07 janeiro 2018

O JORNALISMO ESTÁ DE LUTO - Falece em Crato, o grande jornalista J. Lindemberg de Aquino


É com imensa tristeza que comunicamos o falecimento de um dos maiores jornalistas e intelectuais do Cariri, J. Lindemberg de Aquino. Mais tarde, detalhes sobre o seu velório e sepultamento. 

Durante décadas, J. Lindemberg de Aquino foi um dos grandes pilares da intelectualidade e do jornalismo Cratense. Mais um dos grandes mestres, cuja obra inspirou gerações, se vai. Mas fica o seu grande legado. O Blog do Crato, nos seus 13 anos de existência, deve muito a J. Lindemberg. Trazemos aqui uma postagem recente, que o historiador e administrador do Blog do Crato, Armando Rafael escreveu sobre ele:

Lindemberg de Aquino, esse esquecido

Atualmente afastado das atividades sociais de Crato por motivo de saúde, o jornalista João Lindemberg de Aquino exerceu influência na vida da Cidade de Frei Carlos por cerca de 60 anos. Lindemberg nasceu em Crato, em  4 de junho de 1933, tendo completado em junho último 84 anos de idade. Lindemberg é filho de Joaquim Patrício de Aquino e Maria Rosa de Aquino. 

Fez o curso primário na escola particular da professora Vicência Garrido e na Escola de 1º Grau Dom Quintino. Ingressou na Escola Técnica de Comércio do Crato e Colégio Diocesano do Crato, terminando seus estudos secundários. Depois disso foram sessenta anos escrevendo, pesquisando e divulgando a cidade de Crato “seu segundo amor, pois seu primeiro foi sua mãe”,  como ele gostava de dizer.

Hoje o Blog do Crato homenageia J. de Lindemberg de Aquino, escolhendo para tanto uma crônica sobre ele,  escrita por Emerson Monteiro há 7 anos. Reproduzimos abaixo um artigo de Emerson Monteiro sobre Lindemberg de Aquino, publicado no "Blog do Crato".

"Queremos tecer aqui, em algumas e poucas palavras, um comentário a propósito de personalidade a quem o Cariri deve boa parte da evidência que hoje detém neste mundão imenso de Meu Deus; falar a respeito do João Lindemberg de Aquino, jornalista inteligente, possuidor de talento inquestionável já reconhecido nas letras nordestinas, e autor emérito do livro Roteiro Biográfico das Ruas do Crato, trabalho permanente para os estudos da história desta Região.

Durante décadas, anos 50, 60 e 70, pelos menos, os principais registros da movimentação social, economia e política do interior cearense da região sul ganharam notoriedade, sobretudo nas páginas dos jornais de Fortaleza, através das matérias que ele encaminhava para publicação.
Nos seus escritos, Lindemberg mostrou especial dedicação à vida social caririense, aos acontecimentos e lideranças que nortearam o progresso deste vale onde habitamos, conquanto agora mesmo apenas usufrua de uma vida recolhida e afastada deste meio que, com carinho e trabalho, ajudou a construir e onde estabeleceu numeroso círculo de amizades.

Quando, em 1953, o Instituto Cultural do Cariri encetava caminhada, dentre os seus fundadores ele ali se encontrava na função de Secretário da primeira diretoria, ao lado dos nomes expressivos de Figueiredo Filho, Irineu Pinheiro, Padre Antônio Gomes, Huberto Cabral e outros. Desde cedo que busquei assisto de perto a trajetória intelectual deste cidadão cratense integrado ao meio, ainda de quando exercia um cargo no atendimento do INPS, em Crato, assessorava diversas administrações municipais cratenses e escrevia crônicas diárias para as Rádios Araripe e Educadora, além de testemunhar os principais acontecimentos sociais também das comunas próximas, divulgando-os na grande imprensa do Estado e do País. Nisto aplicou-se durante décadas inteiras, favorecendo o encaminhamento de temas progressista e atualizando as influências políticas e educacionais, o que marcaria bases no nosso crescimento histórico.

Dotado, pois, de paixão verdadeira pelo que realizou em termos de jornalismo sociocomunitário, Lindemberg de Aquino chamou a si a preservação da autoestima deste povo caririense, anotando para as gerações futuras efemérides e valores que eternizou com a sua pena. Perante tais aspectos que caracterizam existência de tantos préstimos, cabe-nos reconhecer o êxito das ações que empreendeu e dedicar o melhor tributo de reconhecimento a João Lindemberg de Aquino por tudo que fez valer em prol da gente deste lugar".(Por: Emerson Monteiro)

Por: Armando Lopes Rafael
BLOG DO CRATO - www.blogdocrato.com

Marli - Por: Emerson Monteiro


Princípio de ano quando resolvi visitar dois amigos, Flamínio e o Prof. Bebeto, em sítios próximos da sede do distrito de Santa Fé, em Crato. Momentos alegres, horas de natureza, frutas, plantas e pássaros. Já sabia um pouco a propósito de Marli, garça que, há cinco, seis mais, se aproximara do Sítio Fábrica, onde Bebeto ali passa agradáveis finais de semana.

Ela chegou às margens do açudinho que existe ao lado da casa. Ao vê-la, Huberto observou que trazia ferimento numa das asas. Sozinha, triste, aquietou nas proximidades da água. Daí, ele e Toinho, o caseiro, trataram de lhe oferecer alimento que mitigasse a fome e a fraqueza. Nisso, aos poucos ganhariam a confiança de Marli, que assim a batizara.

Depois permaneceria por perto recebendo o carinho dos alimentos, peixinhos pescados de anzol. Resultado, ela e o novo amigo se afeiçoaram. Contudo alguns meses adiante, Marli sumiria por seis meses, ou mais. Bebeto deduziu que talvez houvesse perdido a vida num outro atentado. No entanto voltaria. Feliz de receber alimentação, demonstrou reconhecer o pouso e o amigo.

Sempre que chamada, agora acorre atenciosa aos peixes fisgados de anzol, pequenas tilápias do reservatório. Basta chamar pelo nome, rápido desce e fica no aguardo da ração.

Assim tem transcorrido. Some dois, três meses, e regressa familiarizada qual amiga fiel. Vimos bem isto acontecer. Mesmo que de todo ausente, tão logo ouve seu nome aparece entre as árvores e fica à espera do alimento, em perfeita simbiose de ser humano e ave pernalta.

As cenas que eu e Flamínio presenciamos naquela tarde, do entrosamento de Huberto Tavares e da garça que buscou refúgio junto dele, fizeram que eu voltasse no tempo e me visse criança a presenciar bandos de garças sobrevoando as represas do açude do Tatu, em Lavras, onde nasci. Considerei o que teria imaginado à época visse o que agora vejo. Por certo desejaria ser, quando crescesse, tal aquele senhor às margens de um açudinho a oferecer peixes a Marli, cercado de árvores e flores, esquecido do mundo, a reviver dias da infância, na paz do sítio aprazível, distante, lá no sopé da Serra do Araripe.

Neste mar de sentimentos - Por: Emerson Monteiro

Por mais que sejam movidos a pensamentos, durante todo tempo os humanos estão sujeitos aos sentimentos. Eles evitam sentir, pois sentir dói um tanto. Porém ninguém foge ao poder dos sentimentos, função principal de existir neste chão. Embriagados, entorpecidos, dependentes, no entanto rodam, rodam, e chegam ao mesmo lugar, à casa das emoções, na matriz do coração. A única porta de sair dessa escravidão da carne ali permanece fechada aos apelos e apegos, por mais que insistam vencer o destino inevitável. Nisso pena o espírito, até chegar do lado de dentro de si.

Já foram turbilhões de passados e os indivíduos persistem no velho desespero de revelar rotas de fuga; contudo são frustrados na memória das experiências, das ambições deslavadas, que amarguram no vazio de respostas a que pudessem dominar esse território. Tão ausentes de conforto permanente, andam açoitados pela fria razão, e nunca realizam plenamente a ânsia do absoluto.

Nadar no mar desse infinito significa, por isso, tocar adiante as frustrações e vencer o desencanto. Incríveis as lições do próprio corpo, cercado de sentidos, centrais de identificação da consciência aprendiz. A angústia, portanto, é viver de contradições. Querem ser felizes, todavia praticam egoísmo crônico. Planejam vencer os instintos, mas deixam que reinem soberanos. Entre animais ferozes e desafios diários, encaram a certeza do fim quais pagãos sentenciados à procura de novas ilusões.

Ondas gigantes por vezes parecem anular a sombra dos apetites; marchas colossais de sonhos brilham nas praias; nuvens encobrem os sentimentos, contudo jamais largaram os barcos ao tédio de quando tudo terminar em cada existência perdida. Apenas isso, heróis inacabados, prisioneiros de pensamentos andam em círculo à volta da única resposta, abrir de vez por todas o cristal da compreensão e aceitar os sentimentos que levam à estação da real Felicidade.

"Herança dos anos PT": BNDES corre risco de calote de Angola, Venezuela e Moçambique

No total, o banco tem 4,3 bilhões de dólares a receber de empréstimos que financiaram obras de empreiteiras brasileiras
Fonte:  Estadão  
                                   BNDES no Rio de Janeiro (VANDERLEI ALMEIDA/AFP)

   Após calotes de Venezuela e Moçambique, no ano passado, Angola pode ser a próxima a atrasar pagamentos de empréstimos do BNDES que financiaram obras de empreiteiras brasileiras. No total, o banco tem 4,3 bilhões de dólares a receber de dívidas nessa modalidade, sendo 2 bilhões de dólares de Venezuela, Moçambique e Angola. Desde 1997, o banco liberou 10,5 bilhões de dólares para 15 países e obteve 8,2 bilhões de dólares de retorno, incluindo juros.
   A conta dos atrasos, na verdade, ficará com o Tesouro Nacional, pois as operações têm seguro, coberto pelo Fundo de Garantia à Exportação (FGE). Vinculado ao Ministério da Fazenda, o fundo é feito para garantir esse tipo de empréstimo. Nos financiamentos de longo prazo no exterior, é normal haver participação dos governos no crédito ou nas garantias, dizem especialistas.
Mesmo que os recursos sejam recuperados à frente, após renegociações com os devedores, não há previsão orçamentária em 2018 para os eventuais calotes, informou o Ministério da Fazenda. Novos calotes podem pressionar ainda mais as contas públicas, já deficitárias.
   A Venezuela preocupa mais. Do calote de 262 milhões de dólares anunciado em setembro, 115 milhões são com o BNDES. O banco tem mais 274 milhões de dólares a receber apenas neste ano, do saldo devedor total de 814 milhões de dólares. O atraso da parcela deste ano implicaria gasto adicional de 885 milhões de reais no Orçamento federal de 2018. A avaliação do governo é que dificilmente a dívida será paga normalmente, disse uma fonte.
   Angola, maior devedora do BNDES, não chegou a esse ponto, mas o novo governo, eleito em agosto, anunciou na última quarta-feira um pacote de ajuste que prevê a renegociação da dívida externa para lidar com o tombo nas receitas com as exportações de petróleo. A Embaixada de Angola em Brasília informou que não teria como comentar o assunto na sexta-feira. O Ministério da Fazenda e o BNDES negaram qualquer contato de Angola sobre atrasos.
   Entre 2002 e 2016, o BNDES contratou US$ 4 bilhões em empréstimos com o país africano, a maioria para projetos da Odebrecht, como a construção da Hidrelétrica de Laúca. A obra recebeu financiamento de US$ 646 milhões, em duas operações, de 2014 e 2015. Em nota, a Odebrecht diz que “não há qualquer atraso” do governo angolano, embora a empresa tenha frisado que, como a dívida é com o banco de fomento, não acompanha o pagamento.
   No caso de Moçambique, houve calote de US$ 22,5 milhões no empréstimo para a construção do Aeroporto de Nacala, no norte do país, a cargo da Odebrecht. A obra, de US$ 125 milhões, virou um elefante branco. Como mostrou o Estado no mês passado, o terminal opera com 4% da capacidade de 500 mil passageiros por ano. O país da costa leste africana ainda deve US$ 161 milhões ao BNDES.

Afinal, quem é o fundador de Juazeiro do Norte? - Por Armando Lopes Rafael



 Juazeiro em 1827 - óleo sobre tela de Assunção Gonçalves. a casa maior pertencia ao Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, cfe. pesquisas feitas pela artista

Alguns autores insistem em atribuir, erroneamente, ao Padre Cícero Romão Batista a fundação de Juazeiro do Norte. Pelas informações abaixo alinhadas,  concluímos que foi o Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro o verdadeiro  fundador do núcleo primitivo, origem da atual cidade.
    Podemos afirmar, com toda segurança, que a cidade de Juazeiro do Norte – hoje conhecida em todo o Brasil, graças à figura do Padre Cícero Romão Batista – teve seu início como fruto da devoção à Nossa Senhora das Dores. Pois, a exemplo da maioria das cidades brasileiras de antanho, Juazeiro do Norte também nasceu em torno de um templo católico. A respeitada escritora e historiadora  Amália Xavier de Oliveira, na “plaquete” Conheça o Cariri, assim descreveu os primórdios de Juazeiro do Norte:
“Os terrenos onde foi fundada a grande cidade que é hoje Juazeiro do Norte pertenciam a um cidadão chamado Leandro Bezerra Monteiro, militante do Exército Nacional, no qual tinha o posto de Brigadeiro. Estes terrenos constituíam uma imensa planície coberta de pastagens férteis e abundantes. Árvores de grande porte formavam densas matas. O proprietário, o Brigadeiro, era possuidor de muitas terras na região; residia no sítio “Moquém” perto do Crato, onde tinha um engenho de fabricar rapadura. Para fazer sua criação de gado, escolheu os terrenos que iam em direção da Serra de São Pedro, hoje Caririaçu.
Havia, naquela planície, uma ligeira elevação do terreno perto da serra Catolé, às margens do rio Salgadinho. Ali, o Brigadeiro construiu a Casa da fazenda, que recebeu o nome de “Tabuleiro Grande”. Ao redor da Casa Grande da fazenda, os escravos foram construindo suas casas; vizinho a casa, construiu um aviamento para a fabricação da farinha de mandioca, de que havia grande cultura nos tabuleiros. Entre as árvores que circundavam o aglomerado de casas dos escravos, havia 3 juazeiros frondosos, de copas quase unidas, formando uma sombra acolhedora. Ali, os transeuntes que viajavam de Missão Velha, Barbalha, São Pedro, indo para a feira do Crato, procuravam abrigar-se. E combinavam: “Vamos botar a baixo (tirar as cargas para repouso) lá nos juazeiros”. Daí a corruptela: vamos descansar no Juazeiro”. (Cfe. Conheça o Cariri, sem data, páginas 3-4).
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     A mesma Amália Xavier de Oliveira, noutro escrito de sua autoria, O Padre Cícero que eu conheci, esclareceu o que motivou a construção da capela na fazenda Tabuleiro Grande:
Ordenara-se Sacerdote o Pe. Pedro Ribeiro de Carvalho, neto do Brigadeiro, porque filho de sua primogênita, Luiza Bezerra de Menezes, e de seu primeiro marido, o Sargento-mor Sebastião de Carvalho de Andrade, natural de Pernambuco. Para que o padre pudesse celebrar diariamente, sem lhe ser necessário ir a Crato, Barbalha ou Missão Velha, a família combinou com o novel sacerdote a ereção de uma capelinha, no ponto principal da Fazenda, perto da casa já existente”. (Cfe. "O Padre Cícero que eu conheci, edição de 1981, páginas 33-34).
    Alguns autores,no entanto,  insistem, erroneamente, em atribuir ao Padre Cícero Romão Batista a fundação de Juazeiro do Norte. Pelas informações – acima citadas – concluímos que foi o Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro o verdadeiro fundador do núcleo primitivo, origem da atual cidade. Deve-se ao Brigadeiro Leandro a iniciativa da primeira urbanização da localidade – ainda conhecida por Fazenda Tabuleiro Grande – com a edificação da Casa Grande, capela, residências para os escravos e agregados da família.
      A realidade histórica nos prova: quando o Padre Cícero chegou ao “Joaseiro”, para fixar residência, em 11 de abril de 1872, como 5º (quinto) capelão (antes dele já tinha passado por essa função quatro padres) já encontrou um povoado formado em torno da capelinha de Nossa Senhora das Dores. Contava o lugarejo, à época da chegada deste sacerdote, com 35 residências, quase todas de taipa, espalhadas desordenadamente por duas pequenas ruas, conhecidas por Rua do Brejo e Rua Grande. Naquele povoado, à época da chegada do Padre Cícero, residiam cinco famílias, tidas como a elite do vilarejo: Bezerra de Menezes, Sobreira, Landim, Macedo e Gonçalves.
      É verdade, porém, que o povoado só veio a ter alguma projeção a partir da ação evangelizadora do Padre Cícero. E o vertiginoso crescimento demográfico da localidade só começou em 1889, motivado pela ocorrência dos fatos protagonizados pela beata Maria de Araújo, que passaram à história como “O Milagre da Hóstia”.
(*) Armando Lopes Rafael, historiador. Sócio do Instituto Cultural do Cariri.  Membro Correspondente da Academia de Letras e Artes “Mater Salvatoris” de Salvador (BA). Do Conselho Editorial da revista “A Província”.