27 setembro 2017

As paisagens da casa - Por: Emerson Monteiro

Ao regressar aos lugares, sentimo-nos quais viajantes de uma extensão d e um próprio corpo que antes habitamos; a casa, a pele, o chão em que pisamos nos tempos anteriores valem isto. Até no escuro sabíamos aonde andar e achar os mínimos detalhes. Às apalpadelas, reuníamos pelo tato a nós mesmos, na amplidão do território em que vivêramos. Algo assim parecido qual estando presos a uma caixa acústica e conhecendo todos os sons de velhas melodias nas acústicas de larga mansão. Olhos no escuro. Pés ligeiros nas superfícies conhecidas. Locais dos amores de si, quando dominávamos o espaço com a habilidade dos animais farejadores. Conhecíamos os cheiros, as lufadas de vento que ali circulavam suaves, nas tardes quentes, os caminhos do Sol e o firmamento, no lar das manhãs frias.

Reconheci tais motivos nas vezes em que regressei aos ninhos vazios onde morara e só o silêncio contundente respondeu aos apelos do sentimento indagador que nada encontrava. Saudade enfurecida pareceu querer tomar de conta de tudo em volta. Bicho ausente de garras afiadas saltou por cima das minhas costas tipos de afetos desencantados, abandonados atrás, frutos da ingratidão dos que vão embora e os deixa largados na vastidão do passado inexistente.

Nisso, o desejo agoniado de reencontrar aquele eu que circulava pelos cantos conhecidos, nas estantes, nos livros, discos, filmes; nos pontos de repouso; nas cadeiras de meditação; nos bancos da varanda; pelas plantas inesquecíveis, vistas dos outros animais a vagar soltos no terreiro; as folhas secas espalhadas no outono dos séculos; as máquinas, que funcionavam nos instantes exatos da presença de nunca mais; a mesa das refeições; os ambientes íntimos; o leito; a solidão; as músicas de tantas horas; as outras pessoas; a escada; o movimento natural da limpeza, das roupas, dos dias; as noites, as horas em constante atividade; as madrugas, e o coração da gente; e o telefone a tocar perdido; as histórias; as visitas; estações do ano; frutas temporãs; fortunas inigualáveis abraçadas aqui na memória guardada nos cômodas imortais das criaturas humanas que viviam, viveram e viverão.

Ah, paisagens da eternidade na alma da casa. Ah, paisagens da alma da gente espraiadas no que fomos e sempre seremos. Cantinhos gostosos de viver dessa casa em que fomos dentro deste lugar de ser e existir que haveremos de habitar em definitivo certo dia, o nosso Eu verdadeiro.