08 fevereiro 2018

O Dia de São Valentim – por José Luís Lira (*)

  
Na quarta-feira de cinzas deste ano,14 de fevereiro,  abertura da Quaresma, período de reflexão e penitência que antecede a semana da Páscoa, as igrejas católica romana e orientais celebram a festa de São Valentim, patrono dos namorados. Quem é Valentim? Existe mais de um mártir considerado santo naqueles primeiros séculos do cristianismo.
   O primeiro seria um sacerdote, o segundo um bispo, ambos martirizados em Roma e o terceiro um soldado que recebeu o martírio na África, junto a outros companheiros. No Martirológio Romano (Martyrologium Romanum, existente desde o remoto pontificado do Papa Milcíades – 311-314), lemos na data de 14/2: “Em Roma, na Via Flamínia, junto à ponte Mílvio, São Valentim, mártir”. Este seria o Bispo nascido em Terni (cerca de 105km de Roma) e que naqueles dias de perseguição aos cristãos foi a Roma, contrapor-se aos desmandos do Imperador Cláudio II.
     São Valentim, cujo crânio está na Basílica de Santa Maria em Cosmedin, é este bispo católico. Segundo as narrativas, durante o governo de Cláudio II, no antigo Império Romano, este proibiu a realização de casamentos no reino, com o objetivo de formar um grande e poderoso exército. Cláudio acreditava que sem famílias, esposas ou filhos, os jovens iam alistar-se com maior facilidade no Exército Romano. No entanto, um bispo romano continuou a celebrar casamentos, mesmo com a proibição. Seu nome era Valentim, teria nascido em 226 d.C., na comuna de Terni (Itália) e as cerimonias eram realizadas em segredo.
    A prática foi descoberta e Valentim, preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens jogavam flores e bilhetes dizendo que os jovens ainda acreditavam no amor. Valentim teria sido preso numa prisão domiciliar, na residência do prefeito romano Asterio, onde todos eram pagãos. Consta que ao chegar à casa, o bispo foi informado que o prefeito tinha uma filha cega. Disse aos familiares que iria rezar e pedir para Jesus Cristo pela cura da jovem, o que ocorreu alguns dias depois. Lendas indicam o nome dela como Artérias, “filha do carcereiro”. Falam de uma suposta paixão platônica que não se confirmou ao longo da História. Valentim foi decapitado em 14/2/270. Sua canonização teve início no pontificado do 49° Papa, Gelásio I (492 a 496). No século VIII, o crânio do santo que depois de ser sepultado em Roma foi levado a Terni com todo o seu corpo, retornou a Roma, por iniciativa do Papa Adriano I (772 e 795) e levado para Santa Maria in Cosmedin.
    Esta é uma breve história do santo. Sua festa é celebrada em boa parte do mundo como o dia dos namorados. No dia de São Valentim, se costuma homenagear os namorados, os amigos, a todos aqueles que acreditam no amor.
    Ano passado, um dia antes da celebração do santo, viralizou no mundo a imagem dele reconstruída a partir de seu crânio. Foram mais de 30 idiomas. A TV chinesa, a Rádio do Vaticano, entre outras, deram notoriedade à reconstrução por mim coordenada e realizada pelo confrade Cícero Moraes, com a anuência do Pe. Mtanious Haddad, reitor da Basilica di Santa Maria in Cosmedin, na Diocese de Roma. Este ano, Cícero Moraes reconstruiu o mártir Valentim de Monselice, da região de Padova, possivelmente, o Padre. Salve São Valentim! Feliz dia e bom carnaval a todos, com prudência!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com vários livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.

Moacir Braga - Por: Emerson Monteiro

Ao chegar no Aeroporto de Fortaleza dia desses, segui em um taxi dirigido por este senhor, Moacir Braga. Conversa vai, conversa vem, no decorrer da trajetória, vim saber de termos algumas afinidades, dentre elas o ano de nascimento, o mesmo número de filho, de casamentos e também de gostar de ler e, observem, gostar de escrever. Pois então. Soube até que Moacir já tem um livro publicado, A saga de um amazônida.

No decorrer da nossa conversa pelas ruas da Capital cearense, início de noite, ele demonstraria seu interesse nos assuntos do interior cearense, de onde procede nascido em Aratuba. Saberia do seu interesse pelos livros, inclusive de autores quais Albert Camus, Dostoiévski,e Nietzsche, Aristóteles, Santo Agostinho, dentre outros. Afim de instruir outro dos livros que produze no momento, perguntou a propósito de Fideralina Augusto, bisavó do meu pai, sem que soubesse desse meu parentesco. Nisso, estendemos o bom papo até o Meireles, aonde eu iria ficar. Tinha comigo alguns exemplares de Histórias do Tatu , meu livro recente, com o que lhe presenteei.

Marcamos de ele vir me buscar daí a duas semanas, no sentido de regressar ao Crato. Com isto, pode me ofertar com o seu livro, para minha satisfação em conhecer a sua escrita num romance recheado das boas histórias da Hiléia Amazônica, o que ora leio cheio de gratas surpresas.

Sou entusiasta da literatura do povo, das pessoas autênticas do meio da população, testemunhas efetivas da vida ao sabor dos acontecimentos, dotados de ocorrências verdadeiras, cheios de emoções e heroísmo. Desse filão perpetuado em obras raras de pouca ou nenhuma distribuição pelas livrarias e bancas, nascem os livros os clássicos dos autores de gabinete, dos salões acadêmicos. Da realidade nua e crua dos becos e vilas, das florestas e praias distantes, ressurge o homem na sua essência primeira.

E ao chegar em casa, logo tratei de conhecer a produção de Moacir Bandeira Braga, obra prima de aventuras pelo universo da Floresta Amazônica, ali onde sobreviveu, na profissão de vendedor, através das pequenas comunas e dos interiores remotos. Por demais preenchido das histórias simples daquelas ribeiras típicos, o livro relembra as legendas de Gastão Cruls, Thiago de Melo e Afonso Arinos de Melo Franco, dos bons momentos da nossa marcante literatura etnográfica.

Destarte, para enriquecimento das produções originais, aguardamos novos livros de Moacir Braga, mais este anônimo romancista brasileiro.

O trabalho dos Missionários da Sagrada Família na cidade de Crato – por Armando Lopes Rafael – 1ª Parte

Pe. Xavier Nierhoff viveu cerca de 20 anos em Crato.
Depois seria nomeado Bispo Diocesano de Floresta (PE)  
 Não me foi possível apurar a data exata em que os Padres-Missionários da Sagrada Família chegaram a Crato. No entanto, existem registros de que em 1943, o Padre Xavier Nierhoff (ele residiu cerca de 21 anos em Crato), já se encontrava nesta cidade. Pe. Xavier foi o primeiro vigário da Paróquia de São Vicente Ferrer, de Crato, tendo permanecido nessa função entre 1947 e 1948. Também acompanhou, a partir de 1943, a construção do Seminário da Sagrada Família, em Crato. Naquele educandário Pe. Xavier Nierhoff foi professor, prefeito de disciplina e reitor.
     O Seminário Sagrada Família encerrou suas atividades em meados dos anos sessenta, em virtude da crise de vocações que dominou àquela época não só o Brasil, mas todos os países do mundo que eram beneficiados com a influência da Igreja Católica. Naquele tempo, Pe. Xavier Nierhoff já tinha sido transferido para a cidade de Carpina, em Pernambuco. Lá, ele  recebeu, em 1964, a designação como Bispo a Diocese de Floresta, também em Pernambuco, circunscrição eclesiástica recriada pelo Papa Paulo VI. Dom Xavier Nierhoff iniciou suas funções episcopais, em Floresta, no dia 05 de janeiro de 1965. Naquela Diocese viveu até o fim de sua exemplar vida.

A Congregação
    Segundo o blog: msfsavteste.blogspot.com.br: “A Congregação dos Missionários da Sagrada Família foi fundada em 1895 pelo sacerdote francês Pe. João Berthier, missionário saletino. O local escolhido para a fundação foi a pequena cidade holandesa de Grave. O prédio de um quartel abandonado, bombardeado há algumas décadas anteriores, serviu de berço para a obra do Pe. Berthier (...)
    “Ele sentia o impulso de enviar novos missionários à Igreja. A palavra da Escritura: “A seara é realmente grande, mas poucos os ceifeiros. Rogai, pois, ao Senhor da seara, que mande ceifeiros para a sua seara “ (Mt 9,37-38), comovia Pe. Berthier profundamente. No seu tempo muita gente ainda não ouvira falar de Cristo. Ele queria dar muitíssimos missionários à Igreja”.
 Pe. João Berthier, fundador da Congregação dos Missionários da Sagrada Família
 Na casa da cidade holandesa de Grave.

O trabalho dos Missionários da Sagrada Família na cidade de Crato – por Armando Lopes Rafael – 2ª Parte

Pe. Frederico Nierhoff
    Sem dúvida, o Pe. Frederico Nierhoff (foto à direita, feita por Heládio Teles Duarte) foi o mais popular de todos os missionários da Congregação da Sagrada Família que viveu em Crato.   Ele nasceu em Gelsenkirchen, Alemanha, no dia 26 de Janeiro de 1916. Foi um sacerdote que marcou profundamente a cidade do Crato nas décadas 50 e 60 do século XX.  Quando assumiu a Paróquia de São Vicente Ferrer – em 1948 – como segundo vigário, Pe. Frederico encontrou uma igreja-matriz com proporções pequenas e acanhadas. Nos 20 anos, nos quais administrou aquela paróquia (1948-1968), ele comprou imóveis vizinhos ao templo e ampliou a igreja. Remodelou e ampliou, também, a casa paroquial dotando-a de ampla área anexa, uma espécie de área de lazer, destinada às crianças que se preparavam para a primeira comunhão. Construiu, no bairro São Miguel, a Capela de São Miguel Arcanjo, hoje igreja-matriz da paróquia do mesmo nome.
        Padre Frederico era o oitavo filho de um casal profundamente católico: Hermann e Adolfina Nierhoff. Iniciou seus estudos teológicos em Oberhundem, transferindo-se depois para a cidade de Lebenhan Grave, na Holanda. Por conta das incertezas da Segunda Guerra Mundial, que se avizinhava, a direção da Congregação dos Missionários da Sagrada Família, vários padres e seminaristas para o Brasil, país até então neutro e sem perspectivas de aderir ao conflito. Ainda estudante de Teologia, Frederico Nierhoff deixou a Alemanha em 07 de março de 1938, com destino a Recife, aonde deu continuidade aos seus estudos. Nessa cidade foi ordenado sacerdote no dia 1º de maio de 1941.
          Antes de residir em Crato, Pe. Frederico exerceu atividades pastorais nas cidades de Picos e Pio IX (no Piauí), Saboeiro, Arneirós e Aiuaba (no Ceará). Em Crato, além de suas atividades no âmbito espiritual, construiu escolas, postos de saúde e capelas na zona rural na então vasta Paróquia de São Vicente Ferrer. Era um homem de grande dinamismo e enorme capacidade de trabalho. Deve-se ao Padre Frederico a construção de um conjunto de casas populares no sítio Malhada – que leva o nome da mãe daquele sacerdote, Adolfina Nierhoff – ainda hoje modelo de assentamento rural com geração de emprego e renda.
    Nos anos 40 e 50 do século passado o Cariri cearense era conhecido no Brasil como um dos maiores focos de tracoma, infecção que afeta os olhos e, se não for tratada, pode causar cicatrizes nas pálpebras e cegueira. Padre Frederico selecionou voluntários da zona rural de sua paróquia para ajudar a "Campanha Federal Contra o Tracoma", iniciativa do Departamento Nacional de Saúde Pública. No início da década 60 essa moléstia tinha sido erradicada da zona rural do município de Crato.
      Desgostoso com a redução da Paróquia de São Vicente Ferrer a um território de poucos quarteirões no centro de Crato, Padre Frederico desligou-se, em 1969, da Diocese de Crato e foi ser vigário de Custódia (Pernambuco).  De lá, saiu para ser pároco e vigário-geral da Diocese de Floresta (PE), aonde, no dia 31 de outubro de 1975, sofreu um enfarte enquanto dirigia um carro. Este, desgovernado, capotou ocasionando a morte do Padre Frederico. Sua repentina e inesperada morte foi muito lamentada em Crato, onde o Padre Frederico trabalhou com dedicação e carinho juntos aos mais necessitados e onde possuía muitos amigos.