27 junho 2018

Escutar o silêncio - Por: Emerson Monteiro

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Moramos bem dentro dessa fronteira do instinto com a intuição. Todos têm aqui um alojamento que chamamos de eu, e fazemos as ações inevitáveis de sobreviver às intempéries de tocar os barcos da individualidade num mar de ondas intermináveis. Comer. Dormir. Sonhar. Conhecer. Trabalhar. Essas providências que enchem os dias e gastam o tempo precioso de que testemunhamos passar. Nem sempre utilizamos o movimento do Sol em torno da gente do modo mais exato, de acalmar a paciência e dormir em paz. No entanto viver é isso, cruzar inúmeras vezes essa tal fronteira entre o instinto e a intuição, diariamente.

Por vezes, a gente se alegra e cresce nos cascos, feitos filhotes inocentes da servidão. Noutras, pesam os fardos e o instinto força desejos de comodidades pessoais, certezas ocasionais desfeitas, porém. Vale isto, equilibrar os dois pratos da balança, além de aguentar o esforço dos demais humanos de também sustentar ânimo e resistência aos instantes e às dúvidas. Viver, entretanto. Conduzir o rebanho de si mesmo através dos desertos dos humores, das ansiedades, dos vícios, e nunca perder o pé de apoio na alegria.

Espécies de experimentos da própria consciência, viver batendo nos rochedos dessa praia imensa do Infinito, num procedimento às vezes instintivo, às vezes intuitivo. Da intuição nascem os sonhos, as premonições, as promessas, as religiões, os confortos espirituais.

Já dos instintos, contudo, sobram experimentos vagos, incertos, de fome de prazeres, ânsias de dominação dos outros e dos objetos, furores das dimensões egoístas do animal que ainda somos, todavia. Quais máquinas embriagadas nos seus metais, os quadrantes das notícias falam desses fatores da inexperiência humana em forma de dores e mágoas. Estações especiais da sorte ocasional, nalgumas ocasiões acertam, outrossim visando tão só qualidades e vaidades, monstros de novelas espúrias, estranhas, mórbidas.

Ainda que seja assim, este é o melhor dos mundos possíveis, imagináveis, em que construiremos a renovação de nós, em que persistimos a caminho da transformação de sujeitos em senhores, máquinas em verdade absoluta.

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