09 janeiro 2018

Sinfonia de sabiás - Por: Emerson Monteiro


Em face das primeiras chuvas deste janeiro, os finais de tarde na Serra se enchem de sonoridade; cigarras e sabiás estabelecem diálogo puro e melodioso, entremeados de tinidos de outros pássaros, na música divina, esplendorosa, longe das aflições dos humanos perdidos lá embaixo, na distância do vale. Tais bandos de borboletas coloridas, cigarras circulam de cicios a solidão da mata em sucessivas ondas, tecendo de surpresa o silêncio que aos poucos regressa e logo invadirá a Terra.

Houvesse dúvidas do poder infinito da Criação, essas horas bem que desfariam e se fariam nas almas por demais embrutecidas por causa das fainas do chão. Sinais imensos, magistrais, da grandeza dos Céus, as aves insistem nisso de convencer as últimas resistências dos sórdidos. Em orações continuadas, persistem reverter quadros da ilusão das mentes dos últimos ateus; limam presas derradeiras nas feras do Sertão bravio; e suavizam de paz os corações enternecidos.

Horas a fio, no longe das distâncias intransponíveis desses brejos do espírito, o invisível do eco festeja as estrelas que virão às praias de amores e luzes, na saudade feliz dos mais perfeitos sonhos. Leves instrumentos em mãos misteriosas, os acordes calmos, tons inesgotáveis da pura condição dos seres inocentes, mergulham na tarde que esvai e pinta aquarelas interiores nos horizontes da beleza. Avisos. Convites. Notícias doutros mundos santos; doces palavras em forma de cores e acordes.

Esse abismo entre o ser e a percepção da realidade cresce, pois, no espaço do sentimento, e a natureza fala. A Eternidade, em miríades de sons, portas dos segredos universais, desce seu manto da escuridão e desfaz réstias do dia nas promessas de comunhão dos ouvidos e do vazio, enquanto somem as intenções dos homens de reter a verdade que querem dominar. Some o que ainda existia de promessas e claridade. Responde assim, alegres, os pássaros, em desafios harmônicos, a esperança das primeiras chuvas e deixam as canções do dia no coração que ali incendeia.     

Na mala, só a viagem - Por: Emerson Monteiro


No dia 07 de janeiro de 2018, foi lançando, em todas as plataformas digitais, o novo EP de Tiago Araripe: Na Mala, Só a Viagem. São quatro composições inéditas, gravadas com a sonoridade da nova música pernambucana. Para seguir os passos do lançamento, visite a página: www.facebook.com/AraripeTiago

Em arranjos primorosos, característica do cantor e compositor Tiago Araripe, temos às mãos esta sua nova produção artística. São algumas das faixas que comporão seu próximo disco, chances de conhecer de perto o que nos reserva a criação sempre surpreendente do músico. 

Enquanto trabalho estas palavras, ouço, através da Spotfy, as quatro composições que constarão do novo álbum: Bem aqui,Das horasPerder alguém e De passagem, músicas que me fazem percorrer o itinerário do que ele até aqui produziu numa vida rica de revelações e criatividade. Dotado de talento refinado, pleno de imaginação positiva e comunicabilidade, sabe reunir, em letras e arranjos, poemas leves e profundos, em uma obra luminosa e reveladora. 

De longe sigo a história musical de Tiago Araripe, desde os anos 70, nos primeiros lampejos do que seria a surpreendente história deste autor, desde seus ensaios através dos planos literários e musicais. Nos inícios, fora estudante de Arquitetura e escrevia contos instigantes, surreais, isto ainda na adolescência. Adiante, migraria às hostes sonoras, em que tão bem se desenvolve e acrescenta de valores estéticos.

Depois, houve os passos em Recife, ao tempo do Nuvem 33, grupo de vanguarda junto de quem exercitou os voos na composição; em São Paulo, o grupo Papa Poluição, de proposta também revolucionária, quando gravaria um compacto e seguiria rumo ao primeiro LP, Cabelos de Sansão, relançado mais recentemente. Houve, em 2013, o Baião de nós, disco produzido por Zeca Baleiro, de consistência e primor musical, já consolidando a importância do artista no panorama da música popular brasileira, onde marca posição digna dos seus maiores nomes.