06 março 2018

O império da vontade - Por: Emerson Monteiro

Feitos crianças birrentas, os humanos insistem preservar antigos caprichos, os mesmos que os levaram a construir aleijões nessa civilização que predomina diante do Chão. Se não sabem, decerto também não querem saber. O impacto do instinto resume, pois, as ações do que constroem, na supervalorização do egoísmo de classes dominantes nos inúmeros países. Criam leis, edificam palacetes de injustiças e lavam mãos já carcomidas no desleixo das dores que provocam. As guerras. Os falsos cultos dos prazeres insanos. Os travos amargos da iconoclastia das posses materiais. A irresponsabilidade pelos atos tornados de lama e pó. Eis o império dos impérios da raça dos homens, adúlteros confessos da imprevidência e do arbítrio.

Bom, mas avaliam os filósofos, as pitonisas, os santos, que haverá de conter os impulsos dessa tal vontade a qualquer custo a fim de encontrar a porta de saída de paz tanto apregoaram nos séculos e milênios da vasta cultura. Isto será a única alternativa à inutilidade dos projetos que ora somos todos. Um senso coerente a transmutar aquele quadro nefasto de tamanhas apreensões. Isso crença de quem espera melhorar o destino das massas. Deixar correr frouxo, no entanto, também cabe nos desacertos particulares.

Nisso, os valores, as virtudes. Pleitear sabedoria, invés de deitar e mandar a máquina passar por cima. Elevar as aspirações da verdade na forma de uma consciência prática. Usufruir daquilo que chamam inteligência;conhecer de perto a esperança dos sonhos. Responder ao enigma dos tempos. Resta controlar a vontade, vez que, segundo consta dos resultados oficiais, a espécie como um todo virou bicho de sete cabeças e esquece-se de alimentar a chama liberdade humana, no que pese pagar as consequências da farra homérica. Então existe essa tal prerrogativa, recorrer ao domínio da vontade e reverter o quadro de horrores, ao menos em termos das particulares atitudes. Faça a sua parte, portanto.

“Viva a República” – por Meira Penna (*)


       Meu pai, que na época da monarquia era menino e morava no Largo de São Salvador, no Rio de Janeiro, gostava de correr atrás da carruagem de Dom Pedro II, gritando “Viva a República!”, quando Sua Majestade ia visitar a filha no que é hoje o Palácio Guanabara. Detrás de suas barbas patriarcais, o Imperador respondia, sorrindo para o pirralho atrevido...
   
        O Império de fato jamais fizera qualquer objeção à expressão do pensamento de seus adversários.
       O fato é que, no momento, só dois deputados republicanos sentavam-se no Parlamento, o que prova o pouco efeito que, até então, tinha tido a livre propaganda da Ditadura republicana positivista.
Grande foi o contraste com a censura, a inquisição e a perseguição aos monarquistas que se estabeleceu pelo Decreto de 23 de dezembro de 1891, por ocasião da primeira constituição republicana, que ficou conhecido  como “Decreto Rolha”. O Império sempre fora perfeitamente liberal e democrático. E enquanto a monarquia foi perseguida pela famosa “cláusula pétrea”, dispositivo que perdurou até a última das publicações periódicas chamadas Constituições, a de 1988, a mais burra de todas – o regime republicano estabelecido em 1889 se distinguiu, desde o início, pelo personalismo, as iniciativas arbitrárias, as ilegalidades e os sistemas ditatoriais.
          A República teve que esperar 57 anos, até as eleições de 1946, para formar um governo legítimo e livremente escolhido pelo povo - se a isso se poderia chamar eleições!
         Uma alegação comum qualificava a monarquia de regime anacrônico, defasado e contrário ao desenvolvimento. É a primeira mentira. Japão, Grã-Bretanha, Países Baixos e os Escandinavos se colocam entre os de maior PIB per capita do planeta. Noruega e Luxemburgo gozam, aliás, de uma renda pessoal média anual de 36 mil dólares, a única acima da americana.
         A Espanha livrou-se do atraso, anarquia e conflitos internos, responsáveis pela mais sangrenta guerra civil do século, depois de se transformar em reino. Hoje, é o país que mais cresce na Europa. Na época do Império, nem um Napoleão III, uma rainha Victoria ou um Kaiser Guilherme I teria tido o topete de usar a nosso respeito a expressão que notabilizou De Gaulle (“O Brasil não é um país sério”).
        Éramos um país sério, na Monarquia!

(*) Meira Penna, embaixador.