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20 fevereiro 2017

O primeiro livro que ganhei – por Armando Lopes Rafael

   Nunca esqueci o primeiro livro que recebi de presente. Era um volume fino e comprido, produzido em papel couché. Tinha uma capa grossa e por titulo “A Filha do Rio Verde”, da escritora Lúcia Miguel Pereira (foto ao lado). Profusamente colorido, meu primeiro livro contava a história de uma menina que um dia subiu num peixe e foi descendo o Rio Verde para conhecer novas paisagens, ou seja, para descobrir o mundo. Eu devia ter por volta de 6 a 7 anos quando recebi aquele livro. Foi-me presenteado por meu pai, Antônio Rafael Dias. Meu pai era um entusiasta dos livros. E com aquele presente queria incentivar-me ao hábito da leitura. Hábito que se tornou presente no meu modo de vida até os presentes dias do ano da Graça de 2017.
   No entanto, só muitos anos depois, senti a plenitude daquele gesto do meu pai. Homem pobre, com muitos filhos para criar, o livro que me presenteara – adquirido numa livraria de Crato, em meados dos anos cinquenta – deve ter custado a ele um bom dinheiro, dado o seu modesto salário. Em troca, restou em mim uma doce recordação que guardei ao longo da minha existência.
   Por que estou escrevendo isso? É que anos atrás, recebi um exemplar do Jornal da ANE-Associação Nacional dos Escritores, entidade, àquela época, presidida por José Peixoto Júnior, intelectual caririense, originário do distrito de Cariri mirim (também conhecido por Caririzinho) um vilarejo localizado no lado pernambucano da Chapada do Araripe.
   No jornalzinho da ANE estava publicado um artigo sobre Lúcia Miguel Pereira, a autora do livro “A Filha do Rio Verde”. Constava, no jornal, a seguinte informação: “Miguel Pereira, o grande médico brasileiro das duas primeiras décadas do século passado, teve uma vasta prole. Lúcia Vera, ou apenas Lúcia, como ela mesmo se encarregou de simplificar, foi a segunda dos seus seis filhos, precedida apenas pela irmã Helena. Nascida em 12 de dezembro de 1901, era mineira por acaso. Sua mãe, para fugir do calor do verão do Rio de Janeiro, passava uma temporada em Barbacena, quando deu à luz, sem tempo de voltar ao Rio para fazê-lo, como era seu desejo”.
Lúcia Miguel Pereira tornou-se escritora ainda adolescente. Em 1936, escreveu e publicou o livro “Machado de Assis–estudo crítico e biográfico”. Escreveu também uma biografia do poeta Gonçalves Dias, intitulado “Prosa de Ficção”. É autora de quatro ivros infantis. Ao todo foram mais de quarenta livros da sua lavra.
O artigo do Jornal da ANE, sobre Lúcia Miguel Pinheiro, foi encerrado assim: “Filha exemplar, companheira perfeita, mãe e avó incomparável, amiga atenta e presente, intelectual e escritora como poucas o Brasil conheceu, a vida de Lúcia Miguel Pereira, encerrada tragicamente, ao lado do seu amado, em 22 de dezembro de 1959, encontrou sua melhor definição na síntese irretocável que sobre ela produziu seu primo e discípulo Antônio Cândido de Mello e Souza: “Lúcia foi um ser de exceção”.
Lúcia e o marido faleceram num acidente com um avião em que viajavam. Este caiu em Ramos, um bairro da zona norte do Rio, devido a uma colisão, motivada por erro de Eduardo da Silva Pereira, piloto da FAB, que tinha apenas 19 horas de voo.
Para mim, na minha meninice, Lúcia Miguel Pereira fez-me descobrir os livros, povoando meus sonhos infantis, com a obra que escreveu sobre Esmeralda, uma menina montada num enorme peixe, descendo o Rio Verde, descobrindo novas paisagens, descobrindo o mundo...

Texto e postagem: Armando Lopes Rafael.

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