26 dezembro 2017

Estando distante, vejo o Crato pela lembrança - Crônica de Gabriel Xenofonte.



Estando distante, vejo o Crato pela lembrança. E quando isto ocorre, eu sempre resgato da memória um Crato que talvez eu nem mesmo tenha conhecido. Um Crato quase idílico e quimérico, que teceu-se em mim através das lembranças alheias que os outros me passavam.

Assim, eu as fui guardando e acumulando de tanto ouvir, para depois bordá-las todas à minha própria memória como se me pertencessem. Mas eu acho que, de algum modo, elas me pertencessem. Embora indiretamente. Evocar a glória do passado é o consolo dos que não aviveram.
Quem sabe isto seja obra da ótica que emprego nesses momentos. A ótica turva e fantástica da saudade, que maquila a lembrança do que está ausente, com o pincel sublime da utopia. Deixo meus pensamentos dormitarem sob a lembrança do Crato, de seus becos e praças ensombradas,para tentar revigorar a mente com o bálsamo e o conforto que só mesmo a Terra-Mãe pode me dar.
Tantas vezes já ocorreu-me escrever sobre o Crato, mas deixava sempre esta ousadia para uma chance em que pudesse discorrer mais sabiamente sobre suas venturas. Sobre suas belezas e singularidades.
Inspirava-me em cada brisa que soprava entre os ramos do arvoredo da praça da Sé; Em cada casarão apagado e misterioso que deixava-me aflito de curiosidade para conhecer sua história; Nas ruas mais antigas, nas sacadas da Nelson Alencar...
Eu buscava inspiração em tudo que me remetesse a outros tempos ou que me parecesse particular, extremamente particular, à vida Cratense. Tantos nomes eu sabia, tantos lugares... Tantos fatos que construíam-se dentro de mim para formar esta imagem de um Cratoque, hoje, só existe em meu Coração.
O Crato de Cândido Figueirêdo; de Nemezin; de Luiz Barreto; de Thomaz Osterne; de Bárbara de Alencar; Virgílio e Antônio Xenofonte e tantos outros. O Crato de Nezim Patrício de Aquino e dos irmãos Divani e Huberto Cabral. O Crato da Chapada!
Falo daquele nosso Crato do Votoran e do Pau do Guarda. Do Madrigal; da Praça dos pombos; da estação do trem e do Mercado Redondo.
Como esquecer o Crato proibido de Glorinha e Maria Alice; Os encontros mais que memoráveis na inesquecível Sorveteria Glória, na Cisneilândia e no Alagoano. Esse Crato da Rua Grande, da Pedro II e da barbearia Elite. Crato da Decolores, da Padaria Sidrim e das conversas infindáveis nas calçadas.
O Crato de seu Pedro Felício; de Bantim e da Casa dos Leões. De tantos personagens eternos, dos quais eu só conheço o nome e seus "causos". É como diz a expressão imperecível: "Isso, só no Crato!"
Viva o novo Crato que resgata sua cultura! Viva a rica literatura regional, viva o cordel imortal! Viva o Reizado! Essa cidade de Bastinha (Nunca nos esqueçamos de sua irmã Adalgiza), de Josenir Lacerda e de Ulisses Germano. A cidade da rima.
Das crônicas de Mademoiselle Claude Bloc, dos textos mais que poéticos de Roberto Jamacaru e das palavras inigualáveis de João Marni. Crato de Zé Flávio, de Dr. Gesteira e de Madre Feitosa.
É desse Crato que eu falo; Desse Crato que eu tenho saudade e que amo tanto. O Crato que não se esquece de si mesmo e que perpetua o esplendor do passado para que ele se reflita no presente e se encaminhe para o futuro. O Crato do povo que luta, que canta e que ri. E que jamais deixará de ampliar e mostrar sua Cultura genuína.
Mas agora, cá me encontro nessa mistura tão tenra de amor e de saudade da minha terra; Mas de muito orgulho e ternura também. Cá me encontro; buscando palavras que resumam tudo o que quero dizer e que quero exaltar.
Enfim não as encontro. E por isso paro por aqui, mas não sem deixar as reticências de tudo o que não disse por esquecimento ou falta de espaço. Não me encerro, mas concluo.
Deixo a quem lê, o pedido de que ame esta terra e de que nunca se esqueça dela. Nem mesmo, por mais longínquo que esteja; Por mais distante que esteja, levai o Crato contigo. Levai o Crato na alma...

Por: Gabriel P. Xenofonte 
Colaborador do Blog do Crato
Foto: Rua Nelson Alencar. De autoria de Renato Rodrigues.

BLOG DO CRATO - 26/12/2017