30 junho 2018

As fronteiras do Paraíso - Por: Emerson Monteiro


Nesta condição donde mourejamos impera o vil desejo de dominar o destino. Quantas doses de frustração ainda nos aguardam nesse caminho de sonhos soltos, impossíveis, torpes. No entanto a isto aqui nos haveremos; planejar os destroços do próximo barco, na próxima tempestade do próximo inverno. Até parece que desisto de sonhar, contudo. Nada disso, todavia. A dor exige determinação de acreditar nos desejos, mesmo vis desejos que eles o sejam.

Portas abertas às probabilidades humanas, vivemos quais quem dorme e sonha com o instante solene do Sol na janela a restituir o dia e nos despertar dos antigos sonhos da noite. Vontade soberana faz de nós meros joguetes de alternativas fugazes, porquanto eis ser assim o que resta aos mortais em voo livre, de uma a outra solidão. Parceiros da destruição do que prossegue a indicar os meios de encontrar a resposta, pomos nossos pés nas fronteiras dos valores da perfeição. Afinal a que viemos se não a ser pretensos candidatos à imortalidade?

Foram tantas oportunidades que os dias ofertaram graciosamente, e as largamos perdidas nas contradições deste ser que somos nós, que persistimos a continuar na missão de encontrar o que nos resta de equilibrar sonhos e a realidade, e salvar o conceito de sermos entes eternos, desejo último de quem morre. Beiramos, pois, a toda hora esse poder infinito de revelar o mistério de que somos. Artífices da preservação na existência por todos os séculos dos séculos, toquemos o furor de ampliar o desejo do infinito e promulgar a libertação da finitude. Cabe, portanto, só a cada ser consciente o sinal que nos chama do outro lado da Eternidade, que aos poucos conhecemos de dentro da nossa própria pessoa. Aceitar a condição de precursores da salvação há nisso o motivo único de andar face a face com os acontecimentos que transformarão a dualidade em instrumento de aceitação no mundo real, verdadeiro.

(Ilustração: Vincent van Gogh, em Noite estrelada).

Não é o ódio que explica Bolsonaro. É fé. - por Regina Ribeiro (*)


A passagem do candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro, por Fortaleza tem o poder de criar impacto. Pelos vídeos e fotos que circulam pelas mídias sociais, parece que há mais gente ao lado do Mitô do que o diz a vã filosofia.

      Em 1950 houve uma campanha ferrenha contra o Getúllio Vargas no Brasil. Umas das cronistas mais anti-Getúlio da imprensa brasileira era a escritora Rachel de Queiroz, que escrevia em favor do adversário de Getúlio. O líder da Revolução de 1930 era chamado de caudilho, ditador, perverso, manipulador, adepto à censura. Era odiado pelos intelectuais. Quando as urnas se abriram, Getúlio Vargas estava eleito. Sem espaço nenhum nos jornais, Getúlio usou o rádio – impulsionado por ele, diga-se de passagem – e fazia chegar sua mensagem aos milhões de iletrados nos rincões do Brasil.

     No dia 25 de novembro de 1950 foi publicada a crônica “Um pouco de autocrítica”, que mostrava uma Rachel de Queiroz que reconhecia que a capacidade dos intelectuais influenciarem o povo era mínima. “A dolorosa verdade é que o povo não nos lê, o povo não nos conhece. E a pequena parte dele que nos lê, não nos escuta”, afirma a escritora. Falava no esforço em vão de recitar a cantilena anti-Getúlio nos cantos das páginas “pregando no deserto”. Segundo Rachel, enquanto os intelectuais demonstravam saber de tudo sobre as revoluções dos homens, era Getúlio quem parecia ter descoberto a chave do coração do povo. Qual é esse segredo?, questiona a cronista, trazendo para si a razão da escrita: “Afinal entender e comover as gentes é o nosso ofício”.

      Em 2002, Jean Marie Le Pen, candidato de extrema direita chegou ao segundo turno nas eleições francesas. Foi um susto. Le Pen surgia com um discurso impossível de se acreditar, afirmando entre outras coisas que as câmaras de gás usadas na Segunda Guerra Mundial contra os nazistas eram um “detalhe bobo”. Nessa época, li um artigo que afirmava que a responsabilidade de Len Pen estar no segundo turno era dos intelectuais franceses que não haviam ocupado o lugar de debate na França, minimizando o poder de um discurso neonazista, nacionalista e conservador.

      A passagem do candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro, por Fortaleza tem o poder de criar impacto. Pelos vídeos e fotos que circulam pelas mídias sociais, parece que há mais gente ao lado do Mitô do que o diz a vã filosofia. A julgar pelo discurso tão frágil que chega a ser bobo do candidato, mas que toca a tantas milhares de pessoas, o papel dos intelectuais, se é que existe ainda algum, é vão. Se Getúlio tinha o rádio, Bolsomito tem os chatbots, tem os grupos de WhatsApp, tem a rede.

       Cheguei à conclusão de que o jornalista Érico Firmo talvez tenha cometido um equívoco quando disse na coluna de ontem que “Só uma coisa explica a força de Bolsonaro: o ódio”. Pode também ser fé. Fé irracional em tudo o que ele fala. Fé que Bolsonaro é o homem que vai resgatar a família dos libertinos da esquerda, fé que o liberalismo tosco que ele prega vai salvar o país do comunismo (?), fé que a tortura é o santo remédio, fé que ele faz cara de mal, mas é bom, fé que é ele é exatamente como eu e você. Só há duas diferenças entre nós e ele. A primeira é que é ele quem está lutando pelo poder. A segunda é que ele poderá ser bem diferente de você, mas sua fé não o deixa perceber.

 (*) Regina Ribeiro. Jornalista do O POVO -- E-mail: reginah_ribeiro@yahoo.com.br

29 junho 2018

Naquela madrugada fria - Por: Emerson Monteiro



Isso se deu nos idos da Segunda Grande Guerra, em Crato. Era de ter escrito tal história que marcou profundamente os que ali viveram à época. Uma madrugada inesquecível de angústia de que falava minha mãe. 


Sei não ainda porque, sempre que me lembro de recomeçar, os episódios das histórias humanas, ali me avisto na Praça Francisco Sá, defronte à Estação Ferroviária, hoje desativada, ora sem os trens. Morei acima, no Bairro Pinto Madeira; na infância e na adolescência pisei por demais o chão daquela praça, nas idas e vindas ao centro da cidade. Pois foi ali que isto se deu.

O que conto revive uma madrugada durante aquela triste guerra. Já transcorriam por volta de cinco anos, de quando a Alemanha invadira a Polônia e dera início à maior das conflagrações armadas até hoje. Chegara, naquela hora, a vez de os atiradores do Tiro de Guerra de Crato ser convocados integrar as tropas expedicionárias brasileiras que lutavam nos campos da Itália. Meu pai era um desses atiradores.

Imaginemos a comoção dos habitantes do rincão interiorano face aos seus jovens na idade militar irem arrastados a tão longe, na guerra que abalava o mundo inteiro, sem perspectivas que fosse de terminar.

A tropa perfilou devidamente orientada pelos superiores. As derradeiras instruções foram dadas. Em seguida, à hora definitiva, marcharam pelas principais ruas escuras da cidade ao troar de tambores e caixas, e clarinadas, em marcha cadente, a revirar toda a alma do lugar. Horas frias. Missão estúpida rumo da morte. Lágrimas em todas as faces; ninguém dormira na noite. 

Logo os vagões do trem lotaram de soldados transidos na dor dos corações que iam e dos que ali ficavam. Distanciamento heroico dos pracinhas em horas cratenses. Esse trauma ocorreu, portanto, certa vez. 

Ao chegar em Fortaleza, onde navios aguardavam os contingentes, poucos dias depois seriam surpreendidos com os derradeiros telegramas da Europa de que as tropas aliadas ganhavam território e breve obtinham a vitória sobre o totalitarismo do Eixo, alento de paz que dominaria o mundo alguns anos daí desde então.

Caririensidade – por Armando Lopes Rafael


Soldadinho do Araripe: a ave símbolo da Caririensidade

 Esta espécie, cujo nome científico é Antilophia bokermanni, é um pássaro que só existe nas encostas da Chapada do Araripe. Trata-se da única ave endêmica do Ceará, ou seja, das mais de 460 espécies que encontramos no nosso Estado, o Soldadinho do Araripe é a única exclusiva do Ceará. Por isso, tornou-se o símbolo para a conservação da Floresta Nacional do Araripe–Flona.

   As riquezas e as diversidades naturais e culturais fazem do Cariri um oásis no centro da região Nordeste brasileira. A água que é armazenada – na temporada das chuvas –, em reservatórios subterrâneos na Chapada do Araripe, desce depois pelas encostas, formando algumas nascentes. E se transforma numa água límpida e cristalina, que se derrama entre a mata e o sopé da chapada, formando – parte inferior da encosta –  tapetes verdes de bela vegetação.  Em torno desses tapetes surgem pequenos regatos. Fica aí o habitat do Soldadinho do Araripe, uma ave ameaçada e extinção. O Soldadinho do Araripe tornou-se um ícone, uma imagem da caririensidade! E está sendo usado como apelo contra a devastação das florestas da nossa Chapada; contra o mau uso das águas das nascentes; em favor da defesa do meio ambiente.

Três locais onde se produz a cultura popular em Juazeiro do Norte
    Padre  Cícero dizia, ao seu tempo, que toda casa de Juazeiro do Norte deveria ser uma santuário de oração e uma oficina de trabalho. Mudaram os tempos. Mas para quem quiser comprar o rico artesanato da Terra do Padre Cícero, abaixo 3 dicas:
1 – Centro de Cultura Popular Mestre Noza. Um verdadeiro passeio pela essência do imaginário da cultura caririense, onde você pode acompanhar ao vivo o ofício de vários artesãos.
2 – Associação dos Artesão da Mãe das Dores. Espaço onde artesãos criam e comercializam objetos de decoração e utensílios belíssimos, feitos a partir de palha de milho e carnaúba.
3 – Grupo Genipoarte. Composto por uma família de artesãos, o grupo produz m lindo e rico artesanato utilizando palhas de milho, confeccionando móveis, sandálias, bolsas e decorações.

História: 180 anos da expedição de George Gardner ao Cariri
     Desde 1838, há 180 anos, a região do Cariri era objeto de interesse por parte de cientistas. Padre Cícero ainda nem tinha  nascido. George Gardner (médico naturalista, botânico memorialista, intelectual pesquisador, escritor, ensaísta e cientista inglês) – nascido em Glasgow, Escócia –  passou cinco meses no Cariri fazendo estudos sobre a flora, fauna, reservas paleontológicas e aspectos sociológicos, do então Império do Brasil, uma nação respeitada àquela época.  
  
     Após explorar os arredores de Crato (àquela época já existia a aldeia do Joaseiro, erguida em torno da capelinha de Nossa Senhora das Dores, esta construída pelo Pe. Pedro Ribeiro), Gardner incursionou por outros sítios da Chapada do Araripe, como a Vila da Barra do Jardim (hoje cidade de Jardim). Esta havia sido emancipada de Crato em 3 de janeiro de 1816, através de decreto assinado por Dom João VI, Príncipe Regente do Reino de Portugal, Brasil e Algarves.


Uma amostra dos escritos de George Gardner
    Interessante ler as primeiras impressões que Gardner escreveu sobre sua chegada a Crato depois de ter viajado – várias semanas – pelo sertão semiárido do interior cearense:
“Impossível descrever o deleite que senti, ao entrar neste distrito, comparativamente rico e risonho, depois de marchar mais de trezentas milhas através de uma região que, naquela estação, era pouco melhor que um deserto.
 A tarde era das mais belas que me lembra de ter visto, com o sol a sumir-se em grande esplendor por trás da Serra do Araripe, longa cadeia de montanhas, a cerca de uma légua para Oeste da Vila, e o frescor da região parece tirar aos seus raios o ardor que pouco antes do poente é tão opressivo ao viajante, nas terras baixas. 
A beleza da noite, a doçura revigorante da atmosfera, a riqueza da paisagem, tão diferente de quanto, havia pouco, houvera visto, tudo tendia a gerar uma exultação de espírito, que só experimenta o amante da natureza e que, em vão eu desejava fosse duradoura, porque me sentia não só em harmonia comigo mesmo, mas “em paz com tudo em torno”.
    

28 junho 2018

Isso de escrever - Por: Emerson Monteiro


Meros sonhos da impaciência dos humanos. Desejos feitos de palhas. Folhas soltas ao vento, quando há o vento por perto. Bom, fome de fazer face ao desalinho, não do Universo, que o sabemos perfeito, mas daqueles que agem assim no dizer quais instrumentos do nada e coisa nenhuma. Contudo insistir no mister de cruzar as horas e voltar com os pensamentos que sumiam na ausência. Ou tomar conta deles, ou dominar de não ter tamanho as influências que exercem incontidas os contadores de casos, artífices de dramas, preocupações, constrangimentos da gente com a gente mesma.

Lá um dia, no entanto, inventariam de criar, juntar palavras e montar frases. Nos começos, em formas de barro, tabuinhas, tijolos largados nas encostas dos morros dessas ruínas que o povo gosta de visitar nas saídas que dão pelo mundo. Adiante, numas folhas de plantas aquáticas, nas bandas do Egito. Marcar, assinalar de imagens restos de troncos secos e trabalhar os papiros. Até que chineses inventaram o papel e os tipos móveis. Desde então resistem ao silêncio e querem fomentar noutros aqueles pensamentos velhos, aflitos, que sabiam perder no embate entre as ondas e os rochedos inanimados.

Virou isso de untar letras nessas máquinas sofisticadas e mexer a compreensão das outras criaturas, espécie de vontade petulante e figuras gráficas, as páginas luminosas de chegar aos outros mais distantes. Postulados volumosos enchem, pois, as estantes, bibliotecas inteiras, de volumes encaixotados debaixo de sete capas, livrarias, bancas, lixões, museus e revistas. Largos tetos formam a herança do que disseram as lâminas de escrever. Sonhos, profecias, valores filosóficos, tumultos históricos, memórias impacientes, construções monumentais de lendas de tudo quanto é autor, do zero ao infinito, horas a fio trazidas cá fora, do instinto de contar do desespero e passar o momento, e lembrar-se de guardar o mínimo das relíquias boas de viver e ter consciência disso. Enquanto letras existirem, ali de junto haverá escribas que lutarão aflitos na intenção de preservar o sangue que escorrer nas veias e invadem os pensamentos a escrever.

Será aberto amanhã à noite a 1ª edição do Arajara Jazz e Blues

Fonte: Diário do Nordeste, 28-06-2018.
 Espaço no distrito de Arajara, município  de Barbalha, para receber a estrutura da primeira edição do Arajara Jazz e Blues
Programação

Sexta (29)

18h30: Terreiro Cultural Arte e Tradição
19h30: Ney Alencar
21h: João do Crato
22h: Luiz Fidélis

Sábado (30)
19h: Fernando Félix
20h: Flash92
21h30: BluesIn
22h30: Calazans Callou e Banda Trimurti

Domingo (1)
16h: Miguel Tegenbosch e Iara Portela
17h: Terreiro Cultural Arte e Tradição
18h: Testa de Veludo
19h: Valdi Júnior

    Distrito do município de Barbalha, Arajara sedia pela primeira vez uma atividade dessa natureza e se lança como um novo território de encontro aos aficionados pelo jazz e blues. Em pauta, os ritmos afro americanos devem se interligar com o repertório popular nordestino através de 12 atrações confirmadas para os três dias de festa. Para confirmar esta celebração, os artistas selecionados apresentam-se em um cenário todo especial.

    O palco do evento foi batizado de "soldadinho-do-araripe", em homenagem ao pássaro símbolo da região, raro e criticamente ameaçado de extinção. No tocante ao serviço de curadoria, o momento é de aplaudir a riqueza de gêneros musicais e gerações envolvidas no projeto.

     Segundo o coordenador do Arajara Jazz e Blues, Milton Bezerra, o ponto de partida para a realização do evento teve como referência o tradicional Festival Jazz e Blues de Guaramiranga. As semelhanças naturais - como o frio (neste momento do ano, Arajara chega a registrar uma temperatura em torno de 13°) e a possibilidade de divulgar a força musical do Cariri - foram exemplos de incentivos.

Charge do dia


"O Povo", 28-06-2018.

27 junho 2018

Paisagem lunar - Por: Emerson Monteiro



Desde sempre lembro as noites de Lua Cheia, que elas transformam o que seria a noite em uma festa de beleza e sonho. Enquanto dentro da gente as histórias acontecem noutra velocidade, essa força de poder inigualável acorda a verdadeira realidade na gente. Dos tempos remotos, as sombras das noites de lua estendem visões que reclamam dimensão entre a percepção visual e as sensações espirituais inestimáveis. Vezes sem conta, nessas noites revivem os espectros de nós mesmos que se foram a reclamar participação neste mundo concreto de formas e fardos. Um eu inesperado assim regressa de armas em punho e exige espaço de consciência, a determinar que recolha os blocos de matéria largados na sala principal da personalidade, e impõe códigos de honra e dignidade amorosa. Constrange até, a superar as leis do país, a influenciar os sentimentos vulgares. Nessas horas, lá vem de novo saudades antigas, arcaicos tremores que bem pensávamos haver desaparecido nas brumas das madrugadas de séculos amarelecidos. Mas, não, essa força estranha chega virando cangaço e caustica a indiferença das personagens esquecidas no além do passado. 

São quais nessas tais noites de Lua Cheia que correm os animais da criação do imaginário. Eles vagam soltos fazendo assombração e susto às pessoas. Reviram o cisco dos olhos da escuridão dos amantes solitários e fazem chorar os incautos que dormiam sob as recordações abandonadas. Porquanto esses animais da penumbra possuem escritura de nós que nem sabíamos existir nos cartórios do mistério. Vale quais documentos de valor indiscutível perante os tribunais da Eternidade. Que fizeram dos amores intensos perdidos? Em que gavetas esconderam as dores das paixões desenfreadas? Aonde marcaram os encontros das ausências com os desejos impossíveis?

Exército silencioso de guerreiros fiéis invade a alma da gente e prega peças, a convocar o que somos nós, farrapos arrastados no comboio do adeus, a dizer das responsabilidades negligenciadas e o preço a pagar de saudade. Isso tudo nas noites plácidas da Lua Cheia, pouso dos pássaros das noites esplendorosas que sempre regressam inexpugnáveis, quando pensávamos nem existirmos mais, no entanto tão estamos eternos quanto essas noites mágicas e belas preenchem o vazio do coração.

Escutar o silêncio - Por: Emerson Monteiro

...

Moramos bem dentro dessa fronteira do instinto com a intuição. Todos têm aqui um alojamento que chamamos de eu, e fazemos as ações inevitáveis de sobreviver às intempéries de tocar os barcos da individualidade num mar de ondas intermináveis. Comer. Dormir. Sonhar. Conhecer. Trabalhar. Essas providências que enchem os dias e gastam o tempo precioso de que testemunhamos passar. Nem sempre utilizamos o movimento do Sol em torno da gente do modo mais exato, de acalmar a paciência e dormir em paz. No entanto viver é isso, cruzar inúmeras vezes essa tal fronteira entre o instinto e a intuição, diariamente.

Por vezes, a gente se alegra e cresce nos cascos, feitos filhotes inocentes da servidão. Noutras, pesam os fardos e o instinto força desejos de comodidades pessoais, certezas ocasionais desfeitas, porém. Vale isto, equilibrar os dois pratos da balança, além de aguentar o esforço dos demais humanos de também sustentar ânimo e resistência aos instantes e às dúvidas. Viver, entretanto. Conduzir o rebanho de si mesmo através dos desertos dos humores, das ansiedades, dos vícios, e nunca perder o pé de apoio na alegria.

Espécies de experimentos da própria consciência, viver batendo nos rochedos dessa praia imensa do Infinito, num procedimento às vezes instintivo, às vezes intuitivo. Da intuição nascem os sonhos, as premonições, as promessas, as religiões, os confortos espirituais.

Já dos instintos, contudo, sobram experimentos vagos, incertos, de fome de prazeres, ânsias de dominação dos outros e dos objetos, furores das dimensões egoístas do animal que ainda somos, todavia. Quais máquinas embriagadas nos seus metais, os quadrantes das notícias falam desses fatores da inexperiência humana em forma de dores e mágoas. Estações especiais da sorte ocasional, nalgumas ocasiões acertam, outrossim visando tão só qualidades e vaidades, monstros de novelas espúrias, estranhas, mórbidas.

Ainda que seja assim, este é o melhor dos mundos possíveis, imagináveis, em que construiremos a renovação de nós, em que persistimos a caminho da transformação de sujeitos em senhores, máquinas em verdade absoluta.

26 junho 2018

Em setembro será lançado o livro póstumo de Manoel Patrício de Aquino (Nezinho)

   Os lançamentos de livros de autores cratenses têm sido intensos nos últimos tempos. Raríssimo é o mês que uma nova obra, produzida em Crato, não é lançada. No próximo dia 4 de setembro, numa iniciativa da esposa, filhos e netos de Manoel Patrício de Aquino (Nezinho) será lançado, na sede do Instituto Cultural do Cariri–ICC, o livro póstumo deste intelectual cratense, com o título “Alguma Coisa”.

    Constante de poemas, contas e versos, de autoria de Nezinho, a obra tem um aspecto visual de excelente qualidade. Impresso pela A Província Editora, que tem sede em Crato, o livro traz ainda outro presente: um CD com seis músicas relacionadas à Cidade de Frei Carlos, gravadas pela Banda de Música Municipal de Crato. As faixas são as seguintes: 1- Hino do Crato; 2- Valsa Maria Patrício; 3 – Hino de Nossa Senhora da Penha; 4 – Dobrado Nezim Patrício; 5 – Saudades da Minha Terra; 6 – Dobrado Huberto Cabral. O desenho do CD, que traz o pássaro Soldadinho do Araripe é de autoria de uma neta de Nezinho, Mayana.

Quem foi Manoel Patrício de Aquino
Natural de Crato, onde nasceu em 04 de setembro de 1941, Nezinho tinha graduação em Ciências Econômicas e Direito, pela Universidade Regional do Cariri. Escreveu em vários jornais e revistas do Cariri. Foi Presidente do Instituto Cultural do Cariri–ICC, por três mandatos. Faleceu em 23 de maio de 2016. Seu sepultamento foi uma consagração e reconhecimento a todas as qualidades humanas e intelectuais de que era detentor.

Uma crônica escrita por Manoel Patrício de Aquino

Pedro Cabeção

   Há  alguns anos (não muitos) viveu em Crato um mendigo chamado Pedro Cabeção. Jamais se soube o seu completo nome de batismo. Ou jamais se quis sabê-lo...

   Mas Pedro era popularíssimo. Mormente entre a criançada, a quem sempre fazia rir (em especial quando metia o dedo polegar na boca, ou o fura-bolo, comprimindo-o para, em seguida, puxa-lo de repente a fim de conseguir sons engraçados (estampidos) com que agradecia as esmolas recebidas, ou simplesmente cumprimentar as pessoas.

   Pedro andava sempre só, apoiado num velho cajado de “frei–Jorge”. Caxingando. Gemendo... Mas passava a maior parte do tempo “estacionado” numa calçada qualquer do centro da cidade, de preferência perto das esquinas ou nas proximidades da casa de Seu Mário Limaverde. Forrava o local com velhos e rotos panos e com pedaços de papelão. Tinha um banquinho de madeira, de um palmo de altura, onde, às vezes, se sentava ou expunha a desbotada lata de manteiga: seu caça-níqueis.
Apresentava, além da macrocefalia, outras bem visíveis deformações anatômicas, as quais, no entanto, não despertava a mínima curiosidade de ninguém, pois o importante mesmo era a sua enorme cabeça, que lhe valera a alcunha.

    Pois bem, meu caro leitor. O Ceará de hoje, mais do que nunca, lembra-me o miserável Pedro Cabeção. Estado pobre. Paupérrimo. Com sua enorme e disforme cabeça (Fortaleza e a Região Metropolitana) e aleijões pelo resto do sofrido corpo. Mendigando pela televisão. E o seu homem do campo caxingando, gemendo, chorando... morrendo.

Desde a promessa do último brilhante da coroa do Imperador Dom Pedro II, que seria vendido, se preciso, para que ninguém aqui passasse fome, pouca – muito pouca coisa –mudou. Quanto ao Cariri, que ninguém se engane: inobstante algumas aparências e apesar da propaganda enganosa, está perdendo, e feio a corrida do progresso. Ah! velho Pedro Cabeção, faz pena! E dá vergonha!!!


25 junho 2018

A verdade concisamente: Revitalização do Rio São Francisco vai exigir mais de R$ 30 bilhões

Fonte: jornal Estado de Minas, 25-06-2018.

Repetidamente prorrogada, a revitalização do Velho Chico vai demandar R$ 30,8 bi até 2025, aponta plano do comitê da bacia. Combate ao desmatamento está entre prioridades

    Aracaju - Com o volume cada vez mais reduzido e sofrendo todo tipo de degradação, o Rio São Francisco cobra o preço das sucessivas promessas de socorro não cumpridas. R$ 30,8 bilhões é o volume de recursos necessários para combater a agonia e salvar o Velho Chico, aponta estudo técnico que começou a ser elaborado em 2014 e só foi finalizado no início do mês. O documento preconiza ações de revitalização a serem executadas até 2025 em toda a bacia do chamado Rio da Unidade Nacional, que nasce na Serra da Canastra, no Centro-Oeste de Minas Gerais, e percorre 2,8 mil quilômetros até desaguar no Oceano Atlântico, atingindo uma população de 18 milhões de pessoas, moradoras de 505 municípios de seis estados (MG, BA, GO, SE, PE e AL) e do Distrito Federal.

     Elaborado e coordenado pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), o estudo, ao qual o Estado de Minas teve acesso durante simpósio sobre o tema realizado em Aracaju (SE), entre os dias 3 e 6 deste mês, define como uma das metas a utilização de 80% dos recursos financeiros em preservação do manancial. O desmatamento é apontado como uma das principais causas da degradação ambiental.

       Segundo o presidente do CBHS, Anivaldo de Miranda Pinto, o Plano de Recursos Hídricos da Bacia do Rio São Francisco 2016/2025 (PRH-SF) diagnostica todas as “ações concretas” que deverão ser executadas para que a bacia seja recuperada, envolvendo a União, estados, municípios, organizações não governamentais e outras fontes de financiamentos, mas não detalha o desembolso que caberá a cada parte. “Serão necessários R$ 30,8 bilhões para que, de fato, possamos falar em revitalização absoluta da Bacia do Rio São Francisco e seus afluentes”, resumiu.

24 junho 2018

O momento de viver - Por: Emerson Monteiro


Que tenha um mínimo de sabedoria... Que seja bem mais de sentir do que de pensar essa prática de crescer de verdade, que seja do ser interior da gente. Invés de só repetir, que esse momento contenha o pudor da sinceridade. Amar de alma e tudo; envolver na consciência o desejo de cumprir os sentimentos na força que possuem e alimentam de vida a existência. Saber identificar o poder da verdade nos detalhes dos dias. Isto de usufruir da força de que dispõe o querer das gentes. São fluídos os instantes que transcorrem feito lufadas de vento, na beleza das luas, a sacudir de ciciar as árvores nas manhãs de sol intenso. Apreciar o sorriso das pessoas nas ruas. A tranquilidade santa do movimento dos corpos nas caminhadas do tempo.

Viver o presente, pois seja ele o único que persiste no fluir das emoções. Escutar com o coração as canções da natureza nos pássaros, nas flores, nos dias. Horas a fio, a certeza das oportunidades sem conta. O calor das tardes, o frio das madrugadas, o alimento e a satisfação de conhecer o novo de todas as ocasiões. O prazer da saúde, dos amigos, da família. O respeito à seriedade; o valor da honestidade; o gosto das viagens, dos sonhos, livros, filmes, músicas; bons assuntos e extrema satisfação de conhecer as novidades e os mistérios.

Isto que bem cabe na nossa presença diante do Universo; desenvolver as possibilidades do infinito, no sentido de concretizar a transformação a que somos destinados. Amar de alma e tudo; envolver a consciência no dever de cumprir os sentimentos... Transcrever os sonhos nos passos que dermos no correr dos quadros que se superpõem aos nossos pés. Boas emoções, virtudes, plantios de sementes deliciosas no solo fértil da felicidade. Amar de alma e todo; construir o amor na luz da Eternidade em nós próprios, partículas de todos e cada um de que somos. Vou sair a ver a Lua, que hoje é Cheia.

Caririensidade 1 – por Armando Lopes Rafael

Chapada do Araripe que circunda algumas cidades do Vale do Cariri. Araripe é uma palavra indígena que significa: "lugar onde surge o sol"

    Focalizaremos nesta coluna, hoje iniciada – sob o título de Caririensidade – uma palavra derivada de Cariri, e aqui focalizaremos coisas pertencentes, ou relativas, à região do Cariri cearense.

Cariri, um patrimônio cultural do povo brasileiro
     O arquiteto Romeu Duarte Júnior escreveu, há algum tempo: “O território do complexo sedimentar do Araripe, envolvendo o vale do Cariri, é uma das mais extraordinárias regiões do nosso planeta. Situado no sul do Estado do Ceará, nordeste do Brasil, é caracterizado por exuberantes recursos naturais e um diverso e rico patrimônio cultural.

       No Cariri, as tradições ibéricas e negras mesclaram-se às indígenas, resultando um painel mestiço, evocativo da cultura brasileira. Cantadores, cordelistas, poetas, intelectuais, artesãos, brincantes, músicos, dançarinos, penitentes e romeiros, todos contribuem com seus ofícios e expressões para o reconhecimento da região como destacada paisagem cultural do país. O acervo paleontológico do Cretáceo, um dos mais importantes do mundo, e a Floresta Nacional do Araripe, a primeira unidade de conservação da natureza do Brasil, ensinam-nos que a biodiversidade do Araripe é surpreendente e expressiva desde 120 milhões de anos”.

130 anos do Apostolado da Oração de Juazeiro do Norte
      Uma data que merece ser lembrada. Este ano o Apostolado da Oração de Juazeiro do Norte completará 130 anos de fundação.  O Apostolado da Oração é uma organização composta por leigos católicos cuja finalidade é a santificação pessoal e a evangelização. Teve origem na cidade de Vals, na França, em 03 de dezembro de 1844, por inspiração da espiritualidade dos Jesuítas, padres pertencentes à Companhia de Jesus, esta fundada por Santo Inácio de Loyola.
 
        Em 19 de outubro de 1888, quarenta e quatro anos depois da sua criação na Europa, quando nosso país ainda era o respeitado e digno Império do Brasil, o Apostolado da Oração surgiu em Juazeiro do Norte, fundado pelo Padre Cícero Romão Batista. Na solenidade da sua instalação em terras caririenses, foi rezada uma missa na então capela de Nossa Senhora das Dores, da aldeia do Joaseiro (grafia da época), pelo vigário de Missão Velha, Pe. Félix Arnaud, coadjuvado, no ato, pelos Padres Cícero e Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva. Este último seria nomeado em 1915 como primeiro Bispo da Diocese de Crato. Padre Cícero foi, naquela ocasião, designado como diretor do Apostolado da Oração de Juazeiro.

          130 anos se passaram. A capela de Nossa Senhora das Dores virou Basílica Menor, graças à iniciativa do 5º Bispo Diocesano de Crato, Dom Fernando Panico.Hoje Juazeiro do Norte e as demais cidades do Cariri cearense estão integradas ao processo da globalização, ou seja, inseridas em tempo real a toda a comunicação com os demais países do mundo, os quais ficaram entrelaçados irreversivelmente, a partir do final do século XX e nestes dezoito anos do século XXI.

No Centenário... A turma da Praça – por Jorge Carvalho (*)

    Comecei a frequentar a Praça Siquera Campos nos anos de 1972, 1973... e naquele logradouro, na minha adolescência, presenciei vários momentos do dia a dia da cidade, nos mais diversificados acontecimentos: sociais, esportivos, políticos, religiosos. Havia, a Sorveteria Cariri, onde hoje se localiza o Banco Bradesco. O cine Cassino, a lanchonete de Antonio Siebra. A banca do Juciê, ao lado da Sorveteria Cariri. A movimentação, ali, era intensa, dia e noite. O Cine Cassino, exibia filmes pela manhã aos domingos, 16, 19 e 21 horas. Seu Mario, proprietário, Otacilio, Toin, Antonio Siebra, na bilheteria. Em frente à Sorveteria Cariri, havia uma parede de mais ou menos um metro de altura. Ali, as conversas se desenrolavam, mais precisamente, à noite. Era a turma da UDN, pois na Praça, ficavam os admiradores do PSD. Na parede os carrapatos e na Praça os gogó.

    O Café Crato era de assiduidade enorme: dentistas, médicos, políticos, eletricistas, advogados, atletas de futebol, estudantes, desportistas, professores, corretores de imóveis, vendedores ambulantes... os mais variados frequentadores. José Landim, meu tio José Nilo, Walter Peixoto, Alcides seu irmão, Doutor Leônidas, Doutor Rubens Soares, Talia Marcia, João Lindemberg de Aquino, Helanio, Senhor Luis Barreto, Chiquinho Barreira, Maildes Rodovalho, Silvina, Luiza e Teresinha Monteiro Bezerra (irmãs), popular Teresa Pirão, Dolores, Regina, Antônio Luís, o Brigadeiro, Dr. Zé Ulisses, Luiz Sarmento, Seu Arildo Costa, José Albanito, Jesus, Ítalo, Heron Aquino, meus tios Oswaldo e Almério, Careca, seu Chico Justo, Alagoano, Luiz José, Luzimar, Zé Maguim, Huberto Cabral, José Lucas, Gerardo Portela... Nos bancos próximos onde trabalha o Chaguinha, Raimundo, Vicente Arame, os vereadores José Valdevino e Waldir Leite. Os taxistas: Vital, Zezito, Seu Nivaldo Peixoto e Seu Aldisio Brizeno. Três momentos "complicados", uma tentativa e dois assassinatos.

    Estava sentado em um dos bancos, onde hoje trabalham os mototaxistas, em companhia do fotógrafo Zé Baixim. Chega um rapaz do bairro Seminário e solicita a ida do Zé até uma residência em frente a praça Dona Ceicinha, onde tinha sido assassinado o ex jogador e policial Capote. Acompanhei o Zé e presenciei a cena – a vítima ao chão. Outra vez, estava no mesmo local, quando o Juciê comenta: são tiros. Corri. Era um rádio técnico atirando em um motorista chamado Luis. Este corre e dobra a esquina da atual loja Toasa. Meses depois foi encontrado morto dentro do seu veículo na rodovia Padre Cícero.

    O último momento relacionado ao assunto, foi em um 1º de abril de 1981, quando conversava com o Juciê na sua banca, que funcionava em frente ao cine cassino. Chega o professor Amauri Azevedo, o Maninho e fala: acabaram de matar Maninho, irmão de Briba. Eu digo é brincadeira, hoje é 1º de abril. Foi verdade. Que arrodeio, hein! Agora, a turma da Praça. Ah, quanta saudade! Quantas lembranças e saudosas recordações! Antônio Jorge, Zagueirão, Etin, Didio, Airton, Amilton, Ailton, Marcelo, Demontier, Nanida, Osvaldo, Vicente, Helio Funerária, Otoniel, Marcos, Joãozinho, Dorgival, Chico Dunga... rolava política, mulher, religião, cinema, economia e o assunto mais intenso: FUTEBOL. Os rachas na quadra Bicentenário, as festas no Cição, Aquários, Gaibu. O Carnaval no Tênis. No final do ano havia a eleição: o mais ruim de bola e o mais feio da Turma. Até fogos soltavam.

        Foi nesse ambiente que surgiu o time com o nome da Praça: O Siqueira Campos. Marcou época no futebol caririense: Osvaldo, Lula, Pitucha, Gomes, Zé Mocó, Waldir, Afonso. E o carnaval? Ah! Uma preciosidade de lembrança. “A mesma praça, o mesmo banco, o mesmo jardim...” Airton, Osvaldo, Nanida e Marcelo em outro plano universal. Geraldo Preá, Genésio, Inacio.... Lembro a loja de discos, onde trabalhava o Amilton Som; a casa do Dr. Teodorico, onde hoje funciona o Brastudo; os leões próximos a Sorveteria Cariri. O dia do sorteio político na Miguel Lima Verde, quando o ex-vereador Tavares, em entusiasmo vibrante, brincou... nós vamos fundar é o PSHP. E o que é Tavares? Partido Sem Humberto e Pedro. Praça em que solicitei um fusca ao Governador Cid, quando de sua Reinauguração, em 22 de dezembro de 2011.
 
Obs.: Foi em frente a esta Praça que, em março de 2009, o Rapadura Cultural (Culturarte), comemorou o centenário do poeta Patativa do Assaré, em grande evento artístico/musical. O coreto, ali hoje existente, foi projetado em referência ao programa Rapadura Cultural (Culturarte). Finalizando: Passei dois anos sem pisar na Praça. Motivo: A péssima reforma ali realizada.
  Artigo fraternalmente dedicado a Airton, Osvaldo, Nanida e Marcelo.
 
(*) Jorge Carvalho. Professor e Radialista

O sadio exemplo que vem da Monarquia de Liechtenstein

Fonte: Face Book Pro Monarquia

O pequeno Principado de Liechtenstein, localizado nos alpes europeus, entre a Áustria e a Suíça, e com uma das maiores rendas per capta do mundo, realizou, em julho de 2012, um referendo popular acerca do poder de veto, inclusive sobre matérias aprovadas pelo Parlamento, que, por tradição, o Príncipe soberano possui.

Há mais de 20 anos, o Soberano de Liechtenstein é o Príncipe Hans-Adam II, que, em agosto de 2004, designou como Regente seu filho mais velho e herdeiro, o Príncipe Hereditário Alois, que, desde então, exerce as prerrogativas de Chefe de Estado.

Em Liechtenstein, a maioria absoluta da população é católica, e o aborto é ilegal. O Príncipe Hereditário Regente, católico devoto, assim com todos os membros da Família Principesca e a grande maioria do seu povo, declarou que vetaria qualquer resolução parlamentar que favorecesse a aprovação do aborto no Principado.

Indignados, ativistas republicanos e pró-aborto pediram um referendo para cassar o poder de veto do Chefe de Estado. Logo a questão virou outra: abolir ou não a Monarquia? A pressão republicana foi intensa sobre a pacata população, propagandeando que o Soberano e seu Regente detinham um poder exagerado para um Estado moderno do século XXI, que deveria ser “democrático”.

Qual foi o resultado do referendo? O povo de Liechtenstein menosprezou toda a propaganda contrária e manteve a prerrogativa régia. Mais de 76% confirmaram o poder de veto do Soberano, mesmo em matérias passadas pelo Parlamento ou referendadas. O aborto foi rejeitado, a Monarquia preservada e o Príncipe Hereditário Regente deu continuidade à aliança entre o povo e sua Família, que já dura mais de 300 anos.

A Família Imperial do Brasil e a Família Principesca de Liechtenstein sempre mantiveram excelentes relações. O Príncipe Hans-Adam II e o Príncipe Imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, já se encontraram várias vezes, no Brasil e na Europa. Mas a afinidade vai muito além do parentesco e da amizade, pois as duas Famílias lutam pela preservação dos valores perenes da Cristandade; e, se o Brasil fosse uma Monarquia, o Imperador certamente vetaria a legalização do aborto em nosso País, bem como se utilizaria de todas as suas prerrogativas constitucionais para barrar qualquer legislação contrária à Lei Natural.
Foto abaixo: O Príncipe Hans-Adam II de Liechtenstein e seu filho mais velho e herdeiro, o Príncipe Hereditário Regente Alois de Liechtenstein.

23 junho 2018

O templo do coração - Por: Emerson Monteiro


Empenhe-se para adorar no templo do coração.
Oh! Mendicante, o paraíso é apenas uma tentação;
o objetivo real é a própria casa de Deus.
                                                                  Abdullah Ansari


Quando tudo terminar, restará apenas o ser íntimo face à dor das existências. Esse ser de que falam os místicos e que vive na essência mais interior de tudo, nas pessoas, no princípio e no fim das manifestações e função única a que Jesus denomina o Reino de Deus. Significa a liberdade para dentro de si, o pomo dos segredos universais. As vagas do tempo nem de longe obtêm chegar a isso, daí a existência da consciência nos humanos, os seres inteligentes da Criação. Vieram nessa determinação de encontrar o caminho da Salvação, a isto foram criados. Os esforços coletivos e individuais buscam, pois, o sentido de dominar o momento e transcorrer nas fibras da Eternidade a morada do definitivo. Uma mutação a que viemos todos. Permutar a perecividade da matéria pelos campos de luz da Perfeição.

A intenção de revelar os sóis da Consciência cabe, portanto, aos senhores da razão, sujeitos das intempéries e das provas. Eles somente compete realizar a superação dos limites e vencer a perdição que os deteria tão apenas em fenômenos físicos, assim não fosse.

Enquanto isto, no espaço das vidas, ocorre o embate dos dois aspectos da presença. Dois em conflito das gerações, dramas da fusão dos elementos de que somos senhores. Por vezes restritas à visão das ilusões nas aparências, sucumbem multidões aos fatores dessa experiência prática de estar aqui e transcender. O herói vencerá e chegará ao templo, invés dos aliados da banda adormecida na inconsciência.

Carecemos dos favores da renúncia, da concentração e do destemor. Cruzar as barreiras do impossível sem desistir da luta. Territórios da alma da gente, sobreviver a todo custo diante de restrições e vaidades, pressas e comodidades. O método, as existências nos ensinam.

Celebrada em Crato, missa em honra de São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei

    Neste sábado – 23 de junho de 2018 – na parte da manhã, foi celebrada na capela de Nossa Senhora da Conceição, do bairro Parque Granjeiro, em Crato, uma missa pela festa de São José Maria Escrivá. A solenidade partiu de amigos do Opus Dei residentes nas cidades de Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha.

Quem é São Josemaria Escrivá
São Josemaria Escrivá nasceu em Barbastro (Huesca, Espanha), em 9 de janeiro de 1902. Recebeu a ordenação sacerdotal em 28 de março de 1925 em Saragoça e começa a exercer o ministério numa paróquia rural. Em 02 de outubro de 1928 fundou, por inspiração divina, o Opus Dei. Em 26 de junho de 1975 faleceu repentinamente em Roma, logo após ter olhado com imenso carinho uma imagem de Nossa Senhora de Guadalupe que presidia ao seu quarto de trabalho. Vários milhares de pessoas, entre elas muitos bispos de diversos países - quase um terço do episcopado mundial -, solicitam à Santa Sé a abertura da sua causa de canonização.
No dia 17 de maio de 1992, João Paulo II beatifica Josemaria Escrivá. Proclama-o santo dez anos depois, em 6 de outubro de 2002, na Praça de São Pedro, em Roma, diante de uma grande multidão. « Seguindo as suas pegadas », disse o Papa nessa ocasião na sua homilia, « difundam na sociedade, sem distinção de raça, classe, cultura ou idade, a consciência de que todos estamos chamados à santidade ».

O que é o Opus Dei?
O “Opus Dei” (“Obra de Deus”, em latim) é uma instituição hierárquica da Igreja Católica — uma prelazia pessoal —, que tem como finalidade contribuir para a missão evangelizadora da Igreja. Concretamente, pretende difundir uma profunda tomada de consciência da Filiação de Divina (todos somos Filhos de Deus) e da chamada universal à santidade tendo por base o valor santificador do trabalho cotidiano, qualquer que seja a atividade profissional. O Opus Dei foi fundado por São Josemaría Escrivá em 2 de outubro de 1928.

22 junho 2018

Os jogadores - Por: Emerson Monteiro


Examino há muito esse afã dos jogadores em transe. O apego deles aos tabuleiros, ao som dos dados, o sacolejar dos palitos, o estalar das cartas. Os olhos acesos nos lances dramáticos denotam a hipnose que os prende à inteira atenção nos naipes, nos momentos das partidas, no troar dos bozós; das mesas; no girar das roletas. Quais habitantes vindos de outras dimensões, aqui chegaram de malas prontas de ilusão no rumo do desconhecido, instantes fugazes do Infinito, espécies extras de sobreviventes de naufrágios impossíveis desconhecidos no comum das horas.

Passo ali na Praça Siqueira Campos e vejo os tantos parceiros das mesas que viajam nas manhãs, perdidos nas horas que transcorrem e lhes abandonam, desfeitas na indiferença delas ao fluir daquelas condições absortas.

Sempre lembro as noitadas de que se têm notícias da decadência de fortunas, em chácaras, terraços e quintais; pessoas que tudo lançaram num único lance de sorte e viram sumir das mãos o que juntavam décadas a fio em outras noites de sucesso. Embriaguez, febre, temeridade, tão bem contadas por Dostoiévski na sua obra O jogador.

Desde que me entendo de gente, nas terras do Cariri, sei de nomes que perderam as posses nas mesas de jogos, além dos que as obtiveram em sucessos, e estabeleceram patrimônios. As cidades possuem suas bancas de jogo, tradicionais lugares que consolidam a herança das décadas passadas. Eles, os jogadores aficionados, alimentam o costume e, em torno de si, chegam os tracionais perus, torcedores silenciosos e clássicos. Vivem as intensas emoções desse furor que os domina, espécie de vício misterioso, dotado de contrições e desesperos, dependência e charme, quedas e ascensões.

O hábito do jogo por vezes ganha âmbitos coletivos, nos estádios, nas quadras, nas pistas, invadindo raias de normalidade e nutrindo de circos na função de acalmar a fúria das multidões. Estudiosos estimam serem catarses coletivas, aonde populações desaguam frustação, carências e impossibilidades, transformadas em competição pública, expressão das limitações e motivo de paixões e júbilos dos grupos sociais.

Na sua pequenez, os humanos descaem à busca de respostas junto aos oráculos das sinas, os jogos e as guerras. Acesos ao fervor dessas aventuras do invisível, apostam com o Tempo o direito de ser feliz, ainda que seja só durante poucos quadrantes dessas migalhas e a mais transitória das felicidades.

(Ilustração: Thedor Rombouts, em Os jogadores de carta).

21 junho 2018

Algumas palavras III - Por: Emerson Monteiro


Este horizonte de nós mesmos vem a pedir que cheguem as cores da Felicidade. Força descomunal arrasta os acontecimentos aos lugares santos. Ninguém que fuja do determinismo das leis eternas. Ordens e equilíbrio, tudo enquanto, a fixar normas de ação nem sempre reconhecidas de todos, e aceitam pela maioria. Daí a angústia, desesperos e ansiedade que machucam de gestos impensados o gesto e fazem de sofrimento a estrada dos incautos.

Olhares vagos, pois, no caminho da Eternidade deixam livres sentimentos de leveza que, decerto, lá um dia mostrarão o quanto restava a percorrer. Esquecer a própria existência e sair solto entre os astros do Universo, a braços com a sequência natural de tudo. Largar as amarras que prendiam aos derradeiros meteoritos vagando na gravidade do vento, olhos fixos no término daquilo que jamais terá fim, a ordem dos céus. Ouvidos na música das estrelas, a meio das inspirações que voam absortas no firmamento infinito, e permitir sonhar sonhos de esperança e paz. Luz no coração. Ciência na alma.

Quantas vezes tantas o desejo intenso de largar os rochedos e abandonar às ondas o furor da liberdade, guardadas saudades, esquecidas as histórias de quando o Sol ainda jazia escuro nas trevas e os barcos a sós deixavam rastros nas notas das canções. Flores. Distantes laços deixados abandonados. Sombras. Luzes.

Nisso, o pórtico aberto dos destinos que aguarda a vontade dos que permitem descobrir a si na forma da obediência. Livres dos caprichos individuais e das atitudes abomináveis, reconhecem nas horas a força que tudo determina. Quedam, assim, nas folhas secas das experiências o fascínio dos acontecimentos e aceitam tudo de bom que lhes espera, à medida do conhecimento adquirido e praticado. Acalmam os penhores da força bruta e aceitam de bom grado desvendar o íntimo perfeito da orientação. Isto sem aflição, fiel e contrito, sono dos justos.