16 julho 2018

17 de julho de 2018 --Cem anos do massacre da Família Imperial Russa

Fonte:VEJA -Por Vilma Gryzinski
Assassinar reis, crianças e lindas adolescentes causou um trauma nacional que ainda reverbera na Rússia; e a ordem dada por Lênin ainda não apareceu
Cem anos nos contemplam: belos e malditos, o czar Nicolau e a imperatriz Alexandra, rodeados antes da queda por Olga, Anastasia, Maria, Alexei e Tatiana (Universal History Archive/UIG/Getty Images)

As fronteiras entre verdades e mentiras, história e mitos, invenção inocente ou ficção perversa continuam a ser estonteantes no caso do hediondo massacre de Nicolau II, o último czar;  sua mulher, Alexandra; Alexei, o caçula e herdeiro, e as quatro irmãs. Cem anos depois, entre uma final de Copa do Mundo em Moscou ontem e um encontro hoje  em Helsinque entre Vladimir Putin e Donald Trump, poucos russos teriam cabeça para pensar no que aconteceu na madrugada de 17 de julho de 1918 no porão de um casarão sem luxo nenhum em Ecaterimburgo, no coração dividido da Rússia, olhando para a Europa de um lado, além dos Urais, e para a imensidão siberiana do outro.

Mas pensam, sim. Mesmo quando não falam no crime que ainda ecoa através do tempo e da história, não apenas da Rússia, mas de todos os que se encantaram com o que parecia ser o lado bom da revolução bolchevique e do comunismo.

“Aqueles que cometeram este crime são tão culpados como aqueles que o aprovaram durante décadas. Somos todos culpados.”

Assim definiu Boris Ieltsin o peso da culpa coletiva quando o crime completou 80 anos. Não o bufão bêbado da caricatura em que se transformou o primeiro presidente pós-comunismo, mas um homem que participou da dolorosa cumplicidade e foi capaz de entendê-la e criticá-la. O extermínio de uma família real inteira, único até no precedente brutal da Revolução Francesa, foi conhecido em detalhes porque o que os bolcheviques temiam realmente aconteceu.

A distante Ecaterimburgo realmente foi tomada pela legião de voluntários da Checoslováquia que participava de dois eventos avassaladores ao mesmo tempo: a I Guerra Mundial e a Guerra Civil Russa desfechada a partir da derrubada do regime czarista. O crime foi investigado com riqueza de detalhes. Mesmo antes disso, fuzilar um czar e sua família não passou exatamente despercebido pela população local. Um diplomata britânico tentou enviar um telegrama ao Foreign Office no dia 18 de julho, informando: “O czar Nicolau II foi fuzilado ontem à noite”.

Interceptado por Filipp Goloshchiokin, o comissário bolchevique que havia acabado de inspecionar o local do massacre, o telegrama mudou para: “O czar carrasco Nicolau foi fuzilado ontem à noite, um destino amplamente merecido”. (Goloshchiokin, como tantos outros dirigentes comunistas irredutíveis, foi fuzilado por ordem de Stálin em 1941.)

MAUSER E FACÃO

Outros fatos que parecem ficção aconteceram realmente. O czarevitch Alexei e as irmãs,  que tinham o título de grã-duquesas, equivalente ao de princesas imperiais, levavam diamantes e outras pedras preciosas costuradas nas roupas íntimas em tamanha quantidade que os tiros desastrosos de seus algozes ricochetearam.

Precisaram ser mortos com tiros na cabeça, na maioria desfechados por Yakov Yurovsky, o comandante e planejador da execução no porão da Casa Ipatiev, sobradão que levava o nome do dono, um engenheiro militar, em todos os seus desastrosos detalhes. O corpo sem vida da imperatriz Alexandra, nascida Alix, princesa de Hesse, foi alvo de um odioso ato de vilipêndio, praticado por dois integrantes do pelotão improvisado.

Outros dois se recusaram a atirar nas meninas, que “não haviam feito nada”. Todos os atiradores dispararam contra o czar. Por causa da confusão, da inépcia e da fumaça da pólvora no ambiente sufocante, o fuzilamento foi suspenso na metade. Tatiana, a irmã mais carismática, e Olga, a mais velha, estavam abraçadas, sentadas no chão, de costas contra a parede recoberta de papel com listas, gritando pela mãe. Yurovsky deu um jeito nelas, como nos demais sobreviventes. Usava uma Mauser e um facão.

Ao todo, foram assassinados o casal imperial – que tecnicamente não tinha mais a coroa, depois da abdicação feita durante a Revolução de Fevereiro -, o herdeiro, as quatro filhas, o médico que cuidada do menino, o valete do czar,  uma criada da imperatriz e o cozinheiro da família. Os corpos foram removidos do local de caminhão, a cavalo e de carroça. No topo, o buldogue francês Ortino, presente de um oficial russo com quem Tatiana havia flertado quando ela, Olga e a mãe trabalharam como enfermeiras, atendendo feridos da I Guerra.

Todos os Romanov foram canonizados em 2000 pela Igreja Ortodoxa Russa, por darem testemunho de fé através da “humildade e cordura” demonstradas em seus últimos anos de vida. Com os cem anos do massacre, aumentou a quantidade de visitantes à Igreja sobre o Sangue, erguida no terreno da  Casa Ipatiev, demolida em 1977 por “falta de interesse histórico” – a culpa mal disfarçada de que falava Ieltsin. A cripta fica onde era o porão. Ao lado, fica uma catedral. Mas a peça que continua a faltar para os historiadores é a ordem de Lênin para eliminar a família Romanov. É completamente impossível que comissários comunistas, por maior poder local que tivessem, tomassem a iniciativa do regicídio. Como no caso do genocídio dos judeus determinado por Hitler, a ordem para a “solução final” é conhecida em todos os detalhes, menos o documento em si.

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