12 setembro 2018

A Rua da Vala - Por: Emerson Monteiro

O corpo fala através das diversas partes. Nisso, dá notícias das heranças que recolheu no decorrer do tempo. Deixa marcas na memória a fim de contar do que carrega no seio das criaturas pelo tanger das idades. Do mesmo modo as cidades narram consagradas histórias em cada torrão das pedras e dos lugares.

Em Crato há essa rua, a Rua da Vala, outro nome da Rua Tristão Gonçalves, bem no centro da cidade. Vala porque esconde sob o leito, hoje revestido de asfalto, antigo corredor das águas que vêm das encostas da Serra e buscam o Rio Grangeiro, lá nas ribeiras do fim da rua. Num período atrás, de quando aqui cheguei, inícios da década de 50, via-se aberta com essa vala de aproximadamente 2m de largura e l,5m de profundidade, toda em pedra tosca, porém utilizada pelas chuvas só no transcorrer dos invernos, fase curta dentre nós. Nos intermediários, servia de escoadouro dos esgotos.

Através da artéria, vinda de antes do Parque de Exposição a percorrer a lateral interna do Cemitério Nossa Senhora da Piedade, escavacando, nos rigores de cheias, as tumbas, também descem histórias inúmeras da cotidiana população, pois as calçadas da sua existência somam resquícios dos viventes, das situações e dos dias. São seus prédios o Palácio do Comércio, casas residenciais, clínicas, a sede local do Correios, lojas diversas e, em dois quarteirões típicos, posto de combustíveis, oficinas mecânicas e casas de peças.

Gravei na lembrança uma noite de domingo, de quando a energia elétrica apagava às 21h e o movimento da Praça Siqueira Campos encerrava nessa hora, e algumas pessoas regressavam mais tarde aos pousos. Nessa noite, Ester, jovem que viveu no Tatu, em Lavras, donde vim, e estava em nossa casa, que, sem conhecer ainda os mistérios noturnos da cidade, ao cruzar a Rua da Vala, no escuro, cairia de todo corpo nessa cavidade traiçoeira, inesperada. Isso ainda hoje mexe comigo pela fatalidade, dado o teor de violência, quando, lavada de sangue, ela acordaria os meninos da casa, que dormiam antes dos adultos, face ao movimento da ocorrência.

Existem vários outros episódios marcantes desse logradouro, os quais, inclusive, o escritor Fran Martins registrou em livros, dentre esses A rua e o mundo, ficção entremeada de valores e personagens dos que ali habitaram no século passado, dentre eles o romancista.

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