07 dezembro 2017

A beleza ardente das canções - Por: Emerson Monteiro

Um fio que conduz ao Infinito, aos braços da Paz, as canções. O nada diria, por certo, o que dizem as canções, que falam dentro do coração sem passar nos pensamentos. Revivem e alimentam. Trazem de volta as alegrias escorridas no vento de depois e nunca mais. Ainda que não ouvisse, os ouvidos ouviriam. Iriam buscar nas emoções vividas lá dentro do silêncio o que se perdera no tempo, e criariam outra vez a força de sorrir, caminhar, persistir, acreditar no espelho da solidão donde há de vir extinção das ausências de momentos longe desaparecidos nas despedidas, nas cocheiras da incerteza. Ouviriam, sim, os ouvidos qual dói o peito quando sei que tudo está bem, no entanto o peito fala de algo que desconheço e ele sente independente. Por que dessas apreensões do que nem mais existe e o peito reclama preencher?

As canções falam disso, das vivências que sumiram e vivas permanecem nalgum ponto das melodias, nas letras, nas harmonias delas, das canções. Volteiam pelo ar e invadem o presente de passados cheios de mistério, noites, sentimentos... Sei que estou bem, que tudo segue o curso natural dos acontecimentos... Que ser e existir significam dois lados da mesma moeda, e cuido de acalmar as nuvens das incertezas que sujeitam bolinar saudades acumuladas nas apreensões intrusas. Porém elas, as canções, mexem por dentro do Eterno que persiste falar mais alto do que os desejos da coexistência de mim comigo mesmo.

Vêm suaves nas asas do imenso pássaro das sombras e, ligeiro, quer iluminar o segredo do único habitante da gente. Tais espécies de saltimbancos inconsequentes, vadios, sopram ansiedades aonde antes só havia céus. Nem pedem permissão, chegam e pronto, autoritárias, que reviram o palco da presença do amor e impõem condições inalcançáveis, impossíveis, talvez. Sei bem da bondade e da beleza que oferecem ao espírito, inda que deseje perguntar o porquê do esquecimento perder nisso o direito de continuar existindo, e as canções lembrarem, de novo, de doer o peito há pouco tão quieto.

Há 100 anos, Monteiro Lobato escrevia o artigo: "A luz do baile"...

O artigo abaixo foi escrito em 1918:

"Despercebidos de todo passaram-se este mês dois aniversários. A 2 de dezembro nasceu, a 5 de dezembro faleceu D. Pedro II. Quem foi este homem que não deixou lembranças neste país? Apenas um Imperador… Um Imperador que reinou apenas durante 58 anos…
Tirano? Despótico? Equiparável a qualquer facínora coroado? Não.
Apenas a Marco Aurélio.

A velha dinastia bragantina alcançou com ele esse apogeu de valor mental e moral que já brilhou em Roma, na família Antonina, com o advento de Marco Aurélio. Só lá, nesse período feliz da vida romana, é que se nos depara o sósia moral de Pedro II.

A sua função no formar da nacionalidade brasileira não está bem estudada. Era um ponto fixo, era uma coisa séria, um corpo como os há na natureza, dotados de força catalítica.

Agia pela presença.

O fato de existir na cúspide da sociedade um símbolo vivo e ativo da Honestidade, do Equilíbrio, da Moderação, da Honra e do Dever, bastava para inocular no país em formação o vírus das melhores virtudes cívicas...

O juiz era honesto, senão por injunções da própria consciência, pela presença da Honestidade no trono. O político visava o bem público, se não por determinismo de virtudes pessoais, pela influência catalítica da virtude imperial. As minorias respiravam, a oposição possibilizava-se: o chefe permanente das oposições estava no Trono. A justiça era um fato: havia no trono um juiz supremo e incorruptível. O peculatário, o defraudador, o político negocista, o juiz venal, o soldado covarde, o funcionário relapso, o mau cidadão enfim, e mau por força de pendores congeniais, passava, muitas vezes, a vida inteira sem incidir num só deslize. A natureza o propelia ao crime, ao abuso, à extorsão, à violência, à iniquidade – mas sofreava as rédeas aos maus instintos a simples presença da Equidade e da Justiça no trono.

Ignorávamos isso na Monarquia.

Foi preciso que viesse a República, e que alijasse do trono a força catalítica, para patentear-se bem claro o curioso fenômeno. A mesma gente, o mesmo juiz, o mesmo político, o mesmo soldado, o mesmo funcionário até 15 de novembro honesto, bem intencionado, bravo e cumpridor dos deveres, percebendo, na ausência do imperial freio, ordem de soltura, desaçamaram a alcateia dos maus instintos mantidos em quarentena. Daí, o contraste dia a dia mais frisante entre a vida nacional sob Pedro II e a vida nacional sob qualquer das boas intenções quadrienais, que se revezam na curul republicana.

Pedro II era a luz do baile.

Muita harmonia, respeito às damas, polidez de maneiras, joias de arte sobre os consolos, dando ao conjunto uma impressão genérica de apuradíssima cultura social.
Extingue-se a luz.
As senhoras sentem-se logo apalpadas, trocam-se tabefes, ouvem-se palavreados de tarimba, desaparecem as joias…

Como, se era a mesma gente!

Sim, era a mesma gente. Mas gente em formação, com virtudes cívicas e morais em início de cristalização.

O rei da Serra - Por: Emerson Monteiro

Através de Nemezin conheci Reis, o rei da Serra. Morava de arrancho na casa de um morador do Sítio Venha Ver, próximo de antigo barreiro que pertencera a Filemon Teles, no alto da Chapada já pendendo aos descambos do Pernambuco. Figura típica de roceiro nordestino, vestido num terno antigo, ensebado pelo uso e distante de qualquer lavada que fosse. Ele debaixo de um chapéu de couro dos pequenos, integrava sua fisionomia no ambiente, qual ali houvesse nascido e habitasse desde as origens; trazia a presença envelhecida de personagem longe dos banhos há décadas, carregando consigo velha espingarda de carregar pela boca, um bornal de lona acinzentada, alpercatas rotas, remendadas, homem mais chegado a bicho tal qual os bichos da mata. – De calango acima tudo serve de comer – dizia quando perguntado daquilo de que se alimentava na faina dos dias.

Ali na década de 70 do século passado, Reis já vivera mais de três décadas vagando pela Floresta Nacional do Araripe. Os donos da casa onde dormia algumas noites quando em vez falaram que ele gostava mesmo era de pernoitar fora. Aparecia raramente.

Sua história falava de haver perdido a esposa logo no primeiro parto, quando morava na cidade, em Crato, lá embaixo. A dor fora tamanha que desde então correra no rumo da mata e nela permanecera em definitivo. Achara suficientes motivos de viver a solidão do ermo, longe de tudo e de todos da vida urbana. Jamais regressara às ruas. Sua aparência definia bem o sistema que escolhera praticar. Espécie de peba, ou gambá, ou tatu, cotia, teiú, era só natureza entre a terra e o cascalho, no mundo rústico daquelas existências. Do nariz aos cabelos grandes, desgrenhados, embranquecidos, a engraxada rebrilhosa do negror de suor e poeira, arrastava também no íntimo, em que transportava espécie de humor esquisito dos que esqueceram para sempre a civilização, porém dialogava e ria desconfiado, atencioso ao que lhes perguntavam.

Avistamos Reis duas ou três vezes, e nunca mais. Desapareceria no decorrer da década dos 80, deixando no rastro as raras lembranças naqueles que o conheceram ali na Serra do Araripe. 

"Cara de pau": Em caravana pelo Rio, Lula culpa Lava Jato por mazelas do Estado

Fonte: Folha de S.Paulo, 07-12-2017

    O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva alfinetou velhos aliados na noite desta quarta-feira (6). Em Maricá —única cidade do Rio de Janeiro que é administrada por um petista—, Lula listou casos de governantes detidos em decorrência da Operação Lava Jato para afirmar que a "política entrou num processo de destruição no Rio". Sem citar o nome desses políticos —apenas cargos— Lula disse que "o Rio de Janeiro vai voltar a ter gente honesta governando".
    Na cidade, ele ironizou ainda o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (PMDB), que, em um grampo, aparece dizendo que Maricá "é uma merda de lugar". Curiosamente, o diálogo se deu no ano passado com o próprio Lula, à época seu aliado. Paes comparava a cidade a Atibaia, onde fica um sítio que era usado pelo petista.
    No palanque, Lula disse lamentar que não estivesse ali um ex-prefeito que nunca visitara a cidade, referência a Paes. O ex-presidente também responsabilizou a Lava Jato pelas mazelas do Estado. "A Lava Jato não pode fazer o que está fazendo com o Rio", disse Lula. O petista continuou: "Não pode, por causa de meia dúzia que eles dizem que roubou, mas ainda não provaram, causar esse prejuízo". Funcionários da Prefeitura chegaram uniformizados à praça da Matriz por volta das 17h, para acompanhar o evento com o ex-presidente.


COMENTÁRIO DE ARMANDO RAFAEL

 Faço minhas as palavras publicadas por /Augusto Nunes, meses atrás, na VEJA. A conferir.
   "Movimentando nervosamente as mãos, a gravata modelo babador encobrindo parcialmente a barriga obscena, vincos profundos no rosto proibido para sorrisos, desprovido de álibis, alegações atenuantes ou mesmo desculpas amarelas, (Lula) capricha na pose de perseguido por juízes, procuradores, delegados da Polícia Federal, empreiteiros que o enriqueceram, diretores da Petrobras que nomeou, velhos companheiros como Antonio Palocci, todos os delatores. E muito mais ridículo. 

   Lula não conversa com jornalistas independentes deste novembro de 2005, quando foi entrevistado por ex-apresentadores do programa Roda Viva, da TV Cultura. Então afundado no escândalo do mensalão, foi socorrido por entrevistadores repentinamente interessados em saber se o presidente estava satisfeito com o desempenho do Corinthians ou no que tinha a dizer sobre questões transcendentais ─ a vida e suas implicações, por exemplo". 
Este o Lula atual, o que restou depois da condenação a 9 anos e meio de cadeia, pelo Juiz Sérgio Moro; o Lula  que percorre um Estado da Federação – o outrora rico Rio de Janeiro, hoje quebrado e desorganizado pela ação dos seus maus políticos – o Lula que é hostilizado pela população fluminense e que precisa de funcionários da Prefeitura para encher o pequeno espaço de uma pequena cidade: Maricá, a única que elegeu um prefeito do PT no Estado do Rio. Maricá, onde Sérgio Cabral possui uma mega-mansão,  construída com dinheiro de propinas. Brasil pobre de lideranças políticas sadias...