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19 julho 2017

"Dois bicos de luz para Cego Aderaldo" -- por Rosemberg Cariry (*)


Em tempos de fama, com fotos estampadas nas primeiras páginas dos mais importantes jornais do País, com prestígio entre artistas, políticos e autoridades nacionais, o Cego Aderaldo começou a ser reconhecido também em sua cidade de adoção, Quixadá. Em 1953, a Prefeitura da cidade quis fazer sua parte nesse esforço de reconhecimento e determinou que a residência do Cego Aderaldo tivesse energia elétrica, com “dois bicos de luz” fornecidos pelo poder público. A luz serviria para que os filhos de criação do Cego Aderaldo pudessem estudar e, à noite, ler os livros preferidos do velho cantador.
“Alegria de pobre dura pouco”, como diz de forma sarcástica um provérbio popular em voga ainda hoje no Ceará. Vendo o Cego Aderaldo com energia elétrica em sua casa, alguns invejosos da cidade começaram a fazer uma campanha para que a mesma fosse cortada.

Argumentavam os “fuxiqueiros de plantão”, em nome da “moralidade pública”, que o Cego Aderaldo ficara rico e famoso com a sua viagem ao Rio de Janeiro e São Paulo e que não precisaria das benesses da municipalidade.
Zelosa da sua reputação, a Prefeitura de Quixadá mandou, sem mais demora, cortar o fornecimento de luz na casa do Cego Aderaldo. O acontecimento é manchete nos jornais de Fortaleza. O jornal Unitário, de 21 de junho de 1953, acusa o recebimento de uma carta intitulada “Sem Luz o Cego Aderaldo”. Para quem já sofrera tantas agruras na mão do destino, Cego Aderaldo possuía a sabedoria serena e espirituosa que lhe permitia tirar graça e fazer ironia dos pequenos problemas cotidianos. Aos jornais, declarou-se conformado: “Cego não precisa de luz mesmo, assim como o mar não precisa de água”. Desse jeito, ele ironiza a situação. No entanto, vivia ele em situação pouco auspiciosa. A sua tropa de burros havia morrido de fome e sede, ele estava sem fazer cantorias ou projetar o seu cinema, por causa da crise causada pela seca. Passava necessidades.
Sobre a seca, Cego Aderaldo havia escrito: “E dona Fome na frente,/ Na cadeira do trapiche, / Dizendo: - No Ceará / Tudo é fofo e nada é “fixe” / Juro que aqui nesta terra / Não vinga mais nem maxixe”.
Os versos “No Ceará tudo é fofo e nada é fixe (fixo)” podem ser traduzidos com a seguinte compreensão: no Ceará, nada tem raízes profundas e não se fixa nem na terra nem na alma. Ora atingido por uma natureza inclemente que força o cearense a arribar da terra natal, ora deflagrando-se em guerras instintivas pela sobrevivência, quase sempre governado por uma classe dominante atrasada, egoísta e impiedosa, o cearense construiu a sua história sob o signo da dor e da transitoriedade.
Deixou-nos Aderaldo uma lição. Que nós, cearenses, somos um povo do caminho, em trânsito, em construção, sempre em busca de novidades, sem tempo para reconstruirmos as nossas heranças de humanidades. O passado (de fomes e privações) nos assombra, e o futuro é incerto, então nos resta o agarrar-nos ao presente de forma desesperada, inclusive pelo paradoxo de ser o “presente” aquilo que flui e deixa de ser.

 (*) Rosemberg Cariry, Cineasta e escritor. E-mail:ar.moura@uol.com.br

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