04 novembro 2017

A busca de todos - Por: Emerson Monteiro

Sem exceção, todos buscam o minério da existência. Do menor ao maior. Do papa ao sacristão. O ato de viver significa, por isso, tocar os passos no sentido de achar o pouso de tanta correria. Mais do que adquirir bens, ganhar fama, fortuna, poder, a aventura humana possui a força de continuar em rumo do que virá na sequência de tudo que restou. Uns até imaginando saber mais do que outros aonde quer chegar. No entanto o limite do caminho dará de cara com o abismo do desconhecido, pouco representando a importância obtida no decorrer das ações.

Conta a tradição indiana que, em certo dia, Buda fora procurado por uma mãe sobraçando o filho morto. No auge do desespero, pediu ao santo lhe reavivasse o amado filho, razão principal da sua existência.

Buda, então, pediria que deixasse o corpo da criança e fosse localizar alguém que nunca houvesse perdido alguém, que nunca passara pelo que ela, naquele instante, vivenciava com tamanha amargura.

Aquela mãe, tocada pela dolorosa separação do filho, sairia de casa em casa, o dia inteiro, a perguntar por pessoa que jamais fora vítima do luto. A jornada continuaria até o dia terminar, sem que obtivesse qualquer sucesso na esforçada tarefa.

Desse modo, a mãe retornou ao místico e prestou conta da missão, momento quando também já trazia consigo o repouso da conformação face à perda que atravessava. Conta a história que, em consequência, tornar-se-ia discípula do Mestre, a quem seguiria na caminhada espiritual.

Quem, indagamos, estaria isento de domar a angústia, o desespero humano, justa medida que impõe a condição de viver neste mundo? Todos defrontam essa busca de responder ao enigma dos dias, razão essencial de tudo quanto há. Por vezes, alguns dão notícias de revelar a consciência, no entanto são poucos, raros. Ainda que diante das ilusões que só se desmancham no ar, existe o império da vontade nessa busca incessante.

Quatorze anos sem Rachel de Queiroz -- por José Luís Lira (*)

O tempo passa tão rápido... Já se foram 14 anos... Naquele dia, confuso, sem acreditar, mesmo sabendo que Você já estava na glória, escrevi o texto que se segue.
Verdadeiramente não o reli. Hoje tenho mesmo é saudades. Saudades das conversas ao telefone, da crônica de sábado n'O Povo, da perspectiva de um novo livro, um novo romance.
Como dizem dois poetas mineiros: "Qualquer dia a gente volta a se encontrar".
Rachel, vida plena


   É de Lustosa da Costa a afirmação: “Triste o destino de enterrar amigos! Seria mais grato ao coração levar ao túmulo desafetos, criaturas desagradáveis, intoleráveis concidadãos. Não nos permite o Destino este comprazimento: obriga-nos a sepultar afeições, jogar as teóricas pás de terra da separação sobre os que nos são caros. É a condição inerente da criatura humana”.
   Mesmo conhecendo as limitações por que passava nossa escritora e amiga amada Rachel de Queiroz, não acreditava que o seu desfecho se desse agora. A vida lhe foi plena. Ela dizia: “Vivi muito, sofri muito e tomei pouco juízo”. Contudo, a “doce anarquista” foi uma das mais sensatas figuras que conheci. Os místicos poderiam dizer que sua aura era extremamente iluminada.
   Esbanjando sabedoria, a jovem rebelde que aos 20 anos firmou o romance regional na literatura brasileira e aos 24, foi a primeira mulher cearense a se candidatar a deputada estadual, se tornou um símbolo, uma eterna referência. E sempre que falarmos em literatura, lá seu nome estará.
   No início, logo que a conheci, através das páginas de “O Quinze”, ela passou a ser um mito, um modelo. Pouco a pouco, adentrei no mundo da imortal, tornei-me seu amigo e ousei escrever sua biografia - meu penúltimo livro, “No Alpendre com Rachel”. Fiz o trabalho meio receoso. Conhecia bem minha amiga e sabia de sua antipatia à idéia de memórias; então, primeiro mostrei o trabalho à Isinha (Maria Luíza de Queiroz, sua irmã), depois à própria Rachel. E foi grande minha surpresa ante sua aprovação.
   A última vez que com ela estive foi no dia 13 de julho passado. Ela estava bem, sorridente (marca sua - a “Dama do Sorriso”). Reclamava da dificuldade de mobilidade e da saudade do sertão, até porque no Rio chovia e parecia um daqueles dias de inverno aqui no Ceará. “Quando nos veremos de novo?”, perguntou ela. Em novembro, no seu aniversário, disse eu. “Vai demorar muito. Por que você não vem antes?”, continuou ela.
   Apesar da emoção normal que nos invade quando nos despedimos de alguém que amamos muito, não achava que aquele fosse ser nosso último encontro; que as fotografias que tiramos dois dias antes, seriam as últimas. Não consigo acreditar que isso aconteceu. Creditava-lhe a imortalidade definitiva. Ela era uma “senhora danada”, não iria embora tão cedo, sem ao menos uma despedida, mas ela nunca gostou delas.
    Choro a morte da amiga, e o teclado do computador vai ficando molhado de lágrimas, mas sei que a escritora está mais viva do que nunca e a cada vez que dela nos lembrarmos a mesma lágrima que ora cai, retornará. Mas seu nome ficou eternamente gravado na Literatura, na História, no meu coração tão apaixonado por ela, na memória do povo cearense. É um símbolo, e símbolos não se explicam, não se substituem e sim, se eternizam...
   Hoje tem festa no Céu, pois, embora considerando o agnosticismo de Rachel, não há outro lugar para ela, lembrando o que disse Frei Leonardo Boff em relação a Darcy Ribeiro. Deus a estará acolhendo de braços abertos, sob os aplausos de Oyama Macedo, Roberto, Clotilde e Daniel de Queiroz, Manuel Bandeira, Graça Aranha, Alceu Amoroso Lima, Adonias Filho, Moreira Campos, José Bonifácio, Dinah Silveira de Queiroz, Ir. Simas, Alba Frota, dentre outros, ao som de “Asa Branca”, entoado pelo seu amigo Luiz Gonzaga, com as bênçãos de Dom Hélder Câmara e do Pe. Cícero. Ela se foi e novamente se tornou um mito. Virou estrela, saudade...
   Com o coração esfacelado digo, por obrigação: adeus madrinha. A sua bênção!

(*) José Luís Lira, advogado e escritor, autor de "No Alpendre com Rachel", biografia de Rachel de Queiroz.
(crônica publicada originalmente no "Diário do Nordeste", 5 de novembro de 2003).