17 novembro 2017

Presidente Michel Temer contribui para os exageros de Itu: agora a cidade foi denominada “A Capital Republicana do Brasil” – por Armando Lopes Rafael (*)

   Certamente o caro leitor já ouviu falar na cidade de Itu. Localizada no interior do Estado de São Paulo, Itu ficou conhecida como a cidade dos exageros. Lá, quase tudo é ampliado. Muita coisa toma a forma de um exagero. No último dia 15 de novembro – um feriado artificial criado para induzir a população a comemorar a Proclamação da República – o Governo Federal decidiu que Itu passa a ser “O Berço da República Brasileira”. Outra hipérbole no rol dos exageros que caracteriza aquela cidade paulista.
       Até o Presidente Michel Temer (este um “republicano da gema”, expressão tola usada no Cariri cearense) viajou para Itu, no dia da lamentada “Proclamação”. Perdulário, como soe acontecer nas repúblicas, Michel Temer usou o avião presidencial, um helicóptero, utilizou o caríssimo aparato de segurança, e ainda levou com ele alguns ministros. Em recinto fechado, sem sentir o “cheiro do povo” (Ah! esta expressão do Papa Francisco) Michel anunciou – via televisão – que simbolicamente estava transferindo a Capital da República de Brasília para Itu. Além do exagero a solenidade foi um fracasso de público.
        A bem dizer, foi uma solenidade insignificante. Mixuruca mesmo. Sem a presença do “povão” (Ah! esta expressão republicana). No recinto, só algumas autoridades ouviram o discurso do Presidente Temer, a relembrar o “grande feito” da fundação do Partido Republicano, em Itu, no dia 18 de abril de 1873. Aliás, no último 15 de novembro, em todo o Brasil, nunca se recordou tanto – e com que saudades! – os bons tempos da monarquia. Comprovou-se, definitivamente, que o brasileiro não tem motivo nenhum para comemorar a imposição que lhe foi feita por uma minoria de golpistas enfiando, goela abaixo, esta fracassada República...
           A Assessoria de Comunicação da Presidência da República divulgou, através da mídia, que “Itu é o berço da República”, pois lá teria sido realizada a “primeira reunião para criar um Partido Republicano”, aproveitando o clima de liberdade que existia no Império do Brasil. Segundo a propaganda oficial, no dia 18 de abril de 1873, em Itu, na casa do deputado Prudente de Morais, aconteceu uma “convenção” reunindo republicanos de várias cidades paulistas com o objetivo de difundir a campanha visando instaurar a República no Brasil”. 
              Voltemos à visita do Presidente Temer a Itu. Enquanto as autoridades, num auditório, ouviam loas à República, nas ruas e praças de todas as regiões do Brasil, centenas de monarquistas realizavam um “Bandeiraço pela liberdade e contra a corrupção republicana”. “Bandeiraço” feito espontaneamente, sem ajuda dos cofres públicos, exatamente ao contrário do alto custo dispendido pelo Presidente Michel Temer para aparecer 30 segundos nos noticiários da televisão.
                Agora a verdade histórica: Os republicanos tentaram, por todos os meios, atrair o povo para as suas ideias, a partir da reunião feita em Itu, em 1873. Deram com os burros n’água... Um trabalho em vão! Em 1884, bem próximo do golpe militar que instaurou a República, existiam no Parlamento do Império apenas 03 (três) deputados eleitos pelo Partido Republicano. Pior ainda: na data do golpe – 15 de novembro de 1889 – existia no Brasil apenas 0l (um) deputado republicano. Isso mesmo que eleitor leu: existia apenas um deputado eleito pelo Partido Republicano no Parlamento do Império.
                  Precisa acrescentar mais alguma coisa? Sim. Aos tradicionais exageros de Itu foi acrescentado mais um: Itu foi apelidada agora de “A Capital Republicana do Brasil”. Definem os dicionários que Exagero é o ato ou efeito de exagerar, ou aquilo que se encareceu em demasia. 
                   Pois foi isso que o Presidente Temer fez em Itu. Enquanto isso, lá fora, nas ruas e praças ("A praça é do povo como o céu é do condor”, Ah! essa ode do poeta baiano) centenas de brasileiros exibiam, com orgulho, exemplares da Bandeira Imperial. Inclusive na maior cidade do Cariri cearense...

(*) Armando Lopes Rafael é historiador.

O republicano tardio

O Marechal Deodoro da Fonseca jamais contestou que, até as vésperas do golpe de 15 de novembro de 1889, tivesse servido devotadamente ao Imperador Dom Pedro II. A sua adesão às ideias de Benjamin Constant data, talvez, de 10 a 12 daquele mês.
Certo dia, já Presidente da República, Deodoro recebeu, no Palácio do Itamaraty, a visita de um cavalheiro que alegava ser republicano de longa data, batendo-se pela República desde 1875. O Marechal então lhe disse:
—– Pois eu, meu caro senhor, não dato de tão longe. Eu sou republicano de 15 de novembro, e o meu irmão Hermes da Fonseca de 17!
(Baseado em trecho do livro “Revivendo o Brasil-Império”, de Leopoldo Bibiano Xavier).
(Postado por Armando Lopes Rafael)