuado nos clubes republicanos que se espalhavam pelo país antes da proclamação. Mas a celebração do 21 de abril só começou em 1881, instituída pelo novo regime.
      “A principal batalha pela simbologia republicana se deu em torno de uma nova bandeira e do Hino Nacional. No dia da proclamação, os participantes não tinham ainda uma bandeira. Levaram às ruas um modelo confeccionado pelos sócios do clube republicano Lopes Trovão, na verdade uma cópia da bandeira norte-americana, onde as cores imperiais verde e amarela foram conservadas nas faixas horizontais.
     “A versão oficial e definitiva, anunciada quatro dias após a proclamação, foi uma vitória positivista. É a nossa atual bandeira. Desenhada por Décio Villares, de acordo com a orientação filosófica de Auguste Comte, trazia a inscrição "Ordem e Progresso" . Isso porque, segundo o filósofo, uma sociedade exemplar teria "o amor como princípio, a ordem como base e o progresso como fim".
     “Alguns astrônomos da época apontaram a falta de rigor científico com que as estrelas e o Cruzeiro do Sul tinham sido bordados. Ciência à parte, a bandeira foi aceita.

A História do Brasil que os professores das universidades e escolas não contam -- II

República impopular do Brasil – por Cláudio Fragata Lopes (2ª Parte)
(Excertos da matéria publicada na revista “Galileu", nº 112)
Hino velho, letra nova
     “Os positivistas não tiveram a mesma sorte em relação à mudança do hino. "Foi a única vitória popular do novo regime", esclarece José Murilo de Carvalho. Assim como não tinham bandeira, os manifestantes de 15 de novembro não possuíam hino. Durante o desfile, cantaram a Marselhesa, o hino nacional francês. Dias depois, durante uma cerimônia oficial, de novo a Marselhesa foi executada, junto a outras marchas militares, sem despertar o entusiasmo dos civis. Os músicos, de improviso, iniciaram os acordes do hino imperial, de Francisco Manuel da Silva, para satisfação geral dos presentes.
      “Os republicanos optaram então por uma saída conciliatória, mantendo o velho hino, mas com nova letra, escrita por Osório Duque Estrada. Assim nasceu o Hino Nacional Brasileiro. A maior vitória obtida no campo musical foi a instituição do Hino da Proclamação da República (para quem não se lembra: "Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!"), composto por Leopoldo Miguez e Medeiros de Albuquerque, vencedores do concurso organizado especialmente para escolher o hino oficial do novo regime.
   “Apesar do malogro do imaginário republicano, permanece até hoje a ideia de um movimento de grande alcance popular e patriótico. Para José Murilo de Carvalho, entre a população pobre e analfabeta da época persistiu uma simpatia latente pela monarquia. Mas, com a implantação do sistema educacional federativo, a situação foi aos poucos tomando outros rumos: "Os novos governos estaduais introduziram nos currículos escolares a versão favorável à República, educando nessa crença as novas gerações".
O "retrato oficial" do nascimento da república e o seu patrono
   "Monarquista notório, Deodoro da Fonseca vacilou em assumir o papel de proclamador republicano. Mas foi com galhardia que posou para Henrique Bernardelli pintar A Proclamação da República. Estaria ele, nesse momento solene, dando vivas ao novo regime ou a o imperador? É o que o historiador José Murilo de Carvalho ainda se pergunta. Seja como for, o quadro se transformou na versão oficial do episódio, e está para a República assim como a tela O Grito do Ipiranga, de Pedro Américo, está para a proclamação da Independência. A grande diferença entre as duas obras, segundo Carvalho, é que dom Pedro I, no quadro de Américo, aparece interagindo com várias outras figuras.
    "A concepção de Bernardelli é totalmente personalista. Em primeiríssimo plano, o marechal ocupa quase toda a cena. Republicanos históricos, como Quintino Bocaiúva e Benjamin Constant, estão ao fundo, montados a cavalo. Note-se que Deodoro não aparece com uma espada, símbolo da ação militar. No 15 de Novembro, não portava uma. Seria violar a verdade dos fatos retratá-lo erguendo uma espada, afirma Carvalho: "Já bastava a dúvida sobre o sentido de erguer o boné".