07 maio 2018

Paisagem original - Por: Emerson Monteiro

A primeira visão das existências de todos, de quando se é criança e descobre a necessidade em transformar o vazio do coração num fator de sobrevivência; instrumento de execução das peças dessa sinfonia natural da consciência, há, pois, um abismo nos olhos dessa visão principal de quando resolveu olhar o mundo de dentro da pessoa, e deixar de ser tão só esse objeto borbulhante. Querer compreender sem deixar de existir, entretanto. Incluir a si próprio no todo das visões e formar a interpretação através dos temporais da vida. Enxergar de olhos limpos a fogueira das multidões dos tantos seres num ser único de único olhar.

Isto assim acontece porquanto insiste morar comigo a primeira vez que vi o sítio, a represa, o açude, as árvores, os céus, os animais; a água que refletia intensamente tudo em volta acima do chão, qual espelho de poder revelador inesgotável. No Sertão bem desse jeito, os estirões e um silêncio contundente de matos e pessoas a vagar tais semelhantes uns fugindo dos outros a cada dobra dos caminhos. Espécies de desconhecidos de si e querer conhecer, porém desconfiados e distantes, visagens e malassombros afastados, vadios, espantados.

Aquilo gravou comigo e ainda hoje persiste até, quem sabe?, morada do para sempre; nunca soube, nem sei mais se nunca soube, de que tempo nasceu o apego a essa primeira impressão que de mundo chegou a mim e em mim permaneceu, braço de comando e paisagem definitiva, pelo menos desta vida que nasceu naquele sítio, nas quebradas do Sertão. Ficou guardada, contudo exposta no que chega e ir simbora, dos dias e das noites, nesses tempos de depois do para nunca mais.

Horas a fio e imaginar o desejo de liberdade que suplanta a acomodação das pessoas e dos bichos, das descendências. Talvez modificar todo universo cá das entranhas em claridade absoluta, que desde bem antes chamam vontade no ver e no agir das criaturas.  E nisso restar prisioneiro daquela mesma visão primordial, a querer soltar amarras e sair voando feito sonho quando termina, e nunca mais repete lances e aventuras inigualáveis de si para consigo, adentro dos mistérios escondidos na alma da gente.



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