12 dezembro 2016

Poucas histórias de Seu Lunga - Por: Emerson Monteiro

Das histórias de Seu Lunga, ou a ele atribuídas, outro dia escutei, de Pádua Campos Filho, uma das mais geniais.

O velho mestre da objetividade extrema atravessava a cavalo povoação do Cariri, quando rajada inoportuna de vento lhe arrancou o chapéu, que caía rolando sobre o solo empoeirado deste chão sertanejo. Seguia em frente qual se nada houvesse acontecido. Porém se viu advertido por morador das imediações, que chamou sua atenção em face da ocorrência:

- Senhor, senhor, olhe, seu chapéu ficou pra trás.

Nisso, e sem demonstrar o menor constrangimento, mas compreendendo o que ouvia, apenas, indiferente, olhou na direção do chapéu que ficara abandonado na estrada, e disse:

- Deixa lá. Eu só quero quem me quer – prosseguindo faceiro na direção aonde cavalgava.

...

Doutra feita, diante de um vendedor de loja de produtos agropecuários, buscava adquirir algum veneno de matar ratos. Indagou o preço, coisa e tal, até demonstrar que queria comprar a mercadoria. Mas o moço que lhe atendia dividiu-se em responder também a outro freguês. Quando regressa de volta na direção de Lunga, lembra a negociação inicial e pergunta:

- Sim, Seu Lunga, o senhor vai levar o veneno? Quer que embrulhe?

E o personagem das impaciências antológicas, assim já meio aborrecido com a desatenção do caixeiro, simplesmente respondeu:

- Não, vou levar não. Eu vou é trazer os bichinhos pra comer aqui mesmo no balcão da loja.

...

Época de chuvas em manhã de sol aberto, e tirava algumas goteiras, quando ali passava vizinho bisbilhoteiro e perguntou:

- Tirando umas goteiras, não é, Seu Lunga?!

De sangue quente do calor e da função que desempenha, por cima impaciente com perguntas desnecessárias, o personagem respira fundo, muda de atitude; nisso, começa a pisar as telhas da residência de forma brutal, quebrando-as com vontade, e revida:

- Tirando, não. Eu tô é aumentando as goteiras que já existem, não tá vendo?!