15 fevereiro 2018

Uma fotografia – por José Luís Lira (*)

   A música fotografia, de Leoni e Léo Jaime, dá o tom da coluna de hoje: “E quando o dia não passar de um retrato/ Colorindo de saudade o meu quarto/ Só aí vou ter certeza de fato/ Que eu fui feliz”. Neste feriado – carnaval para mim não é mais que isso –, embora respeite aos que se divertem; de repente, não mais que de repente, como diria o poeta, e no acaso que só a vida é capaz de produzir, enquanto folheava um velho livro que trouxe a Fortaleza para encadernar, encontrei, entre suas páginas, uma fotografia na qual aparecíamos 3 amigos.
      Era a infância mágica. Estudávamos no Instituto Benjamin Soares, administrado pelas queridas Irmãs Reparadoras do Coração de Jesus. Tivemos uma educação sólida tanto nas matérias que nos eram ensinadas quanto na formação pessoal que nos acompanha. Não é demais dizer que os que estudamos naquela Escola facilmente nos reconhecemos. O tempo passou. Cada um seguiu seu caminho, em locais e diria até, em funções, diferentes das que sonhávamos e falávamos naqueles dias. Pouco nos falamos, mas, ainda somos amigos.
      Via numa manhã esta fotografia. Lembro-me exatamente da situação, do dia que ela foi “tirada”. Só não sabia onde ela estava. À tarde, decidi ir a um Shopping da Cidade para almoçar e, depois, ver um filme. Entre a praça da alimentação e o cinema, ouvi voz aparentemente conhecida dizendo: é ele! Olhei para trás e lá estavam meus amigos de infância. Um com sua filha de 16 anos (linda, com os olhos de sua avó que conheci) e a outra acompanhada do marido. Que surpresa! Parecíamos os três da fotografia, abraçados e emocionados. A filha de um e o marido da outra sabiam que éramos da mesma cidade, talvez não soubessem o laço que nos une tão fortemente. Passamos uns minutos em silêncio e ao mesmo tempo emocionados.
      Na hora lembrei da fotografia, mas, não falei. Fomos à mesa, sentamos, conversamos; desde dezembro último, não estou podendo nem gosto de beber (e não disse a eles), mas, pedi um vinho e brindamos o reencontro e eu fiquei pensando: fomos (somos) felizes! Atualizamos contatos, sorrimos, uma lágrima teimosa caiu e nós a vimos em nossos rostos. Eu perdi o horário do cinema e nem me importei. Passamos quase toda a tarde ali, conversando. Até que a filha do meu amigo reclamava de cansaço e cada qual partimos para nossos mundos, para um dia, na arte do encontro e desencontro da vida, nos revermos.
      Este texto, não vou ter a pretensão de ser chamado “crônica”, é um pouco saudosismo como o são os dias que passam do carnaval com o início da Quaresma, período não só de penitência, mas, também, de reflexão. Decidi partilhar esta passagem, talvez até lembrando o grande poeta inglês T.S. Eliot: “Eu escrevo para me livrar da emoção”. Meus amigos o lerão quando enviar-lhes eletronicamente, pois, eles residem n’outros Estados e já retornaram à normalidade de suas vidas.
      A fotografia é uma forma perene de registrar momentos que se eternizam, viram saudades, mostrando que vale a pena um instante, tão evidenciado num filme daquela nossa é1poca e, para mim, o melhor longa do século que passou: 1“Sociedade dos Poetas Mortos” (1990), o “carpe diem” (aproveite o dia). E para os próximos encontros, fizemos nova fotografia e, por ironia, ficamos nas mesmas posições de antes, sem intencionalidade. Até a próxima semana!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com vários livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.