xmlns:fb='http://www.facebook.com/2008/fbml' xmlns:og="http://opengraphprotocol.org/schema/"> 15/03/2017 | Blog do Crato
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VÍDEO - VÍDEO DE LANÇAMENTO - Em breve, as novas transmissões TV Chapada do Araripe. Espero que curtam o vídeo de lançamento abaixo, em que há uma pequena retrospectiva de alguns trabalhos, reportagens já feitas ao longo dos muitos anos que fazemos reportagens. ( Veja o vídeo e compartilhe ). www.tvchapadadoararipe.com



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15 março 2017

Presos numa cápsula - Por: Emerson Monteiro

Durante bom tempo privávamos de autores de ficção científica em alerta ao que viria adiante. Era mais uma fase literária. O mundo começava a cores de impossibilidades galopantes. Ainda que houvesse boa vontade naquela geração bronzeada, pesavam-nos as decisões de guerras e desmandos desses líderes à toa que preenchem o lugar de chefes de países sem a menor competência. Sustentam apenas o desastre constante das máquinas e ainda pousam de poderosos, a destruir esperanças através do mercado financeiro. Bom, a gente buscava um jeito qualquer de não perder o sono. Eram músicas, livros, praias, amores, bebidas, drogas, vontade de sonhar intensamente.

A televisão e os celulares jamais anunciavam que eles dominariam o pedaço. Mas queimavam por baixo. A cibernética chegava às cavernas e academias, e invadia os chãos das fábricas. Lojas eram menos do que pontos turísticos dos hoje shoppings alienados. No entanto passávamos pelo tempo quais esses filmes de fotografia que transformam idade em velocidade. A aceleração nem de longe imaginávamos fosse tão veloz. 20 séculos em um minuto.

E hoje cá estamos amarrados por cabos metálicos nesta nave esquisita; de capacetes, máscaras de gás, roupas brilhantes de chumbo derretido, sons reluzentes e profecias indiferentes à sobrevivência da Humanidade.

Já festejamos a prisão da velha cápsula que alguns ainda chamam vida humana, olhos acesos em coisa alguma, porém dotados das mesmas artimanhas que montaram o passado das conquistas, dando continuidade à aventura perante o Cosmos. Os incensos continuam sendo acesos nos pés das imagens necessárias e o coração segue batendo na constante dos inícios. Alguns sinais riscam os céus, entretanto poucos e nenhuns sabem de que se tratam os horizontes. Às vezes contam histórias mirabolantes de seres que passaram aqui e deixaram marcados seus rastros nas pedras.

Lado a lado conosco, outros também atravessam o mar de areia das horas em caravanas dolentes. São nuvens e os únicos indícios de que corre o vento e nada parou. De certeza surgirão dias novos e luzes nas trevas que brilharão para sempre.

Centenário de Roberto Campos (1917-2001) – por Ricardo Vélez Rodriguez (*)

Um democrata que sempre se empenhou na modernização das nossas instituições

Comemora-se este ano, no dia 17 de abril, o centenário de Roberto Campos.
A sua figura é importante no processo de redemocratização do Brasil, pois Campos conhecia em profundidade não apenas a natureza patrimonialista do Estado, como também as mudanças pelas quais o País enveredou no segundo pós-guerra, tendo participado dos esforços de modernização e democratização das nossas instituições.
Durante décadas o establishment do Itamaraty tentou riscar do mapa o embaixador Roberto Campos, porquanto representativa de um perigo para os que se haviam encastelado no regime de sesmarias ao redor de uma opção pelo “socialismo real”, após a derrota dos alemães na 2.ª Guerra Mundial. Quando nosso personagem optou por se habilitar em concurso para trabalhar no Ministério das Relações Exteriores em pleno Estado Novo, no ano de 1938, a maior parte dos diplomatas brasileiros se colocava no contexto dos interesses do Eixo. Mas quando as forças de Hitler começaram a ser derrotadas pelos Aliados na etapa final da 2.ª Grande Guerra, os diplomatas correram céleres para se arrumarem em torno dos representantes das democracias ditas “populares”, chefiadas pela antiga União Soviética. Guinada de 180 graus que, contudo, deixou intacto o dogmatismo e o gosto pelo “poder total”.
Entre os Aliados, os itamaratyanos fizeram a sua escolha: os russos, que representavam a nova força que se estabelecia no mundo, contrária aos americanos. A respeito do clima que se vivia no Ministério das Relações Exteriores no contexto dessa arrumação ideológica, escreve Roberto Campos: “O Itamaraty, situado na Avenida Marechal Floriano (a antiga rua Larga de São Joaquim), era comumente apelidado de Butantã da Rua Larga. São cobras, mas fingem que são minhocas – dizia-me de seus colegas o admirável Guimarães Rosa, que depois se tornaria o meu escritor preferido” (Roberto Campos, Lanterna na Popa – Memórias, Rio de Janeiro, Topbooks, 1994, pág. 31).
Roberto Campos e um grupo minoritário representaram a opção por um conceito de diplomacia afinado com a democracia ocidental e alheio à busca do “democratismo” que terminou vingando no mundo comunista. Como ele mesmo destacava, virou uma espécie de “profeta da liberdade”, à maneira, aliás, de Tocqueville, que se descrevia a si próprio como um “São João Batista que prega no deserto”. A respeito da opção liberal, frisa Roberto Campos na sua obra autobiográfica, A Lanterna na Popa: “Em nenhum momento consegui a grandeza. Em todos os momentos procurei escapar da mediocridade. Fui um pouco um apóstolo, sem a coragem de ser mártir. Lutei contra as marés do nacional-populismo, antecipando o refluxo da onda. Às vezes ousei profetizar, não por ver mais que os outros, mas por ver antes. Por muito tempo, ao defender o liberalismo econômico, fui considerado um herege imprudente. Os acontecimentos mundiais, na visão de alguns, me promoveram a profeta responsável”.
Talvez o traço mais marcante da personalidade intelectual de Roberto Campos tenha sido a capacidade de rir de si próprio, estabelecendo uma saudável relatividade nos seus pontos de vista. Definiu-se a si mesmo, no primeiro capítulo de sua autobiografia, como “analfabeto erudito”. Analfabeto em matéria de especialidades cartoriais que o habilitariam para um concurso público. Mas erudito por uma inegável formação humanística haurida no seminário, onde cursou os estudos completos de Filosofia e Teologia, além de ter recebido as ordens menores – hostiário, leitor, exorcista, acólito.
Assim, a passagem de Roberto Campos pela divisão de “secos e molhados” (nome jocoso dado pelo nosso autor à área de Assuntos Econômicos do Itamaraty) foi bastante profícua, tendo-o colocado, juntamente com Eugênio Gudin, na linha de frente da formulação das políticas econômicas, que se tornariam, após a Conferência de Bretton Woods, em 1944, a peça forte das relações diplomáticas. (Da mencionada conferência Roberto Campos participou como assessor da equipe brasileira chefiada pelo professor Gudin.)
Duas etapas podem ser reconhecidas na formação do liberalismo econômico no nosso autor: a primeira, em que a influência maior veio de Keynes, e a segunda, já derrubado o Muro de Berlim, com uma aproximação maior do pensamento da Escola Austríaca. Mas sempre mantendo atenta a vista na construção de instituições que conduzissem o Brasil ao pleno desenvolvimento econômico com preservação da liberdade.
Roberto Campos foi também um crítico do patrimonialismo. Ao meu ver, um crítico sistemático das práticas patrimonialistas com a tendência a fazer do Estado negócio familiar. Na sua última fala no Congresso Nacional, ao se despedir da vida pública, em 1999, frisou naquela bela página divulgada pelo Estadão: “ (...). Sempre achei que um dos mais graves problemas dos subdesenvolvidos é a sua incompetência na descoberta dos verdadeiros inimigos. Assim, por exemplo os responsáveis pela nossa pobreza não são o liberalismo, nem o capitalismo, em que somos noviços destreinados, e sim a inflação, a falta de educação básica e um assistencialismo governamental incompetente, que faz com que os assistentes passem melhor que os assistidos. Os inimigos do desenvolvimento não são os entreguistas, que, aliás, só poderiam entregar miséria e subdesenvolvimento, e sim os monopolistas, que cultivam ineficiências e criaram uma nova classe de privilegiados – os burgueses do Estado. Os promotores da inflação não são a ganância dos empresários ou a predação das multinacionais, e sim esse velho safado, que conosco convive desde o albor da República – o déficit do setor público” (A despedida de Roberto Campos, O Estado de S. Paulo, 31/1/1999, página A8).

(*) Ricardo Vélez Rodriguez é coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas da UFJF, professor emérito da Eceme, docente da Faculdade Arthur Thomas, em Londrina (PR) – E-mail: rive2001@gmail.com
Artigo publicado no jornal "O Estado de S.Paulo", 15-03-2017

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